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23.11.2011 - Lucinda Canelas, em Madrid
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Raymond Roussel era um criador de mundos, um escritor que nunca foi popular, mas que acabou por influenciar a arte do século XX. A exposição de Madrid chega em Abril ao Porto

Não usava um sobretudo mais do que duas vezes e andava sempre impecável, calças e camisas vincadas, gravatas discretas ou laços exuberantes. Para este homem que só comia uma vez por dia para não perder tempo e que suspeitava que todos os génios tinham uma estrela gravada na testa, escrever era uma obsessão e a popularidade um desejo que mais tarde haveria de intrigar os psiquiatras. Raymond Roussel é um enigma criador de outros enigmas, um escritor que marcou a arte do século XX e cuja influência orientou a organização da exposição que agora leva o seu universo ao Museu Rainha Sofia, de Madrid, através de obras de Marcel Duchamp, Salvador Dalí, Max Ernst, Francis Picabia, Rebecca Horn, Francisco Tropa e Rodney Graham.

"‘Locus Solus'. Impressiones de Raymond Roussel" reúne mais de 300 obras inspiradas neste autor milionário dado a surtos psicóticos, complexo e excêntrico, que escreveu os seus principais livros - "Impressions d'Afrique" e "Locus Solus" - nas duas primeiras década do século XX e que foi somando fracassos editoriais e cénicos até morrer, aos 56 anos, num hotel de Palermo, com uma "overdose" de barbitúricos.

Mesmo sem se rever nas obras expostas (era bastante mais conservador), Roussel (1877-1933) teria gostado de ver um grande museu dedicar-lhe uma exposição, diz ao Ípsilon o director do Museu de Serralves, João Fernandes, que partilha o comissariado com o seu homólogo do Rainha Sofia, Manuel Borja-Villel, e o jovem curador francês François Piron: "Ele achava que, depois de escrever o primeiro livro, as pessoas iam reconhecê-lo na rua, cumprimentá-lo. Isso nunca aconteceu e Roussel nunca lidou bem com esta falta de fama." E por que razão não foi um autor popular? "Porque a sua escrita é densa, difícil - escrevia histórias por associação fonética, brincando com os sons das palavras, sem se preocupar em criar significação. Concebeu um método de escrita mecanizado, que só seria explicado depois da sua morte [‘Comment J'ai Écrit Certains des mes Livres', 1935]. É um escritor de escritores, um artista de artistas."

Vertigem da imaginação

Com um "imaginário poderoso e surpreendente", Roussel é um autor que fascina João Fernandes, o que talvez ajude a explicar por que "‘Locus Solus'. Impressiones..." é a primeira exposição do protocolo que junta o museu madrileno ao portuense, que a apresenta em Abril, com ligeiras modificações e um ciclo de cinema complementar.

A ideia surgiu há dois anos, mas o director de Serralves, que gosta de desenvolver mentalmente "exposições impossíveis", não se atreveria a sonhar com a sua concretização sem o Rainha Sofia: "Projectar exposições improváveis permite-nos descobrir coisas para além do que habitualmente fazemos. Neste caso, para passar do exercício à prática foi essencial o Rainha Sofia, que tem uma colecção histórica, modernista, de grande qualidade e muito abrangente. Sozinho Serralves não teria condições, porque hoje em dia é muito difícil os museus emprestarem obras da primeira metade do século XX."

Para fazer a exposição que fica em Madrid até 27 de Fevereiro os dois museus contaram com a ajuda da Biblioteca Nacional de França, que tem na sua colecção os manuscritos e as fotografias de álbum de família que formam o primeiro núcleo, o que atravessamos depois de passar pelo grande e estranho diamante de Jacques Carelman, inspirado nas máquinas de "Locus Solus". É neste livro, explica Fernandes, que "Roussel extrema a sua imaginação, muito influenciada pelo positivismo do século XIX", dando à literatura os seus primeiros morto-vivos. Os mesmos a que o poeta americano John Ashbery se refere ao resumir a obra no prefácio do livro que o filósofo francês Michel Foucault dedicou ao excêntrico autor ("La Mort et le Labyrinthe: Le Monde de Raymond Roussel"). "Ficamos a saber que os actores são na verdade mortos a quem Canterel [o cientista-protagonista] deu vida com ‘ressurrectina', um fluído que inventou e que, quando injectado num cadáver, faz com que ele continue a representar o acontecimento mais importante da sua vida", escreve Ashbery.

É por causa desta "vertigem da imaginação" que Roussel influenciou artistas tão diferentes - Dalí e Duchamp, Ernst e Cornell, Graham e Picabia, Ree Morton e Cristina Iglesias -, argumenta o comissário, chamando a atenção para a atracção que Roussel sentia pela ciência e pela obra de Júlio Verne e do astrónomo Camille Frammarion.

Atraídos por este homem que gastou grande parte da sua fortuna a editar os seus livros e a encenar as peças que escrevia estão também os artistas que encontramos ao percorrer as muitas salas de "‘Locus Solus'. Impressiones...", parando na fotografia de Duchamp (sobretudo a da estrela na cabeça) e de Felix Nadar (Sarah Bernhardt, diva do teatro), nos filmes de Méliès, Dalí e Jean Rouch, na pintura de Picabia e Delvaux, e nos manuscritos de "Locus Solus" e de "Impressions d'Afrique", com a sua letra miudinha, rasurados, com muitas anotações nas margens.

Visitar esta exposição é uma descoberta do universo de Roussel que nos faz querer saber mais sobre a sua obra e a sua vida, cheia de pormenores bizarros e de histórias deliciosas, como a das suas temporadas entre a família real do Tahiti e a da "roulotte" em que viajava pela Europa, com um séquito de empregados, e que mereceu elogios do Papa Pio XI e de Mussolini.

João Fernandes, que chegou a Roussel através de "Impressions d'Afrique" (1910), diz que é possível contar uma história da arte "secreta" do século XX a partir do escritor: "Este livro foi uma espécie de terramoto. Muitas vezes não percebemos nada do que se passa, mas as situações atraem-nos, prendem-nos. E depois ele explica-as. Há sempre um encanto, uma estranheza pelo que não entendemos."

Uma estranheza que amplia as nossas possibilidades de percepção do mundo. "Roussel podia ser uma personagem de Proust. Os dois constroem, aliás, mundos diferentes, só que Roussel usa apenas a sua imaginação incrível, fabulosa, e Proust a memória."

Para os que se querem preparar para a exposição de Serralves, João Fernandes recomenda a única e "notável" tradução portuguesa de Roussel, de Luiza Neto Jorge ("Novas Impressões de África", uma obra de 1932 que a Fenda lançou em 1988). Para os que querem associar a vida à obra, há sempre "Raymond Roussel and the Republic of Dreams", de Mark Ford (Cornell University Press, 2000). É ele que atribui a Roussel a criação de "grotescas esculturas verbais", com uma "infinidade de significados potenciais".