O estilo "retro" da Alemanha de Leste está na moda. Mas para metade da população alemã os objectos que agora se encontram em lojas de segunda mão ou no museu eram a sua vida até há 20 anos. Hoje são memórias da RDA, um país que só durou quatro décadas. Última de uma série de seis reportagens.
Às vezes Anke Noske vislumbrava o outro lado. Acontecia, por exemplo, quando ia de metro e conseguia ver, para lá do Muro, uns prédios altos em Berlim Ocidental. "Sabia que aquelas casas estavam do outro lado da cidade, aonde não podíamos ir, e lembro-me de pensar que a vida devia ser diferente lá."
Ou então quando, no Natal, os familiares que viviam no Ocidente vinham de visita e traziam prendas com cores que não existiam na Alemanha de Leste. "Traziam doces e brinquedos, e para uma criança era 'uaauu!'. E pensávamos sempre que o Ocidente devia ser tão bonito e colorido, e os doces eram muito melhores do que os nossos."
Anke, uma alemã de 31 anos, alta e elegante, nasceu no Leste, numa localidade nos arredores de Berlim. Estamos numa esplanada junto a uns antigos edifícios industriais, de tijolos vermelhos, hoje transformados em ateliers e galerias. Em cima da mesa, ao lado do prato de currywurst (salsicha de porco com molho de tomate e caril, típica de Berlim) e das cervejas, está o guia do Museu da RDA (República Democrática Alemã, que existiu entre 1949 e 1990) aberto na fotografia de uma sala de estar típica da antiga Alemanha de Leste.
"Tínhamos um candeeiro igual a este. E uma vela destas", diz, apontando para uma vela gorda num suporte de metal. "E estas mesas eram muito comuns. Na RDA havia poucos tipos de papel de parede, todas as casas tinham a mesma televisão, e os copos e candeeiros eram todos parecidos." A sala típica existe em tamanho real reproduzida no Museu da RDA e os turistas que o visitam sentam-se no sofá de veludo castanho-claro, entre paredes cobertas com papel castanho e laranja, e ouvem os guias explicar como era a vida do outro lado do Muro.
Anke nunca visitou o museu. Não precisa - conheceu bem a vida do outro lado e os objectos que ali estão são-lhe completamente familiares, do creme para as mãos Florena, uma versão Leste do Nivea, aos cigarros Juwel. Eram produtos que tentavam ter um ar moderno, mas que ficavam aquém das expectativas dos consumidores, cujos "sonhos secretos", explica o catálogo do museu, "eram inspirados pelo que viam nos anúncios da televisão ocidental". Dizer que um produto quase atingia o nível ocidental era um dos maiores elogios, "habitualmente irónico", que um alemão de Leste podia fazer. E uma das piadas mais famosas contava que o director de uma fábrica de porcelanas dissera uma vez a Erich Honecker, o líder da RDA: "Cinco por cento da nossa produção é rejeitada." Honecker respondeu-lhe: "E isso será suficiente para todo o país?"
Gelados mais saborosos
Para alguma coisa especial era preciso ir às Intershops, lojas para os turistas onde se podiam comprar produtos ocidentais usando moedas estrangeiras. Anke ainda se lembra de uma ida a uma destas lojas e de um gelado inesquecível que a levou a pensar: "Como sabem melhor no Ocidente!"
Quem tinha familiares do outro lado, como Anke, recebia de vez em quando produtos ocidentais. "Na escola tínhamos todos roupas parecidas e os mesmos sapatos. Se alguém tinha alguma coisa do Ocidente, notava-se logo a diferença e a pessoa sentia-se muito orgulhosa." E havia, claro, a guerra dos jeans. Que maior símbolo do estilo de vida ocidental podia haver do que umas Levi's devidamente desbotadas? E que mundo de diferença as separava dos Boxer, os primeiros jeans fabricados na RDA e lançados no mercado em 1968. O material era pior, o aspecto mais feio, o azul não desaparecia.
Mas se alguém tinha demasiadas coisas ocidentais, isso também podia chamar a atenção de professores ou outros responsáveis mais próximos do regime. "Sabíamos que havia pessoas que podiam ser da Stasi [a polícia política do regime] e os nossos pais avisavam-nos para termos cuidado com elas."
Anke e a irmã cresceram com esses cuidados - por exemplo, não comentar na escola os programas que viam na televisão, para não se perceber que estavam a apanhar canais do Ocidente. "Nas festas de anos o meu pai dizia para eu não falar sobre este ou aquele assunto com uma determinada pessoa. E sabíamos que não podíamos pôr a tocar músicas ocidentais. Era como se houvesse sempre olhos a vigiar-nos, embora nos círculos mais íntimos nos sentíssemos seguros."
Apesar disso, Anke teve uma infância feliz e perfeitamente normal. Os pais casaram-se muito novos, como acontecia habitualmente na RDA (o número de divórcios era também relativamente alto), e tiveram duas filhas. A mãe, que sempre teve uma forte ligação à Igreja Protestante, optou por não aderir ao partido comunista, o SED, e isso significou ter de sacrificar os estudos e uma eventual carreira.
O sucesso do nudismo
Anke foi para o jardim-de-infância e mais tarde para a escola onde, como todas as crianças do Leste, se tornou pioneira - e no Museu da RDA lá está uma farda azul e vermelha como a que ela usou. "Nunca senti que fosse uma coisa má, os objectivos eram muito ligados a questões sociais", diz. Os pioneiros reciclavam lixo (nisso a RDA tinha taxas de sucesso muito superiores às do Ocidente), ajudavam nas colheitas agrícolas, acampavam, e aos 14 anos tinham a cerimónia de graduação, após a qual poderiam integrar a organização que se seguia, a Juventude Livre Alemã.
Quando a família que Anke tinha no Ocidente vinha de visita, contava as viagens que fazia, as férias em Espanha e outros países. "Pensávamos: 'Uauu!'. Nós íamos sempre para a costa leste." Mesmo os homens de negócios, os artistas ou os cientistas, que eram autorizados a viajar para o Ocidente em negócios, "não podiam levar as famílias de férias a um 'país não-socialista'", explica o catálogo do museu.
"As típicas férias de Verão começavam em Fevereiro - quando os candidatos apresentavam o seu pedido na agência" do regime, que dispunha de vários campos de férias. Mas os sítios mais apetecíveis eram, obviamente, os mais difíceis de conseguir. A qualidade dos campos era "medíocre" - muitos dos quartos não tinham casa de banho e as refeições eram servidas na cantina.
Num canto do museu uma vitrina iluminada revela uma das práticas preferidas dos alemães do Leste: o nudismo. O regime não gostava, mas o movimento nudista tornou-se de tal forma popular que acabou por ser tolerado e calcula-se que uma em cada dez pessoas o praticasse regularmente. Dentro da vitrina, bonequinhos todos nus jogam à bola, tomam banho no mar, conversam sentados em cadeiras de praia, e gozam um dos poucos espaços de liberdade possíveis na RDA.
Se conseguir um lugar num bom sítio de férias era difícil, conseguir um apartamento era ainda mais difícil. Durante muitos anos houve uma crónica falta de habitação no país, que não conseguiu recuperar rapidamente da destruição causada pela II Guerra Mundial. Nos anos 70 foi lançado um ambicioso plano de habitação, com a construção em série de grandes blocos de apartamentos de renda barata mas fraca qualidade - os mais conhecidos tinham o apetecível nome de Wohnungsbauserie 70, mas eram chamados por um diminutivo mais carinhoso, "WBS 70". A dureza dos blocos de cimento era compensada com a pequena dacha, a casa de fim-de-semana geralmente guardada à porta por um pequeno gnomo, e que grande parte da população tinha.
Para as famílias, receber um apartamento era a concretização de um sonho e, apesar das limitações, empenhavam-se na decoração - o resultado aproximava-se muito da sala onde hoje nos podemos sentar no Museu da RDA. Mas estes objectos que, no passado, tinham significado tanto foram rapidamente rejeitados logo a seguir à queda do Muro, no dia 9 de Novembro de 1989.
"Toda a gente começou a deitar as coisas fora", recorda Anke. "De repente, já ninguém queria os 'Trabis' [Trabant, o carro mais popular na RDA; ver texto em baixo], todos queriam um carro ocidental. Lembro-me do dia em que, de repente, as lojas passaram a ter produtos ocidentais, iogurtes, laranjas, bananas. As pastilhas elásticas... foi tão excitante a primeira vez. Os gelados. Isso era muito especial para nós. As pessoas bebiam Coca-Cola e punham as latas a enfeitar a sala."
Os velhos objectos vieram parar à rua. Mas nem todos. Houve quem guardasse o seu fato de pioneiro, os livros de escola, os jeans Boxer, os vestidos feitos à mão a partir dos modelos das revistas ocidentais, os postais enviados nas férias, as embalagens de café, de cigarros, de perfumes. "As pessoas trazem caixas e caixas de coisas para dar ao museu", afirma Melanie Alpenstaedt, assessora de impresa do Museu da RDA (para o localizar em Berlim, procurar por DDR Museum). "Depois da queda do Muro perdeu-se muita coisa. Mas as pessoas gostam de trazer para aqui o que ainda têm porque sentem que podem finalmente mostrar como viviam."
Safari num Trabant
Passados os primeiros momentos de euforia com a queda do Muro, instalou-se na Alemanha uma onda de "ostalgia" (nostalgia do Leste, Ost, em alemão) que continua fortíssima hoje, vinte anos depois. Há lojas de peças em segunda mão que são uma autêntica viagem no tempo ao mundo dos fatos de treino de fibra azul-eléctrico, da louça castanha com flores cor-de-laranja, dos bonecos de peluche cheios de pó; há um hostel, chamado Ostel, com uma decoração que recria o ambiente da RDA; e há até "safaris" em velhos Trabis para os turistas conhecerem "o verdadeiro Leste".
Anke, que hoje mora em Berlim e trabalha no atelier de um artista plástico, não sofre de "ostalgia" (embora continue a ser fã do design e de alguma da arquitectura do Leste). Após a queda do Muro viu durante semanas filas enormes de carros a atravessar a localidade onde vivia, com pessoas vindas de toda a Alemanha de Leste a caminho de Berlim.
Estava doente, mas assim que melhorou os pais levaram-na a Berlim Ocidental, o tal outro lado que ela apenas vislumbrava quando andava de metro (havia linhas ocidentais que atravessavam pelos subterrâneos o território da RDA, passando por estações-fantasmas, com uma luz fraca e guardadas por soldados do Leste).
Ela viu finalmente esse outro mundo que imaginava tão colorido e pensou que "sim, é bom, mas não tão fantástico como isso". Dá uma gargalhada. "Achei tudo muito bonito, mas de certa forma muito normal." Por isso percebe que hoje algumas pessoas "se sintam um bocadinho zangadas pelo facto de o lado positivo da Alemanha de Leste não ser valorizado e de se estar sempre a dizer que o Ocidente é tão fantástico". Não tem saudades e não trocaria a liberdade que tem por nada. "Mas nós vivemos lá e, apesar de odiarmos algumas partes, havia partes boas. E, bem... era a nossa vida."