Souto de Moura

Por mais que queiram, arquitectura não é escultura nem é pintura

12.09.2008
Por: Ana Vaz Milheiro
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A percepção no Grande Canal vai ser alterada pela intervenção de Eduardo Souto de Moura e Ângelo de Sousa na Bienal de Arquitectura de Veneza: uma superfície espelhada reproduz os edifícios circundantes. Foi um gozo fazer uma coisa moderna na cidade.

Para Eduardo Souto de Moura é bem possível que a intervenção no Pavilhão de Portugal, em Veneza, venha a ser um pequeno escândalo.

Não faz mal, porque a arquitectura não pode ser confundida com arte e a fachada espelho com que tapa o edifício Fondaco Marcello numa operação assinada conjuntamente com o artista plástico Ângelo de Sousa é uma instalação artística, não é arquitectura.

A exposição, intitulada Cá Fora: Arquitectura Desassossegada, representa oficialmente Portugal na 11.ª Mostra Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza e é comissariada por José Gil e Joaquim Moreno. É hoje inaugurada às 19h30 e pode ser vista até final de Novembro.

Souto de Moura falou ao P2 durante a montagem e está contente com o andamento dos trabalhos: "A superfície espelhada", apesar de ser de acrílico, "reflecte mais do que se esperava". É a sua primeira participação numa bienal de arquitectura, mas já antes tinha trabalhado em Veneza (no concurso para um conjunto habitacional de Álvaro Siza para o Campo di Marte, na Giudecca, e numa ponte muito copiada, ainda que não construída).

Desta vez, gostou de "fazer uma coisa moderna em Veneza", uma cidade que acha "mumificada".

A colaboração com Ângelo de Sousa foi a prova de que "há uma certa frescura nos artistas". Por oposição, ser arquitecto é cada vez mais chato. Quanto ao tema da bienal, acha-o mais intelectual do que arquitectónico. "Se fosse comissário de uma bienal de arquitectura, escolhia como tema África", porque, como todos sabemos: "É aí o futuro."

As parcerias entre arquitectos e artistas têm-se tornado habituais nas representações portuguesas na Bienal de Arquitectura de Veneza. Como surgiu esta hipótese de trabalhar com Ângelo de Sousa?

Os comissários, como sabem que sou amigo do Ângelo e que trabalhei com ele naquela escultura do Edifício Burgo [na Avenida da Boavista, Porto], propuseram a parceria. O que é certo é que tem corrido muito bem porque vamos desenhando nos cafés. em minha casa. E o Ângelo não se mete na parte técnica; praticamente, nem eu. É o engenheiro Rui Furtado quem decide.

Discutiu-se muito, com os comissários a puxarem muito pela proposta. Não são pragmáticos como eu: um é um filósofo e o outro é um teórico da arquitectura, com uma perspectiva muito dirigida. Isso, se calhar, verificase também com o Ângelo, que é um artista. Mas gosto muito de trabalhar com outras áreas.

E o que traz um artista para o quotidiano da arquitectura?

Um arquitecto tem um dia-a-dia tão massacrante, com problemas tão pontuais e chatos, que perdeu já o sentido de querer fazer o bonito, o belo, o sublime... e portanto trabalhar com um artista é uma espécie de liofilização só dessas partes que dão muito gozo. Há uma certa frescura nos artistas; são desprendidos. Não passam por aquela coisa, que nós temos, das funcionalidades. São de uma liberdade total.

A ideia de fazer uma montagem com espelhos levanta algumas dúvidas quanto ao resultado final, um pouco entre a peça artística e a tenda de feira de horrores...

Percebo, porque o próprio tema levanta dúvidas: a que propósito fazem um espelho? Depois existem outras dúvidas: com que material trabalhar em Veneza? Trabalhar com água, trabalhar com vidro?... Mas há um ligeiro gozo de fazer uma coisa moderna em Veneza. Acho Veneza lindíssima, mas está demasiado mumificada; é um belo escaparate: uma espécie de Las Vegas europeia não é por acaso que Las Vegas faz questão em imitar Veneza. Não tem vida própria, e não tem vida urbana, a não ser nuns quantos bairros. Dá-me um certo gozo tocar. não é para ser exibicionista, mas há [na nossa intervenção] qualquer coisa que pode pôr em questão.

A Bienal de Arquitectura já teve uma influência significativa na cultura arquitectónica contemporânea é só recordar a Strada Novissima em 1980 [comissariada por Paolo Portoghesi] que celebrava o pós-modernismo. Esse também foi o ano em que Aldo Rossi apresentou o Teatro del Mondo. Faz sentido manter este tipo de exposições internacionais?

Isto é como as equipas de futebol: tem altos e baixos. Há bienais que mudaram a história da arquitectura, como a Strada Novissima. Ou o Teatro del Mondo, um dos objectos mais bonitos do século XX, que não tem o mínimo paralelo [com a nossa participação], que é superficial e pictórica.

Recentemente a bienal sobre as cidades e o problema social da arquitectura [Cities, Architecture and Society, 2006], de que ninguém fala, foi também importante. É muito significativo aparecer aquele tema, lançado pelo Richard Burdett (um arquitecto que está mais ligado à história, à crítica e à sociologia), na altura de um certo vedetismo arquitectónico.

Os problemas principais são os que não estão ainda resolvidos, das cidades e da arquitectura.

A exposição de Burdett foi uma pedrada no charco porque acabou com um certo elitismo, um certo formalismo em que a arquitectura está metida. O tema deste ano, do Aaron Betsky Lá fora: Arquitectura para lá do edificado, pode ser muito interessante mas é uma ânsia de intelectual.

O que diz coloca limites na relação da arquitectura contemporânea com as artes ou a filosofia, por exemplo, que estiveram muito presentes nas décadas de 80/90. Hoje, onde se deve centrar o arquitecto?

Há arquitectos, como o Rem Koolhaas, que estão, cada vez mais, a fazer projectos simples, quase anónimos há a geração inglesa, os colaboradores do David Chipperfield, que fazem uma arquitectura simplicíssima de portas e janelas. E há o grande problema da arquitectura a habitação, que vai passar por África. Todos sabemos que é aí o futuro e a grande aposta. E aí vai existir um regresso a uma certa racionalidade entre material, linguagem e sistema construtivo. Se fosse comissário de uma bienal de arquitectura, escolhia como tema África. Neste momento o que está a salvar a arquitectura portuguesa é Angola.

A galeria londrina Serpentine foi uma estrutura também efémera que desenhou com um arquitecto, Siza. Vê diferenças entre trabalhar com um artista ou com um arquitecto?

É muito diferente. Eu e o Siza trabalhámos tanto tempo juntos e conhecemo-nos pessoalmente muito bem ele nem precisa de acabar a frase que eu já sei... e aquilo engata e vai por ali fora. Há uma relação natural também de hierarquia: ao mínimo problema não me ponho a discutir com o Siza, não é? E é só arquitectura e o diálogo é o mesmo: não pode entrar água, tem portas de saída de emergência... Por mais que queiram, arquitectura não é escultura nem é pintura... Com um artista é sempre um projecto "contemplativo", fenomenológico: "Deve-se ter uma sensação é bonito, é fresco, tem luz, tem espelho"... portanto, é só uma parte da arquitectura. Se me perguntarem se o futuro da arquitectura passa pelos artistas ou por arquitectos a trabalharem com artistas, digo que não.

Sabe-se que a vossa participação é essencialmente constituída por uma montagem de espelhos no Pavilhão de Portugal. Mas, como não existem ainda muitas imagens do interior, sabemos pouco o que esperar.

Quando nos convidaram, o Ângelo avançou dizendo que gostava de repetir uma instalação com espelhos que já tinha experimentado em Serralves uns espelhos a 90 graus em que uma pessoa se vê tal como é (e não em simetria). Tinha o título Nós vemos como os outros nos vêem a nós. Era uma ideia que nos pareceu ligada ao tema geral da bienal. São duas intervenções: lá dentro é como nos vêem a nós; e, lá fora, como nós vemos os outros este é o tema tal como o interpretámos.

O Pavilhão de Portugal é uma espécie de trapézio [em planta] com nove pilares. Lá dentro, repomos o alinhamento com o Grande Canal e com a fachada, deformando a sala e forrandoa com espelhos. No meio dos pilares pomos nove espelhos em "l" de três metros de altura que são iluminados a partir dos lanternins do telhado: as pessoas vão passeando por esse labirinto de pilares e de luz, e vão-se vendo como são.

Num dos desenhos divulgados da intervenção aparece o slogan do Robert Venturi, "I am a monument". Achava que faltava "legendar" a vossa intervenção?

Cá fora, como é um edifício baixo entre palácios, a primeira impressão que tive foi lembrar-me do velho tema do Venturi; então propus um outdoor que [parecia ser] uma coisa relativamente fácil de fazer em Veneza, porque os palácios estão sempre em obras.

Era uma homenagem ao Venturi, mas também era demasiado conotado. Discutimos e a frase caiu. Ficaram os espelhos, porque decidimos, na altura, fazer um projecto em conjunto e não uma exposição cada um. Pusemos um espelho vertical na fachada: é uma intervenção de arquitectura virtual, que em princípio finge que não existe.

Falamos de um espelho que descreveu como tendo 20 por 18 metros. Como é que se fixa isso a um edifício em Veneza?

É do mais complexo que há; vem tudo de barco. O engenheiro Rui Furtado foi quem fez os cálculos: é uma estrutura pesadíssima e autónoma que tem que ser fixa com pesos, porque não se pode aparafusar nada ao edifício; é intocável. Não é um outdoor normal de tubos porque não tem fundações ou melhor, as fundações são contrapesos. E, portanto, na primeira sala de entrada vê-se a estrutura que sai pelas janelas e tem umas sapatas de ferro, com toneladas de blocos de cimento para segurar, por causa do vento, aquele grande plano [exterior]. Foi muito complexo também porque as autorizações foram do mais difícil de conseguir. Parece que há uma lei que diz que no Grande Canal não se pode mexer em nada e portanto não sei se isto vai ser uma "escandaleira" não é que eu queira fazer escândalo; não sou um artista.

Mas está à espera de reacções menos boas?

É um atrevimento e as dificuldades são muitas. Gostava ainda de escrever no espelho redundância por redundância "Io sono un specchio". Puseram muitas reservas a que fosse espelho em vidro.

Também não havia espelhos com estas dimensões em stock, nem havia tempo para o fabricar.

Pensámos fazer em chapa de inox polida. Mas, uma vez mais, também não havia em stock. Fomos para [outra] solução: uma película de acrílico espelhado. E é preciso tocar para perceber que não é um espelho.