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Corpos anónimos

Crítica Ípsilon por:

José Marmeleira

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3 de 3 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Com uma coreografia de relógios usados e um relógio digital, Christian Boltanski monta em Guimarães um teatro universal. O da vida e da morte, da ausência e da presença

A dada altura da monografia assinada pela historiadora de arte americana Lynn Gumpert, Christian Boltanski (Paris, 1944) comenta Research and Presentation of all that remains of my childhood, 1944-50, peça provocada pela descoberta de fotografias de antigos colegas de escola: “Não me lembro de nenhum dos seus nomes, não me lembro de nada mais do que os rostos nas fotografias. Como se tivessem desaparecido da minha memória, como se aquele período da minha vida estivesse morto. Por isso senti a necessidade de prestar homenagem a esses ''mortos'' que, nesta imagem, parecem todos (...) cadáveres”.

A fragilidade da pequena memória, desconsiderada ou esquecida pela História pública, atravessa, como sublinha Roger Luckhurst em The Trauma Question, a obra do artista francês. E reencontramo-la em Danse Macabre, um dos trabalhos apresentados na Fábrica Asa e especificamente concebidos para Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura.

Não há fotografias, antes peças de roupa, gabardinas, parkas, sobretudos que vagueiam, por meio de um sistema mecânico. Desde os anos 1970 que Boltanski trabalha com estes objectos (embora distinta, a instalação pode ser interpretada como uma variação de outras obras), mas o contexto (uma desactivada fabrica têxtil) e o movimento indiferente e incessante dos objectos constroem uma experiência única. Ao entrar, o espectador tem duas alternativas: ou mantém-se afastado e encostado às paredes e aos cantos da sala ou sobe ao palco, para participar numa coreografia de ausências, pois as roupas pertenceram a pessoas mortas. O som do mecanismo, o cheiro, a gabardina cujas forma e cor reconhecemos de algures, o tecido de um casaco que ao passar nos roça as costas e os cabelos constituem momentos da dança entretanto começada.

Mas Boltanski não confunde os objectos com as pessoas, nunca os equivale (mesmo quando admite preocupar-se com o desperdício e a produção em excesso de vestuário). Os primeiros só existem por alguém lhe deu uso, amor. E a sua presença na Fábrica remete sempre para uma ausência, para uma vida, enfim, para um corpo anónimo que será afinal (também) o nosso. É nesse sentido que a sua arte lida menos com a própria arte do que com a vida ou as pessoas, o que lhe tem valido a desconfiança crescente de alguma crítica: faz, dizem certas vozes, arte para um público médio. Em contrapartida, ao lidar com as ideias de trauma, morte, vida e memória, de um modo repetido e aberto aos sentidos e às experiencias coletivas e individuais, abeira de si os espectadores, sem vulgarizar a relação aí implícita (algo semelhante fazia Doris Salcedo no ano passado, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian).

Dernière seconde é o outro trabalho exposto na Fábrica Asa. Um relógio digital que conta os segundos da existência do artista. É uma peça “fria”, onde só os números se mexem, lacónica e inexoravelmente até ao dia em que se fixarão para iluminar o desaparecimento de Christian Boltanski. Comparada com Danse Macabre, não possui a mesma gravidade ou o mesmo apelo visual. Mas tem um humor tocante e impiedoso e muitos destinatários: vejam como é uma vida representada em números, muitos números. Absurda, intangível, e no fim, iluminada.