Polémica

Edgar Martins: verdade ou consequência

29.07.2009 - Kathleen Gomes
diminuiraumentar


Um jornal deve convidar um artista para fazer o trabalho de um fotojornalista? Um fotógrafo deve assumir que faz manipulação digital? Curadores e investigadores de fotografia e um professor de jornalismo falam sobre a controvérsia entre o fotógrafo Edgar Martins e o "New York Times"

A página de Internet do "New York Times" que em tempos teve fotografias de Edgar Martins parece-se com uma cena de crime depois de limpa. Onde antes estava um "slideshow" com uma série de imagens existe agora uma nota editorial, datada de 8 de Julho, explicando que a descoberta de indícios de manipulação digital levou o jornal a remover as fotografias. "Se os editores soubessem de antemão que as fotografias tinham sido manipuladas digitalmente, não teriam publicado o ensaio fotográfico", lê-se.

Recapitulando: a revista de domingo do "New York Times" encomendara ao fotógrafo português radicado em Londres fotografias sobre projectos de construção em diferentes estados americanos que foram interrompidos pelo colapso do mercado imobiliário. Intitulado "Ruins of the Second Gilded Age" (Ruínas da Segunda Idade de Ouro), o portfolio foi publicado na revista de 5 de Julho e uma versão mais alargada foi disponibilizada em "slideshow" no "site" do jornal. Foi este último que deu origem a um amplo debate entre os visitantes do fórum de discussão Metafilter: um deles, programador informático, veio mostrar que uma das imagens - a estrutura de madeira no interior de uma casa - tinha sido manipulada porque metade da fotografia era o espelho da outra metade. Foi o rastilho para questionar a credibilidade do trabalho de Edgar Martins: percebeu-se que outras fotografias também tinham sido rearranjadas digitalmente, nomeadamente através da duplicação de elementos dentro da imagem. O embaraço era tanto maior uma vez que o "New York Times" fizera questão de apresentar o trabalho de Edgar Martins, na revista e na versão "online", referindo que ele "cria as suas imagens com longas exposições mas sem manipulação digital". Desde que deixou a nota editorial no "site" - o equivalente ao contorno branco de uma silhueta no local do crime - o "New York Times" recolheu-se no silêncio como uma vítima pós-trauma, enquanto a blogosfera e a imprensa amplificaram o caso.

É desonesto?

Episódios idênticos já custaram o emprego a fotógrafos americanos: em 2007, Allan Detrich demitiu-se do diário "Toledo Blade", onde trabalhava há 18 anos, depois de se descobrir que tinha apagado as pernas de uma pessoa de uma das suas fotografias. Fê-lo por razões estéticas, e o seu gesto não alterou substancialmente a leitura da fotografia - tratava-se de um elemento a mais, por assim dizer: as pernas de um observador da cena que estava a ser fotografada - mas Detrich, fotógrafo multi-premiado e finalista do Pulitzer, nunca mais trabalhou no "Toledo Blade". "Leitores têm-nos perguntado porque é que isto tem tanta importância. O que há de errado em alterar o conteúdo de uma fotografia que é publicada num jornal?", escreveu um dos directores do jornal, pronunciando-se sobre o caso. "A resposta é simples: é desonesto. O jornalismo, quer use palavras ou imagens, deve ser uma representação rigorosa da verdade." Uma investigação interna demonstrou que Detrich tinha alterado digitalmente dezenas de fotografias publicadas pelo jornal. O que é feito de Detrich? Fotografa casamentos e tempestades, como se vê no seu "site" oficial.

Há mais casos de onde este veio, mas Detrich era fotojornalista, ao passo que Edgar Martins tem trabalhado fundamentalmente no campo artístico. Tem feito uma carreira internacional e o reconhecimento crítico tem sido meteórico - aos 32 anos, é apontado como um dos mais promissores fotógrafos da sua geração. A selecta Aperture editou o seu livro "Topologies" e as bolsas e prémios têm-se sucedido - no ano passado, foi o vencedor do BES Photo (25 mil euros), actualmente é um dos 12 finalistas do Prix Pictet, juntamente com o alemão Andreas Gursky e o britânico Chris Steele-Perkins. Mesmo quando o seu trabalho se tem cruzado com temas próximos do fotojornalismo ou do registo documental - os incêndios nas florestas portuguesas, um levantamento visual dos aeroportos em Portugal - as intenções têm sido outras e os canais de divulgação têm sido, por excelência, as galerias e museus.

Um fotojornalista tem uma obrigação profissional para com a "verdade", um artista "faz o que lhe apetecer", diz Margarida Medeiros, investigadora e professora de fotografia. "Claro que é legítimo ele usar o que quiser. Pode até usar só um quarto da fotografia." Só que já não estamos na galeria - o contexto de apresentação do trabalho foi um jornal. "É sempre um erro estarmos a fazer afirmações sobre a fotografia se não mencionarmos de que contexto de uso estamos a falar. A questão factual é completamente relevante para a imprensa mas completamente irrelevante na arte", lembra Sérgio Mah, curador de fotografia e comissário da PhotoEspaña.

Jorge Pedro Sousa, professor de jornalismo na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, e autor de vários livros sobre fotojornalismo, concorda com a reacção do "New York Times". "A manipulação fotográfica não deve ter lugar excepto quando é para haver um ganho informativo e desde que os leitores sejam informados disso. Vamos imaginar uma imagem de um bombardeamento: se calhar não conseguimos ter na mesma fotografia os aviões e os efeitos das bombas. Por isso, poderíamos eventualmente combinar numa única imagem digitalmente manipulada as duas coisas. Desde que o leitor seja informado devidamente de que se trata de uma imagem alterada, há aí algum ganho de informação. mas noutras ocasiões não. E sobretudo não acho que a alteração digital das fotografias da forma como foi feita no caso do ‘New York Times' possa ser feita de forma insidiosa, sem o leitor saber que estaria a ser confrontado com imagens digitalmente alteradas."

O Livro de Estilo do "New York Times" estabelece que as imagens publicadas na edição em papel ou "online" "devem ser genuínas em todos os aspectos", o que implica que "nem pessoas nem objectos podem ser acrescentados, rearrumados, invertidos, distorcidos ou removidos de uma cena". O jornal admite reenquadramento da imagem e ajustamentos cromáticos "limitados". Respondendo a perguntas dos leitores no dia 18 de Junho, a supervisora máxima da fotografia no "New York Times", Michele McNally, explicava que o jornal "espera que todos os seus fotógrafos - efectivos ou contratados - adiram a estas linhas de orientação". E descreveu "as muitas etapas de escrutínio por que uma imagem passa" antes de ser publicada. No "New York Times", cada secção tem o seu próprio editor de fotografia - é ele quem primeiro vê as imagens, seguido do editor de fotografia da primeira página. Se houver algum elemento duvidoso, é pedido ao fotógrafo ou agência que envie os originais, que o editor tratará de abrir no programa Photoshop, ampliando "áreas questionáveis". Posteriormente, na fase de produção gráfica, podem surgir "discrepâncias" e os editores serão avisados. "Já houve ocasiões em que requisitei os ficheiros originais por julgar que a imagem estava demasiado trabalhada, apenas para descobrir que estava errada", concluía McNally. (Tanto McNally como a editora de fotografia da revista do "New York Times", Kathy Ryan, foram contactadas por e-mail pelo Ípsilon, mas não responderam.)

Há quem pense que se o "New York Times" não tivesse referido inicialmente que as imagens de Edgar Martins não tinham sido alvo de manipulação digital, não haveria razões para escândalo. Para Sérgio Mah, Edgar Martins devia ter "clarificado" com o jornal que se tratava de "um ‘statement' artístico". "E o jornal devia ter sido mais aberto e ter acentuado: ‘Isto é o trabalho de um artista'. O marketing que o ‘New York Times' fez foi absolutamente superficial. Devia ter valorizado outras coisas do trabalho quando valorizou pormenores de resistência do jornalismo. Aquilo que aparece hoje em jornais e revistas não é absolutamente literal."

Emília Tavares, historiadora e curadora de fotografia, considera que se o objectivo do jornal era produzir um trabalho documental, então Edgar Martins "era certamente o fotógrafo menos apropriado para isso", um "erro de ‘casting'". Descreve-o como "um fotógrafo completamente onírico", cujas imagens "remetem sempre para um universo que não é o da realidade". Mas essa ambiguidade visual presente nas fotografias de Edgar Martins - o facto de parecerem quase sempre encenadas ou idealizadas - fez certamente parte das intenções do "New York Times" quando escolheu Edgar Martins e não outro fotógrafo mais próximo da tradição documental ou um fotojornalista. "Nesse sentido, o tiro saiu-lhes pela culatra", diz Emília Tavares.

Não-manipulação: valor reafirmado

Em entrevista ao PÚBLICO no dia 10 de Julho, falando pela primeira vez do caso, Edgar Martins admitia ter recorrido a um técnico de Photoshop para introduzir alterações em imagens do trabalho, adiantando que o "New York Times" nunca lhe pedira uma abordagem factual. O fotógrafo referiu-se a "um desencontro" sobre o modo como cada uma das partes assumiu o ponto de partida para o trabalho.

Ao referir que as fotografias de Edgar Martins não tinham qualquer manipulação digital, o "New York Times" estava apenas a repetir um argumento que tem sido utilizado de forma recorrente para descrever o trabalho do fotógrafo. Aliás, aquele jornal não foi o único a retractar-se nas últimas semanas - também a editora Aperture, que publicou "Topologies", descrevia o trabalho de Martins no seu "site" como o produto de "uma composição virtuosa e de um enquadramento meticuloso - mas sem manipulação digital". Depois de a polémica no "New York Times" ter surgido, a Aperture retirou a frase "mas sem manipulação digital". Em entrevista à revista "Time Out Lisboa", o fotógrafo afirma: "Não tenho qualquer controlo sobre essas sinopses que são escritas por outras pessoas e que depois são divulgadas." Basta consultar os artigos de imprensa que têm saído sobre o seu trabalho e que Edgar Martins disponibilizou no seu "site" para verificar como a não-manipulação tem sido um valor reafirmado pelo autor em entrevistas. "Quando fotografo, não faço qualquer pós-produção sobre as imagens, seja na câmara escura seja digitalmente" ("Artmostfierce", Abril de 2008). "Apesar de não fazer nenhumas intervenções físicas alem de enquadrar [a imagem], concordo que o meu trabalho é bastante teatral" ("Hot Shoe", Março de 2008). "Não faço uso de equipamento digital. (...) prefiro (...) usar apenas os seus aspectos mais espontâneos [da produção fotográfica]" ("Arte e Arquitectura", Maio de 2009). No livro "Topologies", Edgar Martins diz: "No caso do meu trabalho, o que parece ser uma fotografia altamente controlada e manipulada não é senão um produto de ilusão. A ilusão do processo fotográfico. Isso é particularmente evidente em ‘The Accidental Theorist'. A maior parte das pessoas parte do princípio que estas imagens são manipuladas, ou talvez mesmo encenadas. A verdade é que não há qualquer trabalho de pós-produção, nenhuma manipulação na câmara escura ou no computador." Edgar Martins defende que estas afirmações foram feitas "no contexto de projectos muito específicos, como o livro ‘Topologies'" ("Time Out Lisboa"), mas elas surgem quase sempre como referências ao conjunto do seu trabalho.

"O que é criticável é ele ter insistido como argumento de defesa do trabalho que não havia nenhuma manipulação, é alguém assumir isso como um valor artístico", nota Sérgio Mah. "É uma falsa questão, em 2009, que um fotografo manipule as suas fotografias. Se falarem com Jeff Wall [artista canadiano cujas fotografias são encenadas], as primeiras dez coisas que ele diz sobre o trabalho não são isso. A fotografia é silenciosa e defende-se visualmente."

Margarida Medeiros concorda. "Ele não devia deixar que essa etiqueta saísse nas fotografias. Sei que é para evitar que as pessoas pensem: ‘Ah, isto é tudo Photoshop.' Mas o facto de ser Photoshop ou não ser, não é o que dá qualidade ao trabalho. Quando se diz ‘isto é só Photoshop' é porque a fotografia não tem interesse nenhum. É porque não convoca nada de novo, nada que nos faça reflectir sobre isso."

Emília Tavares: "Acredito que exista ainda uma pressão histórica, crítica, cultural e até de mercado em relação à manipulação. O fotógrafo não tem obrigação nenhuma de dizer se manipulou ou não. É um instrumento de criação como outro qualquer - como a obturação, a exposição, a velocidade, o tipo de luz, se usa flash ou não."

Quanto à série de fotografias produzidas para o "New York Times", a historiadora considera que "o sentido geral do trabalho não se perdeu" apesar das alterações introduzidas digitalmente. "A essência da imagem não foi modificada. Uma pessoa olha para aquelas imagens e o que é que vê? Desolação, abandono." Sérgio Mah também relativiza: "Ele não está a fotografar o particular, mas o geral. Não são fotografias sobre a casa na Rua 33, às 5h30 da tarde. Aquelas casas são todas as casas que estão abandonadas, são abstracções."

Para Emília Tavares, trata-se de "uma polémica de uma sociedade que está muito sensível em relação à sua própria crise". O britânico Paul Wombell, curador e membro do júri que atribuiu o prémio BES Photo a Edgar Martins, também refere que é um assunto delicado. "Se tivesse sido outra história, não directamente relacionada com isto... Por exemplo, se fosse sobre férias, não teria adquirido tanto peso. Mas a crise do ‘subprime' nos Estados Unidos, que resultou da manipulação do mercado financeiro, é talvez um dos acontecimentos mais importantes na América nos últimos dez anos."

Apesar da controvérsia, Wombell continua a afirmar que Martins foi "um vencedor meritório". "Não estávamos a avaliar se as fotografias eram manipuladas ou não. Não era um prémio de fotografia documental, é mais vasto do que isso. E se bem me lembro, algumas das outras obras que estavam a concurso apresentavam manipulações de várias formas diferentes."

Edgar Martins recusou ser entrevistado para o Ípsilon.


Comentários
comentario 1 a 9 de um total de 9
diminuiraumentar
comentario04.08.2009 - 16:48 - Anónimo, porto
qualquer cidadão bem informado se indigna com a mentira e a falta à verdade.
comentario03.08.2009 - 12:35 - Anónimo, Lisboa
Contudo, a Arte também vive de expectativas e se o artista não cria expectativas nenhumas porque não é uma pessoa credível; então a sua arte... Ele foi fotografar os efeitos dos produtos financeiros "tóxicos" e revelou-se um fotógrafo-artista igualmente "tóxico".
comentario03.08.2009 - 12:35 - Anónimo, Lisboa
Contudo, a Arte também vive de expectativas e se o artista não cria expectativas nenhumas porque não é uma pessoa credível; então a sua arte... Ele foi fotografar os efeitos dos produtos financeiros "tóxicos" e revelou-se um fotógrafo-artista igualmente "tóxico".
comentario03.08.2009 - 11:23 - Armando Cardoso, Lisboa, Portugal
como – pior que isso – se continue a pretender que um trabalho de pós-produção conduza à diminuição do valor artístico duma fotografia !!! d) “ Acredito que exista ainda uma pressão histórica, crítica, cultural e até de mercado em relação à manipulação. O fotógrafo não tem obrigação nenhuma de dizer se manipulou ou não. É um instrumento de criação como outro qualquer “ - Emília Tavares No fundo, parece terem existido aqui dois erros : um erro de casting, como lhe chama Emília Tavares, na escolha de Edgar Martins para um trabalho jornalístico/documental (com as regras rígidas e fundamentalistas do NYT) e uma falta de franqueza e humildade – chamemos-lhe assim - por parte do artista ao continuar a defender o indefensável … Ao Eduardo Martins faltou humildade para aceitar uma coisa muito simples. Ao afirmar em vários sítios que as suas imagens não são manipuladas (o que, ao serem, não diminui em nada a qualidade das mesmas) tem agora “vergonha” de aceitar esta falsidade, receando que a “qualidade” das suas imagens seja atingida. Sendo certo que perde credibilidade como pessoa, as suas imagens não deixam de ter a qualidade que lhe é reconhecida.
comentario03.08.2009 - 11:20 - Armando Cardoso, Lisboa, Portugal
Em vez da mesquinhez e falta de rigor com que este caso tem sido tratado optaram – e bem – por recolher depoimentos de quem pode trazer “valor acrescentado” à polémica. Estão aqui reproduzidos os aspectos principais da questão, a saber: a) “ Um fotojornalista tem uma obrigação profissional para com a "verdade", um artista "faz o que lhe apetecer"” - Margarida Medeiros. Mesmo assim, ainda apetece perguntar: o que é “a verdade” fotográfica, mesmo no caso do fotojornalismo ? A escolha da objectiva (grande angular ou tele) é, por si só, uma forma de retratar a nossa “verdade” … b) “ É sempre um erro estarmos a fazer afirmações sobre a fotografia se não mencionarmos de que contexto de uso estamos a falar. A questão factual é completamente relevante para a imprensa mas completamente irrelevante na arte - Sérgio Mah c) “ O que é criticável é ele ter insistido como argumento de defesa do trabalho que não havia nenhuma manipulação, e é alguém assumir isso como um valor artístico. É uma falsa questão, em 2009, que um fotografo manipule as suas fotografias... . A fotografia é silenciosa e defende-se visualmente." - Sérgio Mah. Ou seja, não só é criticável que se negue o evidente (Continua)
comentario01.08.2009 - 13:54 - Paulo, Paris, França
Do artigo original do NYT: "Martins, who creates his images with long exposures but without digital manipulation..." Prova: (...)
comentario01.08.2009 - 13:02 - Filipe, Lisboa
A situação com o jornal é secundária nesta situação. Tal como foi referido por um dos entrevistados, a polémica vem da sensibilidade da sociedade ao apuramento da verdade. A crise em que se vive foi gerada por expectativas sem base de verdade e este fotógrafo criou iguais expectativas sem essa verdade, que seria de esperar: a verdade das suas afirmações. Ele geriu-se enquanto produto, que estaria a valorizar (mesmo agora deve dizer que tudo isto valoriza na mesma... mas agora sem expectativas). O que o comentador anterior refere tem alguma razão, o que me leva a comentar a afirmação do elemento do júri Paul Wombell ao afirmar que o EM foi o vencedor meritório, mas analisando os factos, talvez não devesse ter sido nomeado. Para o júri de premiação, não havia escolha. Quem as poderia ter feito não as fez e esse foi o júri de nomeação. Nem entendo como é que dadas as evidências, o BES Photo ou qualquer um dos outros fotógrafos não-vencedores veio a público dizer alguma coisa... mas talvez digam no meio de amigos, nos cafés, como é o nosso bom costume. A questão é que isto, como foi já foi dito, só demonstra a fraqueza do sistema. Ninguém quer "quebrar a corrente", senão vai ter 100 anos de azar. O Prémio Pictet foi atribuído por boas referências do prémio BES; o prémio BES foi atribuído, por boas referências do prémio de Nova Iorque e por aí fora. Haja prémios! De acrescentar, que a galeria nova-iorquina que trabalhava com o fotógrafia retirou-o da sua lista de artistas, só se encontrando esses vestígios na cache do Google.
comentario01.08.2009 - 12:42 - Pedro, NI, EUA
Visto que este foi o único lugar onde consegui encontrar um texto liberto de tentativas frustradas de salvação e onde se mostrou fazer um apelo a uma reflexão inteligente, deixo aqui o meu comentário. Em primeiro lugar, respondo à pergunta. Sim, é desonesto. O problema em causa não apenas o facto do Edgar Martins não ter seguido as regras do NY Times ou as que intrínsecamente são impostas a um fotojornalista, mas sim o facto de ele ao longo do tempo ter falado no facto das suas imagens não serem manipuladas e o serem (eu estive presente no lançamento do livro na Aperture em NY e ouvi-o dizer isto e a corroborar a afirmação, mesmo quando algumas das pessoas na audiência mostraram duvidar que não teriam sido manipuladas; mesmo no comentário no website mencionado, é dito que a manipulação lhe corrói o processo e ele fala "quando fotografo", dando a entender que sempre que fotografa, não usa da manipulação, porque isso lhe corrói o processo). Não existe mal algum em as fotografias serem manipuladas e toda a gente é da opinião de que são bonitas. Sou da mesma opinião do comissário Sérgio Mah, mas questiono se o caminho do Edgar Martins teria sido tão fulminante, caso não o tivesse dito, pois infelizmente o Edgar Martins não é o Jeff Wall ou mesmo um Andreas Gurski ou um Thomas Ruff (todos grandes fotógrafos que admitem recorrer à manipulação digital). O problema não está claramente no trabalho que ele faz, mas na sua pessoa. Com toda a certeza que usar essa invocação purista da criação sem qualquer tipo de produção extra lhe trouxe o reconhecimento que o leva, ou ele deixa dizer que, é um dos fotógrafos mais promissores da sua geração. O que se pode observar é que através da mentira, Edgar Martins explorou uma fraqueza do sistema que legitima a Arte. Porque em Arte tudo é permitido e mesmo numa situação destas, os valores e os interesses em jogo são de tal ordem, que não é desejável que ele caia em desgraça. No fundo um problema que tinha como objectivo mostrar as fraquezas do Sistema Financeiro revelou as fraquezas do Sistema da Arte; querendo ao mesmo tempo arrastar para o fundo outras áreas da Fotografia, como o Fotojornalismo ou mesmo a Coordenação Editorial de jornais reputados. Até agora não consegui ler a longa "justificação" que foi devidamente publicitada em alguns blogs (os que o têm promovido e defendido), pois o seu texto começa bastante mal, com uma citação de Nietsche, mais uma vez arrogante e que em nada justifica os seus actos. Numa leitura em diagonal, não vejo nada que possa considerar como válido. A sua mentira foi feita para um plano que nada tem de artístico, por isso a sua justificação jamais seria pela Arte. Ao fazê-lo só demonstra que sabe manipular as fraquezas do sistema.
comentario01.08.2009 - 11:40 - Miguel, Lisboa
No fim há só uma coisa a reter. Edgar Martins disse, deixou dizer e procurou que dissessem que não manipulava as imagens por achar que isso faria dele e do trabalho dele algo melhor. Agora até já quer fazer crer que foram outros e não ele quem dizia isso, quando a história nos prova o contrário. Tomemos um exemplo, se fosse um político apanhado numa aldrabice destas estava todo o mundo indignado. Não discuto o mérito do trabalho, se é ilustração ou fotografia, se perdeu ou ganhou com as manipulações, se são válidas, etc. Muito antes de chegar aí há que, em vez de se tentar limpar, perceber uma coisa (independentemente de saber se os olhares mais atentos já se tinham apercebido da falsidade discurso vs. prática): Edgar Martins é mentiroso. E como diz um amigo meu, um mentiroso é um mentiroso.
Páginas:
1