João Salaviza
Arena

João Salaviza quer falar ao mundo

23.05.2009 - Vasco Câmara, em Cannes
diminuiraumentar


Os filmes portugueses, lamenta, estão condenados a serem descobertas nos festivais internacionais, não em Portugal. Mas apesar disso, ou por causa disso, um português a concurso em Cannes quer falar ao mundo.

Não, não chorou quando recebeu o telefonema a informar que "Arena", a sua curta-metragem, estava em competição em Cannes. Nas entrevistas promocionais que o festival faz aos seleccionados, essa pergunta: "Chorou ao saber que o seu filme estava em competição?" serve mais para satisfazer a vaidade de quem promove o festival do que para satisfazer genuína curiosidade. João Salaviza, 25 anos, único português a concurso na 62ª edição do festival, tem, aliás, os pés na terra. (Tanto quanto é possível na Croisette.) Chegou, sentiu-se "atirado de pára-quedas para aqui" - "por causa desse lado do glamour" - mas tratou de reagir. Vendo filmes (levará "Inglourious Basterds", de Tarantino, na memória). Não está a afectar nenhuma distância em relação ao maior festival de cinema do mundo. "Sente-se que há uma programação arriscada. Não mostram só o previsível. Não estão à procura da típica curta com a ‘punchline' final. Estão à procura de coisas novas. Senti que o meu filme foi escolhido por isso".

Ele chegou e viu. Só hoje se saberá se vencerá, embora diga, "sem falsas modéstias", que "Arena" não é filme para ganhar aqui - da mesma forma que sentiu que tinha hipóteses no IndieLisboa e ganhou. A sua produtora, Maria João Mayer, define-o assim: "Ele quer falar ao mundo". "Arena" é uma curta vigorosa, tenderá a ser vista como prova disso  - híbrido entre o documento da realidade e o espectáculo da sensualidade dos corpos e do espaço, é centrado num jovem em prisão domiciliária e é determinado a colocar o espectador na posição de "voyeur" na bancada para o gueto. "Nunca diria de mim isso de querer ‘falar ao mundo', mas sim, reconheço-me, tendo em conta que os filmes, para mim, são uma reacção a qualquer coisa. Não têm que ser uma tese. O mundo já é tão difícil de perceber, como é que se pode ter a pretensão de dizer que o mundo é de uma certa maneira? O filme deve ser uma reacção a quente. Ao facto de haver vidas tão diferentes. O cinema está tão uniformizado que não está a conseguir acompanhar a especificidade das pessoas, dos lugares. Espero que tenha feito isso. Não pelo exotismo de filmar um bairro social. Mas por ter contribuído com uma coisa singular. Que não seja um filme igual aos outros."

Já está no processo de despedida do seu filme. Quer partir para outra. Viu-o tantas vezes que já não sabe se é clássico ou demasiado clássico. Sabe é que tal como aconteceu com "Arena" - embora o filme dê a impressão de previsão de resultados certeira - não consegue imaginar o(s) próximo(s). Por exemplo, chegou a pensar que "Arena" seria uma coisa a la irmãos Dardenne... e não resultou assim, de todo.

Está ainda a acabar uma cadeira, no Conservatório, de Psicologia e Cinema. O curso estava incompleto, questões de equivalências, por causa de um protocolo que o fez, em 2006, continuar os estudos na escola de cinema de Buenos Aires, na Argentina. Tinha ficado fascinado com uma retrospectiva sobre cinema argentino na primeira edição do IndieLisboa. E foi uma "decisão de vida": testemunhar, "in loco", o "entusiasmo" dos argentinos pelo cinema de Pablo Trapero, Lucrecia Martel ou Lisandro Alonso. "É uma coisa que em Portugal não há. Fazemos 10 filmes por ano. Não deve haver outro país no mundo com, em termos relativos, uma percentagem de filmes tão bons. E no entanto há um desinteresse total das pessoas pelo cinema que é diferente. A minha geração tem a possibilidade de descobrir tudo. Eu, se quiser ver o filme de um qualquer cineasta malaio, posso fazer ‘download. E no entanto, paradoxalmente, a minha geração continua a ver as mesmas coisas, a ouvir as mesmas coisas. Os filmes portugueses estão condenados a serem descobertas dos festivais internacionais. Provavelmente é o que me vai acontecer também."


Comentários
comentario 1 a 1 de um total de 1
diminuiraumentar
comentario09.06.2009 - 22:17 - Anónimo, PORTUGAL
tens tudo para seres um grande ceneasta, vai em frente e faz o que te vai nA aLMA parabens
Páginas:
1