Leia também

A fotografia como estranheza

Crítica Ípsilon por:

Nuno Crespo

diminuir aumentar
votarvotarvotarvotarvotar
3 de 6 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Os lugares destes trabalhos compõem uma geografia estranha do nosso planeta e os seus objectos parecem impróprios para o corpo humano.

Edgar Martins (n. Évora, 1977) é um fotógrafo conhecido pelo modo como constrói objectos e lugares com o seu trabalho. Não é que a sua fotografia seja sobre arquitectura ou se dedique a documentar aquilo que há e o que acontece, mas através de um processo de total imersão nas coisas que visualmente trabalha as suas imagens não surgem enquanto simples representações, mas enquanto instâncias criativas, expressivas e imaginativas.

A maior parte das vezes é-se incapaz de reconhecer as referências das imagens e a quase ausência de pessoas intensifica a estranheza que a maior parte das vezes caracteriza a relação com o trabalho de Edgar Martins. Os lugares destes trabalhos compõem uma geografia estranha do nosso planeta e os seus objectos parecem impróprios para o corpo humano. Se por um lado esta estranheza é o tom dominante, por outro é possível reconhecer os elementos usados nestas construções pictóricas. A estratégia, simultaneamente estética e conceptual, é de deslocar elementos do quotidiano e recriá-los em ambientes e atmosferas diferentes: não se trata de um simples movimento de deslocação, mas é como se Edgar Martins re-construísse nas suas obras o real de onde parte e que é a origem de todas as suas imagens. O resultado é um universo ficcional e sobre-humano onde a estranheza e o inesperado se unem a uma espécie de familiaridade: é útil pensar na “inquietante estranheza” de que Freud tanto falou e que diz respeito ao modo como o familiar, o quotidiano, a vida de todos os dias se pode tornar num lugar de estranheza e inquietação.

Estas criações de imagens herdam da fotografia alemã a objectividade e um olhar atento e metódico: Edgar Martins é absolutamente preciso, rigoroso e meticuloso no modo como fotografa, mas não utiliza essa “objectividade” como elementos de uma representação da realidade. Não lhe interessa encontrar as melhores imagens para dizer e fielmente representar o mundo, mas sim encontrar uma forma de introduzir elementos de novidade, desacertos, diferenças, que fazem pensar sobre as diferentes regiões do visível. E é neste equilíbrio entre a precisão e rigor com que prepara e prevê cada uma das imagens e a liberdade compositiva que reside a qualidade dos seus trabalhos.

Acentuar os aspectos criativos e expressivos da fotografia, não significa negar o seu poder descritivo ou a sua qualidade de testemunho material do real, mas sublinhar a potência da fotografia em fazer novos objectos. Não são tipologias, porque o artista não faz sequências de imagens ordenadas através de afinidades formais, mas a uni-las está uma relação quase escultórica, ou seja, a tensão que caracteriza estas imagens não diz respeito aos seus aspectos pictóricos, mas aos seus aspectos espaciais e materiais.

Um bom exemplo daquela situação é a obra presente nesta primeira exposição do artista na Galeria Cristina Guerra (uma exposição que reúne trabalhos feitos entre 2009 e 2011) com o título Untitled. From the series Reluctante Monoliths (2010). Neste trabalho num fundo negro e sobre um chão de terra ergue-se um conjunto monumental e isolado de paletes. A escala da imagem é dada por um grupo mais pequeno de paletes que sublinham a grandeza do elemento principal: uma espécie de monumento perdido num lugar impossível. Para além da inteligência da construção, este exemplo mostra um elemento recorrente no trabalho de Martins: a autoreferencialidade das suas obras e o isolamento dos elementos materiais que compõem as suas imagens.

Com autoreferencial quer-se dizer que cada imagem tem no seu interior os elementos que permitem a sua leitura, ou seja, não é no estabelecimento de comparações com as coisas do mundo (factos, pessoas, lugares, objectos) que estas imagens ganham sentido, mas esse sentido nasce das relações que os elementos que as compõem estabelecem entre si. Por isso, o artista é tão cuidadoso em isolá-los e a fazê-los claros e distintos, porque só desta forma consegue tornar expressivas as presenças das suas imagens. Nesta situação está igualmente a obra Old Street, from the séries A Metaphysical Survey of British Dwellings (2010). Aqui a estranheza surge através da presença de um prédio localizado num sítio improvável, a albergar um banco e um café cujos os únicos sinais de existência são as placas luminosas na fachada de um edifício isolado, pequeno, vazio, incompleto e quase inexistente.

A questão da composição é essencial no trabalho deste artista: Edgar Martins trabalha a superfície da imagem fotográfica como se ela fosse a tela de uma pintura sobre a qual é preciso agir, porque para ele o papel de impressão fotográfico não é um espaço simplesmente receptivo onde se gravam imagens, mas lugar de expressão onde se criam coisas, imagens e novas experiências. Por isso, muitas vezes estas fotografias parecem sonhos surreais, imagens meditativas e metafísicas de mundos a que só acedemos através de um esforço grande da imaginação e da atenção.