Leia também

Imagens feitas, imagens desfeitas

  • BES Photo 2012
  • Artista(s): Duarte Amaral Netto, Mauro Pinto, Rosangela Rennó, Cia de Foto
  • Fotografia. Inaugura 14/3 às 19h.

Crítica Ípsilon por:

Margarida Medeiros

diminuir aumentar
votarvotarvotarvotarvotar
1 de 2 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
O prémio BES Photo 2012, atribuído ao moçambicano Mauro Pinto, afirma a possibilidade de convocar mundos com uma lógica que não a ocidental

Os quatro nomeados para o BES Photo deste ano (nomeação que é relativa a exposições de 2011) compreende essencialmente duas vertentes da fotografia contemporânea: o trabalho sobre a memória e os arquivos de imagens que a reactivam; e a abordagem documental.

No que se refere ao documental, o moçambicano Mauro Pinto, o premiado deste ano, e o colectivo brasileiro Cia de Foto partem de estratégias opostas. No primeiro caso, deparamos com um conjunto de fotografias, intitulado "Dá licença?", através das quais o artista nos transporta para o universo habitacional do bairro Mafalala de Maputo; nestas imagens sobre-encenadas na montagem - cada uma é visível separadamente numa caixa que simula a divisão de uma casa -, somos confrontados com o acumular colorido de objectos, com um design de interiores que privilegia a sua funcionalidade e precariedade. São casas feitas de lusalite, mas onde se presume um quotidiano intenso. A forma como Mauro Pinto transporta estes espaços para a fotografia pretende sublinhar, indirectamente (são fotografias de casas, mas sem pessoas), esse aspecto vivencial, ou seja, a forma como estes espaços-casas são atravessados por uma forma de viver muito longe dos padrões e valores europeus ou ocidentais.

Por seu lado, a Cia de Foto trabalha sobre o próprio dispositivo fotográfico, não numa estratégia documental em strictu sensu, mas no sentido de que cada imagem se relaciona com uma realidade que não é de imediato evidente para o espectador. Na verdade, perante as fotografias expostas na parede, da série "Agora", somos levados a perguntar-nos o que é que estamos efectivamente a ver - uma poça de água ou uma abertura superior numa gruta? - e em que posição se encontra o que vemos - na sua posição natural ou virado ou contrário? As imagens de Cia de Foto baralham as leis da Gestalt, mas são sobretudo um trabalho muito interessante de elaboração crítica sobre o que é a fotografia, ou seja, sobre o próprio estatuto documental da fotografia. Afinal, o que é que o documento fotográfico documenta? Como documenta melhor, sendo límpido e contrastado, ou sendo obscuro e denso? O que vemos quando vemos uma fotografia? Por essa mesma razão, os vídeos começam a negro, e só pouco a pouco vislumbramos as acções que neles se passam.

Rosangela Rennó, que em simultâneo tem a sua maior retrospectiva no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (ver PÚBLICO de 24-2-2012), apresenta "Lanterna Mágica", um projecto que se divide por dois espaços: a artista coloca três destes aparelhos a projectarem, cada um, uma imagem antiga; na sala contígua expõe ampliações de imagens também encontradas, no centro das quais foi projectado, com dimensão variada, um círculo negro, e que têm títulos como "Tropical II" ou "Madeiras III". Rennó caracteriza-se por, salvo rara excepção, não fotografar, mas trabalhar com materiais encontrados, ao acaso ou por iniciativa própria. Neste trabalho também é esse o processo utilizado, convocando a fotografia como mediação histórica de uma certa imagem de natureza e de paisagem, proporcionando uma alusão à ideia de fantasmagoria, não no sentido histórico desta técnica, mas no sentido de que as imagens transportam o passado, os seus fantasmas.

Finalmente, Duarte Amaral Netto, o único português desta nomeação, parte também de algumas imagens encontradas no seio da sua família para construir uma história ficcionada. Com este trabalho, no qual imagens realmente existentes e realmente produzidas num determinado contexto são recontextualizadas, Netto volta a trabalhar sobre a (re)mediação das imagens, sobre a possibilidade de elas permitirem novos sentidos, novos caminhos para o imaginário ou novas interpretações. Em "Z", somos conduzidos a uma série de imagens (e objectos) que insinuam uma história, a história de um personagem, mas que introduz no espectador a dúvida sobre o que está de facto a ver, ou seja, se as imagens se referem efectivamente ao personagem da história, apesar de sabermos que existem, que fazem parte de um qualquer álbum ou arquivo, que têm um referente. Trabalhar hoje com a fotografia passa por fazer imagens mas também por as desfazer/refazer.

No panorama actual, na era pós-analógica, o encontro da fotografia com o arquivo é central e incontornável. Permite pensar tanto a História (não apenas a história da fotografia), como a memória e o seu correlato genético, o esquecimento. Mas expor arquivos, com maior ou menor espectacularidade (como tem vindo a fazer Tacita Dean, por exemplo) será insuficiente se um diálogo entre esse passado e o presente, que não esmague o arquivo mas também não o mitifique em si mesmo, não puder ser construído. Estes dois projectos trabalham sobre essa questão, mas é necessário hoje pensar como ultrapassar o registo da trouvaille que nos permite apenas construir mais uma história.

A escolha do premiado tem certamente também um significado político e institucional (e o júri, este ano, era totalmente estrangeiro): trazer Moçambique para o centro da Europa, documentado por um artista moçambicano, é um passo para contrabalançar as assimetrias geográficas e estéticas (comodamente instaladas) neste género de certames. É premiar a possibilidade de convocar mundos (e fotografias) com outra lógica que não a ocidental.