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Fotografia sem qualidades

Crítica Ípsilon por:

Óscar Faria

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8 de 10 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Uma importante exposição que revisita a obra de Augusto Alves da Silva. Para ver em Serralves

Uma das imagens de "Síntese", um núcleo de fotografias escolhidas de séries anteriores produzidas por Augusto Alves da Silva (Lisboa, 1963), mostra aquilo que parece ser um quadro de electricidade. A banalidade do tema, a composição - a escolha de um plano frontal, aproximado, que descontextualiza o objecto -, a dificuldade em decifrar a utilidade dos botões visíveis, fazem deste trabalho um exemplo de como a escolha do assunto é, na obra do artista, uma espécie de meio para atingir um outro fim, sendo este muitas vezes um comentário sobre a sociedade contemporânea, os seus absurdos, contradições, desequilíbrios. Pode assim falar-se, neste caso, numa "fotografia sem qualidades" - no sentido existencialista da expressão, pois trata-se aqui de questionar um presente cada vez mais homogéneo, espelhado na difícil tarefa de o representar através de imagens que sobrevivem fora do fluxo global do consumo. Aqui percebe-se o paradoxo: no rodapé da tecnologia, uma pobre fita adesiva fornece a legenda para os botões; contudo, esse expediente só faz sentido para quem nela inscreveu, a vermelho, maiúsculas e números: o espectador continuará sem saber a função daquela máquina.

A enigmática imagem, agora deslocada do seu contexto inicial, foi realizada, em 2001, no Teatro Municipal Rivoli, no Porto e, tal como com as restantes que formam a série "Síntese", a sua descontextualização acrescenta ainda mais dificuldades - sobretudo a quem não sabe a origem da fotografia -, à sua interpretação. É que, no percurso expositivo, aquele quadro eléctrico é confrontado, na sua vizinhança, com um vagabundo a fazer um gesto obsceno diante de uma loja de Ferraris, umas mãos que saem de uma piscina ao ar livre emoldurada por bóias e palmeiras, uma casa cuja entrada dá para uma estrada em alcatrão, um veado a olhar para uma cidade, entre outros trabalhos escolhidos por Augusto Alves da Silva a partir de projectos realizados no passado - da bibliografia destaca-se a publicação de um número assinalável de foto-ensaios, agora expostos em vitrinas nas salas de "Sem Saída/ Ensaio Sobre o Optimismo". O exercício proposto em "Síntese" - pôr à prova a capacidade de cada imagem resistir não só à sua descontextualização, mas também ao confronto com as outras escolhas - tem um antecedente: a exposição "Paisagens Inúteis", apresentada na Culturgest-Lisboa no fim de 2006; porém, nessa ocasião, as obras apresentadas eram inéditas.

A questão da inutilidade, convocada no título dessa anterior exposição com curadoria de Ricardo Nicolau, pode ser colocada paralelamente a uma interpretação das imagens a partir do conceito de "fotografia sem qualidades". É como se as obras de Augusto Alves da Silva criassem uma distância com o mundo sem nunca dele se separarem: um paradoxo, no qual cada instantâneo constitui simultaneamente o testemunho factual de um acontecimento, que, na sua aparente banalidade - uma mota presa no vértice de uma duna no deserto, por exemplo -, acaba por sublinhar o absurdo da existência. Pode assinalar-se que esse pôr a nu a realidade por vezes se confunde com a própria vida, como no caso de "Iberia", agora revelado: a projecção em grande formato de mais de cinco mil fotografias tiradas durante 18 dias, num percurso realizado de jipe em Espanha. Exercício sobre a paisagem, interminável "travelling" frontal, este conjunto de imagens também nos fala de solidão, sentimento, aliás, que atravessa a mostra de Serralves.

A exposição "Sem Saída" inclui ainda uma série de trabalhos em vídeo: "Superfície", realizado por ocasião da mostra "Os Dias de Tavira" (2002), constitui um outro exercício sobre a paisagem, neste caso a Ria Formosa, no Algarve. Neste meio, há outros trabalhos que podem ser destacados, nomeadamente pelas suas características políticas de comentário à sociedade do espectáculo. São os casos de "Killing Time", um tríptico realizado em 1999, "Montra", de 2003, em que modelos vivos ocupam o lugar de manequins numa montra de uma loja de roupas, "What a Blast" (2002) e "Ugly" (2002).

No percurso expositivo há ainda a nova série "Book", instalada nas paredes de ambos os lados de um corredor do museu. Trata-se de um trabalho em que Augusto Alves da Silva decide abordar directamente um assunto há muito presente nas suas imagens: a objectualização do corpo feminino em diferentes situações, nomeadamente pela publicidade, com a correspondente banalização e degradação dos sentimentos provocado pelo constante bombardeamento desse género de representações. Não será por acaso que, no catálogo, a primeira fotografia deste conjunto é uma rapariga a bocejar num sofá. Em "Book", um notável ensaio sobre a sobrevivência dos afectos, cada imagem parece corresponder a um estereótipo e o fotógrafo não deixa de se colocar na condição de "voyeur" - há, diga-se, um contrato anterior à produção da série: as fotografias só seriam publicadas depois de aprovadas pela modelo (não-profissional), que também receberá uma percentagem de uma futura venda. São todavia estas "fotografias sem qualidades", tão distantes do lugar-comum do género, que nos deixam perplexos por tocarem na essência de um problema: a rendição do sexo à esfera económica, que fabrica o imaginário associado quer ao erotismo, quer à pornografia.