Um dos grandes filmes do IndieLisboa fora de concurso na recta final: "Wendy and Lucy", ou uma mulher perdida numa cidade que é a América. Amanhã, sexta-feira
Por ser a terceira longa-metragem da americana Kelly Reichardt (cujo "Old Joy" causou sensação em edição anterior), "Wendy and Lucy" não poderia nunca estar em competição. Mas isso não invalida que este é um dos melhores filmes que o Indie mostra na edição de 2009. E um dos mais visíveis sinais de um retorno às raízes do cinema americano - independente ou não.
"Wendy and Lucy" foi produzido com poucos tostões, é um filme de hoje na evidente "economia da pobreza" que manifesta - uma actriz e uma mão cheia de personagens fugazes, ausência de música, quase total ausência de cenários que não sejam pré-existentes, substituidos pelas ruas de uma cidade americana, no caso Portland, Oregon.
Mas é também um filme que ressoa com as grandes ficções sociais da "americana", clássica (pense-se nas "Vinhas de Ira" de Steinbeck filmadas por Ford, as imagens clássicas da Grande Depressão) ou moderna (a impossível nostalgia do "Lado Selvagem" de Sean Penn). Porque é um filme sobre o que resta quando se perdeu tudo, sobre a força que tem de se arrancar das entranhas para sobreviver quando já não parece haver mais força, e sobre o modo como a comunidade (não) está lá para nos ajudar.
Wendy (Michelle Williams) está em trânsito para o Alasca com o seu cão Lucy, para longe de uma qualquer tragédia que a fez meter toda a sua vida na mala do carro, em direcção a um emprego de Verão que lhe permita refazer as suas finanças, com quinhentos dólares para lhe durar até ao fim da viagem. Mas em Portland, tudo bascula: o carro avaria, um empregado demasiado zeloso recusa-se a fechar os olhos, um polícia não se entende com o novo equipamento informático, Lucy desaparece. E Wendy vê-se sozinha a enfrentar tudo isto, longe de tudo, perdida num limbo.
Estamos, claro, na América de Bush mas já com um olho na América de Obama, a olhar para as margens que habitualmente não vemos - e estamos também a olhar para um realismo quase táctil no modo como se instala de pedra e cal no meio do mundo real (a mesma Portland de que Gus van Sant fez a "sua" cidade de cinema e onde Todd Haynes se refugiou para pensar "Não Estou Aí"), no modo como transfigura esse mundo real num espaço de solidão e desespero pela simples força do seu olhar e pela presença extraordinária de Michelle Williams.
O pedigree de "Wendy and Lucy" é exemplar (Haynes é produtor executivo, a sombra de Van Sant paira graças a uma equipa que partilha DNA com o realizador), o modo como Reichardt transforma esta "pequena história" num grande filme é sinal de termos aqui uma grande cineasta. E tudo sem precisar de mais do que uma actriz e uma cidade.
Cinema Emergente
WENDY AND LUCY
EUA, 2008, 80 minutos
de Kelly Reichardt, com Michelle Williams, Walter Dalton, Will Patton
Londres 1, sexta 1 à meia-noite e domingo 3 às 21h45