Leia também
Sérgio Rolando

Uma dança de vida e de morte com Christian Boltanski

27.06.2012
Por: José Marmeleira
diminuiraumentar
Seis anos depois da sua importante exposição em Serralves, Boltanski, um dos mais conceituados artistas franceses de hoje, regressa a Portugal. Vida, morte, memória, ressurreição... Os temas dele, em Guimarães

Quando morre alguém que amamos, o que fazemos com as suas roupas? Há quem as deixe, intocadas, durante dias, meses, semanas, anos no canto escuro do armário, até as entregar a uma instituição de solidariedade. Há quem as faça desparecer no dia seguinte, pela acção do fogo ou largando-as no lixo. Dança Macabra, exposição de Christian Boltanski (n. Paris, 1944) na Fábrica Asa, em Guimarães, evoca estes gestos quotidianos e aparentemente tão prosaicos com um cronómetro digital e uma instalação que faz circular roupas usadas no espaço.

Desde os anos 1970 que o artista francês usa roupas para explorar questões como a morte e a vida, a memória e o esquecimento. Mas este projecto, organizado pela Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura em colaboração com o Museu de Serralves, apresenta contornos inéditos.

"É uma peça de estreia. Já tinha suspendido roupas, mas agora é a primeira vez que as põe em movimento no espaço, criando uma espécie de dança, com sombras projectadas nas paredes", revela o comissário e director do Museu de Serralves, João Fernandes. "Uma dança um pouco fantasmagórica e onde se apropria de um tema tradicional da história da pintura, a dança da morte."

Sufocante

Não é, portanto, uma dança agradável a que Boltanski propõe. É intrusiva, quase sufocante. Os casacos (parkas, gabardinas) circulam vazios, ocos, cercando e roçando os espectadores que se furtam ao contacto.

"Não queria que o espectador ficasse apenas diante, mas dentro da obra. Que estivesse em cena, que se tornasse actor," diz o artista enquanto atravessa a dança de roupas que tomou conta da fábrica vimaranense. Uma gabardina passa a rasar-lhe o ombro e, depois de uma pausa, já sentado num banco, acrescenta: "Claro que pode haver quem ache as peças repugnantes. E receie adoecer se lhes tocar. Afinal, são roupas de pessoas mortas. É como tocar num cadáver." Ou numa ausência.

Recolhidos em Paris, os casacos fizeram parte da vida de alguém, tiveram uma memória, foram amados. Existiram antes de serem abandonados. "Neste trabalho, a roupa é mais um signo que nos reenvia para essa ausência que é a de uma pessoa", sublinha João Fernandes. "Alguém escolheu, vestiu e usou os casacos, e com diferentes funções. Para proteger do frio e da chuva, para impressionar os outros. Fizeram as pessoas sentirem-se bonitas. Cada uma destas roupas tem uma vida por detrás". E em Dança Macabra, ressuscitam com a intervenção de Boltanski. Têm uma nova vida.

As cores sombrias do vestuário contrastam com alguns tons claros e os casacos surgem em diferentes alturas, sugerindo qualidade pictóricas e espaciais. Outras leituras são activadas pelo contexto. "Quando faço um trabalho, quero que as pessoas possam olhar a partir de diferentes pontos de vista. Estamos numa antiga fábrica têxtil e a instalação funciona como uma máquina. As formas como os casacos estão dispostos lembram a carne pendurada. Um bom trabalho é uma coisa aberta, de onde cada um pode tirar o que desejar".

Únicos e sem memória

Dança Macabra evoca a actual produção em excesso de roupa. Se, num passado não muito distante, o vestuário era usado até ficar gasto, hoje é deitada fora antes da sua obsolescência. É esse excesso, que esconde uma rejeição do velho, da passagem do tempo, da morte, que inspira a instalação.

"A roupa usada e abandonada é como a fotografia de um morto. Por isso, na verdade, não trabalho com roupas, mas com as pessoas, com a sua ausência e presença. Por exemplo, na Fundação do Museu de Fukutake [no Japão] criei um arquivo de batimentos cardíacos. Quando alguém o consulta para ouvir a batida de um familiar, sente uma presença, através do som, mas também uma ausência. Como se olhasse para uma fotografia."

O cronómetro eletrónico, outra obra inédita, conta os segundos da vida de Christian Boltanski. "É um trabalho que tem a ver com o ciclo da minha vida. Quando eu morrer, pára. É como um coração, está a bater, mas sabemos que um dia vai parar. Isso é interessante. Não sei quando vai parar. Talvez daqui uns dias", diz o artista, a rir.

Como as máquinas das roupas, a passagem dos segundos indicia, ao mesmo tempo, a recordação da vida e o confronto com a morte. A história e a impossibilidade da memória.

"Um dos pontos do meu trabalho tem a ver com o esquecimento a que todos somos votados. Somos importantes, porque somos únicos, mas ao mesmo tempo somos facilmente esquecidos. As novas gerações esquecem as precedentes. Não nos lembramos. Não sabemos quem foram os nossos bisavôs. Mas cada indivíduo é tão importante... Essa é uma questão que o meu trabalho está sempre a colocar." E os artistas? Não têm eles a protecção de Mnemosine, a filha de Úrano e Gaia, a memória personificada? "Às vezes, talvez", diz ele.

Jogar a vida

Para Boltanski, o acaso é um elemento importante. Não sabe o que vai fazer aos casacos depois de Setembro, quando encerra a exposição. Talvez queimá-los, usá-los noutra exposição. Também não sabe se ganharão cheiro com o calor que se avizinha, situação que seria bem-vinda.

Este aspecto liga Dança Macabra a um projecto iniciado na Tasmânia em 2010.

"Um jogador de casinos chamado David Walsh queria comprar-me uma obra, e eu sugeri fazer uma nova peça, o que ele aceitou." O trabalho consiste no registo diário em vídeo do atelier do artista até ao dia da sua morte. "Enquanto isso, durante seis anos, diariamente, ele pagará o valor acordado pelo trabalho. Se eu morrer antes, ganha o jogo. Se eu sobreviver, perderá dinheiro. Já me disse que nunca perde, que eu morrerei antes. Logo veremos. É um trabalho sobre a dificuldade que temos hoje em falar da morte. Recusamos ficar mais velhos, recusamos morrer."

A morte e a vida levam-nos, pelo título da exposição, à pintura medieval, até às pinturas dos cristãos nas catacumbas. E para um filme, O Sétimo Selo, do cineasta sueco Ingmar Bergman.

"Ah, sim, lembro-me bem. O cavaleiro que joga xadrez com a morte posso ser eu", diz Boltanski, de novo a rir. "Mas o cavaleiro morre, no fim, com as outras personagens. Só o actor escapa com a família à dança macabra", dizemos-lhe. "Sim, se calhar, quem sabe, os artistas fogem mesmo ao esquecimento", responde. Ainda está a rir.