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O mundo a cair

Crítica Ípsilon por:

Luísa Soares de Oliveira

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Com Rui Pedro Jorge, a pintura questiona a sua história

Para além dos bolinhos e croquetes, as inaugurações incluem sempre uma colecção de diz-que-diz, informações e desinformações de última hora sobre o muito português meio das artes plásticas. No caso de Rui Pedro Jorge, que abriu a sua segunda exposição individual num chuvoso sábado - a segunda que faz na galeria 111 -, contava-se que tinha sido aluno de Eduardo Batarda, que trabalha também com esta galeria, e que aqui teria chegado por indicação do professor. Teria sido a única vez que Batarda fizera tal coisa.

Ora, a pintura de Rui Pedro Jorge, tanto a que mostrou na sua primeira individual, "Portuguese Man of War", como a que mostra agora em "Tempo de Poeira", possui de facto a capacidade de surpreender o público que é rara num artista tão novo. Rui Jorge tem apenas 24 anos e é formado pela ESBAP. Já fez residências artísticas no Rio de Janeiro, na República Checa e em Bilbau, onde aliás mostrou esta mesma exposição no começo de 2012. No seu currículo, para além de participações e mesmo alguns prémios em concursos nacionais de pintura, que fazem parte do percurso habitual de quem começa uma carreira e nela se pretende afirmar, destacamos a participação numa colectiva, Nada em comum, que teve lugar em 2011, em Leiria, comissariada por um outro pintor, Tiago Baptista.

A obra de Rui Pedro Jorge trabalha questões ligadas à própria definição e pertinência da pintura nos dias de hoje. Ora, é por aqui que descortinamos uma possível afinidade com o trabalho de Tiago Baptista, que tem reflectido e exposto incessantemente as contradições da sua própria identidade através de uma técnica figurativa, simultaneamente herdeira da tradição histórica e da cultura urbana popular. Tal como ele, Rui Pedro Jorge opta pela figuração sem gradações nem emotividade expressivas, à maneira da ilustração de BD. Mas, e nisto se distinguem, os motivos deste artista são arquitectónicos: amontoados de sólidos e tábuas de madeira em equilíbrio instável, frágeis cabanas avistadas em trailer parks de subúrbio de terceira ordem, plantas e ervas daninhas improvavelmente encontradas em locais onde nem os serviços de limpeza camarários entram.

Avesso a falar muito do seu próprio trabalho, Rui Pedro Jorge refere a instabilidade que se destaca como qualidade principal da sua obra. “O sítio onde estamos está sempre a cair”, explica, e por isso será leviano tentar encontrar nestes projectos referências próximas à possibilidade da representação, por exemplo, ou citações de imagens vindas da história da arte. A sua obra tem tudo isso, mas tem também muito mais: o universo onde esta pintura se originou é um universo em suspenso, à espera do que está para acontecer depois de todas as esperanças, inclusive geracionais, terem terminado: são os “tempos de poeira” de que fala o título, uma poeira de estrelas, a que precede a criação do novo depois de qualquer coisa que terminou.

Na exposição, um conjunto de pequenas pinturas radicaliza o conceito desenvolvido nas maiores. Aqui, o artista serviu-se de diversas técnicas para destacar fragmentos ou texturas que se encontram nas obras de média dimensão. A colagem, por exemplo, parece pontualmente transformar-se em fundo, ou simular o desenho de letrismos: numa pintura, “cá na dá”, escrito sobre um céu de um azul irreal e uma paisagem levemente estranha, explica o sentimento de desalento que é comum a toda esta geração.

Porque o que parece cair, o tal sítio que está sempre em derrocada, não é mais do que o lugar da História. Sem citações, mas servindo-se de todos os mecanismos técnicos que a aprendizagem académica colocou à sua disposição - e essa aprendizagem nunca é mais do que o reflexo da ideia que determinada sociedade formou sobre o seu próprio acervo de competências -, Rui Pedro Jorge acaba por questionar não só a pertinência da História, mas a validade de todas as imagens sobre as quais a nossa cultura se alicerça. Numa geração que é bem a sua, este artista condensa a grande pergunta que ela nos faz: para onde ir, se nem “cá” nem “lá” dá?