Duffy
João Henriques
Super Bock Super Rock

Um festival sem festa

20.07.2009 - João Bonifácio
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Nem Duffy serviu para enlouquecer as gentes e os Killers foram os únicos a entusiasmar o povo, num festival que se esqueceu da festa

Toda a gente que segue futebol com um mínimo de regularidade conhece a constante nudez quinzenal do Estádio do Restelo. O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. Portanto a ideia de fazer um festival de música popular naquele mesmo estádio quase parece uma acção de beneficência.
Mas ainda não foi o Super Bock Super Rock de anteontem a conseguir transformar aquele rectângulo num local de alegria descontrolada. Porque, apesar de ser um festival, de música e ainda por cima popular, o Super Bock Super Rock teve pouca festa, música que ai Jesus e o povo esteve manso.

Considere-se o cenário que aguardava os óptimos The Walkmen lá pelas seis e meia da tarde. Tocam essencialmente canções de You and Me, o disco mais recente, que soa a Dylan em 1969, se o bardo tivesse passado uma temporada na fronteira com o México a brincar com castanholas, marimbas e maracas. Estavam entre mil a duas mil pessoas a vê-los, que gritavam quando as guitarras se levantavam. Mas bastava olhar para aquela juventude para notar ao que vinham: tinham t-shirts dos Killers, o nome The Killers desenhado nos braços, cartazes com a inscrição The Killers. Gritavam quando as guitarras explodiam porque foi isso que a música dos The Killers lhes ensinou: quando o volume explode, há que berrar.

Brandi Carlile devia ter mais um ou dois pares de milhares de almas a assistir. Desde o Sudoeste de 2007, esta é a quarta vez que Carlile vem a Portugal, tudo graças a um trecho épico de uma canção num anúncio de cerveja. Carlile podia ter optado por tocar apenas esse trecho, mas preferiu fazer desfilar um sem-número de variações anódinas de rock adulto, em que invariavelmente a sua voz ia aos agudos com a fé dos devotos, assim estragando qualquer possibilidade de um final de tarde tranquilo. Fez uma data de versões, todas elas óbvias: dos Radiohead foi buscar Creep; de Cash Folsom prison blues; e de Cohen Hallelujah. Carlile não gosta de música, gosta da hora de ponta da rádio FM.
Mais uns milhares de almas depois, os Mando Diao subiram ao palco com guitarras barulhentas, um percussionista que também tocava trompete e duas coristas. Ganham pontos extra por tentarem fazer barulho, por terem um trompete e por terem coristas. Perdem esses pontos por não terem canções.

A soul de Duffy

E assim se chegou a Duffy, que tem óptimas canções, mas poucas. Envergando um belo vestido com pintas pretas, ofereceu três quartos de hora de soul à antiga, a que só faltou uma secção de metais. A mais-valia desta moça de extraordinária voz é a sua crença pura: percebe-se que ela não está ali pelo cool ou pela droga. Ela gosta daquilo e enche as canções com uma alma rara. Fez muitas famílias e casalinhos felizes e merece a mesma felicidade ou mais ainda.
Às 23h30, os Killers subiram ao palco para espalhar o seu charme gongórico. Era basicamente por eles que a maior parte das pessoas ali estava, e fizeram sabê-lo reagindo entusiasticamente a cada movimentação de Brandon Flowers, o frontman.

Por muito que não gostemos dos Killers (e não gostamos nem um pouco), ao menos têm um espectáculo tão bem ensaiado que, por um instante, quase acreditamos que estamos num festival de Verão, em que a juventude se entrega ao hedonismo e ao exagero próprios da saúde que tem. (Apesar de isso não ter acontecido.)
Todas as canções têm riffs óbvios que desaguam em refrões invariavelmente em crescendo, a base rítmica é sempre funk-deslavado ou disco-sound reciclado, todo o motivo melódico tem de ter um carácter épico e há sempre um sintetizador piroso para convencer os nostálgicos dos anos 80.

A meio de All this things that I've done (toalhas de órgãos berrantes, canto épico), ocorre-nos que eles estão a meio caminho entre os Def Leppard e o pior de Bruce Springsteen e quase ficamos à espera do momento em que vamos ouvir cantar uma versão fatela de Born in the USA sob um fundo disco-sound enquanto a câmara foca um baterista com um só braço.
Mas não. Foi a festa possível e foi escassa como os fins de tarde futebolísticos no Restelo costumam ser.


Comentários
comentario 1 a 10 de um total de 248
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comentario09.08.2009 - 17:53 - Paulo Agostinho, Coimbra
Chego a este artigo através do caminho da polémica que causou. Estranho país este, que encontra razão para polémica num artigo que não diz nada de extraordinário, apenas transmite a opinião de alguém que foi ver um concerto e regressou desencantado. O artigo nada tem de ofensivo, de abusivo. Se o autor não gostou do concerto e o quis relatar aos leitores do Público (ninguém é leitor do Público ou desta crónica em particular por imposição), óptimo. Se não gosta dos Killers, certamente não será o único. Se escreve com ironia, está no seu direito. Como dizia atrás, estranho país este onde a justiça não funciona, os governantes são suspeitos de crimes de corrupção que permanecem por esclarecer, o desemprego aumenta, o ensino é um circo de aparências e estatísticas, e as pessoas geram polémicas por causa de um artigo de opinião sobre um concerto no estádio do Restelo.
comentario04.08.2009 - 19:25 - Anónimo, O meu Portugal
Quanto mais leio mais confuso fico, depois admiram-se que a "malta jovem" ponha os livros de lado..., pudera!!.... Entao um jornal serve para que? ja nao é para publicar noticias e nos informar?? E um jornalista? Para reportar os acontecimentos da forma mais fidedigna possivel sendo imparcial e pragmatico, independentemente da prosa que use? Ah! Pois, o Srº Bonifacio é um critico, nao é jornalista, um critico com ideias preconcebidas "...Por muito que não gostemos dos Killers (e não gostamos nem um pouco)...". É pá!, aqui a que a coisa corre mal ou o Srº Bonifacio sofre de dupla personalidade ou estava a falar por ele e pelo Srº Mexia. Se era para fazer uma critica tao visceral e negra, falar mal por falar, nem precisava ter ido ao Restelo, tinha ficado em casa confortavelmente e talvez ainda tivesse mais inspiraçao. E se a ideia da cronica era mal dizer do festival entao poderia ter começado pelas Instalaçoes Sanitarias e pelo apoio alimentar, ai sim tinha assunto para um tratado. Ah, pois o Srº Bonifacio é critico... e os criticos nao falam dessas coisa. Nao vou comentar a correcçao do Editorial do Publico, pura e simplesmente porque nao a li, mas concordo com o principio do Jornal defender os seus colaboradores, como julgo que seria importante qualquer profissional assumir um erro quando o comete e aprender com ele. Mas nao, colocamo-nos a defender o erro e perdemos a humildade caminhamos no sentido da arrogancia e acabamos por cair na desgraça, como foi o presente caso. É assim que ajudamos a cosntruir o pais que temos, com auto-golos.
comentario04.08.2009 - 04:08 - Mário, Portugal
@Paulo, Porto... ao lê-lo pergunto-me. Não será uma reportagem publicada no Público, com este teor, com este sentido crítico, incómoda para quem defende que o jornal não se deixa vergar ao poder económico? Fala aqui de reportagens patrocinadas, que é o que o pessoal quer. Então pense: Público é da Sonae, tal como a Optimus. A Optimus organiza o Alive. O Alive é concorrente do SBSR. No Público o SBSR foi um festival sem festa! Não basta ser sério: é preciso parecê-lo!
comentario04.08.2009 - 04:01 - Mário, Portugal
Pelos vistos, caro Zé do Porto, o sub-director do Público e o Provedor do Leitor deste jornal também devem ser uns energúmenos, já que criticaram o texto do João Bonifácio. Os que insistem na impossível defesa de João Bonifácio são como o pai que assiste à parada militar e diz "no meio de tantos soldados, o meu filho é o único no passo certo". Pense nisso Já agora, vá ao site da ccpj (comissão carteira profissional de jornalistas) e confirme pelos seus olhos que o João Bonifácio não tem carteira válida.
comentario03.08.2009 - 15:52 - , Porto
Os adeptos do Belenenses só diminuiram o seu clube em toda esta triste figura colectiva que se nos apresentou... O editorial do Público a pedir desculpas pela crónica só demonstra que o jornal está, com o passar dos anos, cada vez pior.
comentario29.07.2009 - 23:43 - Anónimo, Portugal
Palavras para quê? A melhor resposta para o Sr. Bonifácio é esta: (...)
comentario29.07.2009 - 01:11 - Paulo, Porto
O pessoal quer é ''reportagens'' à medida (i.e patrocinadas) pelas entidades envolvidas e dirigidas àquilo que já sabem. Assim têm a certeza de não serem surpreendidos e muito menos de serem estimulados a pensar. Tudo menos isso.
comentario28.07.2009 - 23:52 - Amélia Nunes, Porto
Só não percebo porque é que o link para o texto dele, nos comentários abaixo, não funciona. Será porque critica a posição tomada pela direcção deste jornal (onde também escreve)? Espero que não. A imprensa portuguesa precisa cada vez mais de vozes como as de João Bonifácio e Pedro Mexia, que dizem o que pensam, e não de ovelhas que só obedecem às ordens dos mestres. Já agora, deixem-me tentar outra vez. O texto do Pedro Mexia está aqui: bibliotecariodebabel.com/convidados/o-caso-joao-bonifacio-segundo-pedro-mexia/
comentario28.07.2009 - 19:16 - Ring J., Taipa, China
Mas veja-se, por exemplo, se queremos seduzir o gosto, por alguém que enche pavilhões aos milhares, o Tony Carreira ou afim, nem é preciso ir tão longe, bem se pode dizer que os concertos dele são uma treta, ou que certos programas de televisão com exageradas audiências e escritores que vendem como pãezinhos quentes são de duvidosa qualidade. E são, são maus. Cantam canções pirosas, escrevem mal, sao de um péssimo gosto. E no entanto têm um infinidade de seguidores que lhes dão a alma se for possível. Porquê? Porque o mundo está trocado? Talvez, mas isso não quer dizer que haja quem tenha a opinião contrária, e são muitos também. Não estão todos alinhados no mesmo passeio. E os espaços dedicados nos jornais, em particular esta crónica, não têm que optar pela generalidade ou ser o espelho maioria, segue a sensibilidade de quem a escreve e segue essa perspectiva à sua devida distância, podemos ou não concordar, e é para isso que também existe esta caixa de comentários. Não estive no Restelo, e não importa se também não morro de amores pelos The Killers, mas posso, com os descontos do árbitro, ficar com a minha ideia da coisa, mas concordo em absoluto com o texto do Pedro Mexia sobre o assunto, mais pela frontalidade face à direcção do jornal do qual também faz parte. Isso sim é o reflexo de um mundo livre e espontâneo. Assim devemos continuar a ser. Um abraço cordial ao JB.
comentario28.07.2009 - 18:39 - Arlindo Sousa, Alfragide
O texto do Pedro Mexia foi publicado no blogue Bibliotecario de Babel. (...)
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