Esta obra de Picasso não era mostrada publicamente há duas décadas

A arte da guerra no Centro Pompidou-Metz

27.06.2012 - Sérgio C. Andrade
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O monumental cenário que Pablo Picasso pintou para a estreia do ballet Parade, dos Ballets Russes de Serge Diaghilev, considerado a maior obra (mais de 170 m2) jamais realizada pelo artista malaguenho, é a principal atracção da exposição 1917, que o Centro Pompidou-Metz, em França, está a apresentar desde o final de Maio e até 24 de Setembro. Esta obra de Picasso faz parte da colecção do Centro Pompidou-Paris, e não era mostrada publicamente desde há duas décadas. É um testemunho físico da importância do que aconteceu na noite de 18 de Maio de 1917, no teatro parisiense de Châtelet, com a estreia de Parade, música de Erik Satie e argumento de Jean Cocteau. Guillaume Apollinaire escreveu no programa do espectáculo que, "pela primeira vez, esta aliança da pintura e da dança, da plasticidade e da mímica, é o símbolo da chegada de uma arte mais completa", tendo inclusivamente usado, avant la lettre, a expressão "uma espécie de surrealismo" para caracterizar Parade. A história dar-lhe-ia razão.

Mas a parada de Picasso é apenas uma das seis centenas de peças - pintura, escultura, desenho, cartazes, manuscritos, fotografia, cinema... - que fazem a exposição evocativa desse ano de 1917, e que inaugura o roteiro de manifestações que assinalarão, em França, o centenário da Iª Guerra Mundial (1914-1918). E é um painel que os visitantes do Centro Pompidou-Metz verão já na parte final da exposição, numa lufada de cor e de ar fresco depois de uma viagem, que por vezes poderá ser penosa, nesse "comboio fantasma cujo motor é a guerra", para citar o crítico do Libération, Philippe Lançon. 1917 foi, de facto, o ano em que a Europa e o Mundo finalmente perceberam que o conflito que tinha começado três anos antes, entre os impérios da Europa Central (alemão, austro-húngaro e turco-otomano) e a aliança da então designada Tríplice Entente (a França e os impérios britânico e russo, a que, precisamente em 1917, se acrescentaram os Estados Unidos) não era uma guerra como as outras: a morte tornara-se industrial e abstracta, com a acumulação de cadáveres indiferenciados nas trincheiras, quadros que a fotografia, o cinema e os jornais faziam chegar a todo o lado. Mesmo se Marcel Duchamp fintava a posição normal de um urinol e lhe chamava Fonte, nos Estados Unidos, e Kasimir Malevitch pintava, na Rússia, o seu quadrado branco sobre fundo branco, era a vermelho sangue e a negro sujo que a maioria dos artistas reagia a esse tempo de violência.

Com 1917, o Centro Pompidou-Metz faz, em dois núcleos expositivos, o inventário das reacções dos artistas - os que já eram consagrados ou que o tempo viria a consagrar a seguir, mas também os inúmeros amadores que não quiseram deixar de expressar os seus sentimentos perante o que acontecia à sua volta - à guerra, e também o vínculo entre a violência e o impulso para a reconstrução e a criação que sempre se lhe segue. Chagall, Marinetti, Picabia, Kandinsky, Gris, Braque, Léger, Brancusi, Malevitch, Modigliani, De Chirico, Bonnard, Kirchner, Monet são alguns dos nomes com quem o visitante se pode cruzar nessa viagem no "comboio fantasma" da 1ª Grande Guerra.