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Londres: a utopia por cumprir

07.12.2011 - Óscar Faria, em Londres
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Uma praça ocupada. Arranha-céus. Exposições e discursos. Uma viagem psicogeográfica por Londres. O “coração do capitalismo”. A utopia por cumprir

Há as greves, as escutas do "News of the World", tablóide de Robert Murdoch, as manifestações de estudantes contra os aumentos das propinas, os ocupantes junto da catedral de S.Paulo - a revolução dos 99 por cento -, os Jogos Olímpicos do próximo ano e os arranha-céus que irão desenhar o novo horizonte de Londres, esse "coração do capitalismo", como o historiador T. J. Clark designou a cidade numa conferência acerca da "esquerda."

A metrópole é atravessada por impulsos: camada a camada vai transformando-se num implacável e vigiado desejo de futuro. A arte associa-se à indústria do luxo, formando uma bolha, um espaço aparte, "hype", "trendy", "glossy". Tudo é desenhado por um consumo "pop-up" patrocinado por omnipresentes ecrãs digitais. Uma perpétua acumulação de imagens destinadas a iludir a crise do capitalismo tardio, tal como definido pelo economista Ernest Mandel; abolindo-se, assim, nesse nevoeiro digital, a distância crítica.

A capital inglesa é uma cidade fragmentada. Cada bairro tem o seu ritmo. E são 32 os municípios que formam Grande Londres. Há o Soho dos musicais e o café Oto, em Dalston, onde acontece um invejável programa música experimental. Nas periferias, escutam-se outros ritmos: árabes, indianos, africanos, mas também o dubstep e a electrónica, o deathmetal e a pop, o kuduro e o hip-hop. Um palimpsesto de sons e imagens; infindável vertigem à qual se pode tentar escapar através do exemplo das "radial walks", de Will Self, ou dos percursos em torno da M25, uma auto-estrada de 188 quilómetros à volta da cidade, origem do livro "London Orbital", de Iain Sinclair.

Hoje, na Cinemateca, pode ser visto um programa onde são exibidos, pela mão de Ricardo Matos Cabo, no âmbito do ciclo "Resíduos", duas pérolas que ajudam a compreender melhor a forma como esta cidade se constrói e destrói quotidianamente: "Memo Mori", montagem de fragmentos filmados durante três anos em Hackney - esta obra, realizada por Emily Richardson, é narrada por Iain Sinclair, autor que, com Will Self, renovou a leitura psicogeográfica do quotidiano - e "London" (1994), um dos ensaios cinematográficos de Patrick Keiller, no qual somos levados a partilhar as explorações do "investigador" Robinson e do seu "compagnon de route", o narrador, na qual ambos tentam "conjugar duas linhagens de pensamento crítico: por um lado, a literatura urbana de Poe, Baudelaire, Louis Aragon, Walter Benjamin, entre outros; por outro lado, as visões diversas do declínio do capitalismo inglês, em particular a ideia de que a Inglaterra é uma economia em decadência e atrasada por nunca ter tido uma revolução burguesa de sucesso."

A afirmação do poder económico, produzida simultaneamente, sem fissuras e de forma paradoxal, no tempo em que se assiste ao colapso do capitalismo, materializa-se também em arquitecturas verticais, os arranha-céus, que são o contraponto aos espaços de liberdade, horizontais, planos, propícios à produção de um saber colectivo: a praça é o lugar de eleição, pois a amplificação de qualquer discurso apenas necessita de uma voz comum, uníssona. Na capital inglesa, essa comunidade tem vindo a ser produzida no âmbito do movimento Occupy London Stock Exchange (LSE). Há contudo o risco, nota Slavoj Zizek, de tudo ficar reduzido a uma experiência colectiva carnavalesca...

Enquanto as vozes dizem "We are the People", ergue-se, do outro lado do Tamisa, sobre a estação de London Bridge, "the Shard" ("o caco"), um edifício com 310 metros de altura, com assinatura de Renzo Piano. Outros arranha-céus irão surgir e mudar o horizonte da cidade nos próximos anos: em 2013, serão terminadas duas torres projectadas pela Kohn Pendersen Fox Associates: a Heron Tower (230 metros) e a Pinnacle Tower, também conhecida como Helter-Skelter (288 metros). Há mais, muito mais. Outro exemplo: os 225 metros do Leadenhall Building, desenhado por Richard Rogers, apelidado "the Cheese Grater", e que irá nascer junto ao Lloyd's Building, construído segundo projecto deste mesmo arquitecto entre 1978 e 1986 - Rogers é um exemplo da ambiguidade ideológica do pós-modernismo, tendo colaborado com governos conservadores e trabalhistas.

Esta mudança no tecido urbano e social de Londres chegou igualmente à arte e à dependência desta do mercado e do sistema económico: as instituições estão cada vez mais reféns das políticas de galerias, de coleccionadores e marcas associadas às indústrias do luxo. A última novidade é a abertura, em Bermondsey, do novo espaço da White Cube. Com assinatura da firma de arquitectura alemã Casper Mueller Kneer, é o terceiro edifício - os outros existem em Hoxton e Mayfair - desta galeria fundada em 1993 em plena euforia dos Young British Artists (YBA). Próximo do "Shard", lugar de trabalho de potenciais clientes, a nova casa gerida por Jay Joplin tem 5 mil e 500 metros quadrados - duas vezes maior do que a Hayward Gallery, no South Bank, actualmente com exposições antológicas de Pipilotti Rist e George Condo.

Novos espaços, antigas galerias. Salas imensas, clínicas, vigiadas por empresas de segurança ou jovens voluntários. Exposições com carácter museológico, catálogos de luxo. O fim da autonomia institucional? Para além da White Cube, a Hauser and Wirth, a Victoria Miró, a Thomas Dane, a Marian Goodman, a Haunch of Venison, a Saatchi e a Larry Gagosian ajudam a compor o panorama artístico de uma cidade com centenas de espaços dedicados à venda de obras de arte, muitas vezes instalados em sítios improváveis - seja no Selfridges, onde foi apresentada a última edição do Museum of Everything, seja numa antiga cavalariça (Mews).

E as instituições? Nelas é possível reconstituir o palimpsesto de épocas e culturas que fizeram de Londres a metrópole que é. Na renovada Two Temple House pode visitar-se "William Morris: Story, Memory, Myth", exposição em torno deste nome do movimento oitocentista "arts and crafts", que viria a ser também um dos fundadores da Liga Socialista, organização revolucionária inglesa. Um salto no tempo, e na Royal Academy of Arts, no âmbito da mostra "Building the Revolution", centrada na arte e arquitectura soviéticas de um período situado entre os anos de 1915-1935, é possível encontrar uma reconstituição da maqueta que Tatlin construiu, em 1919, para celebrar a Terceira Internacional - um monumento antecessor do projectado por Anish Kapoor para o Parque Olímpico: o "ArcelorMittal Orbit", com 115 metros de altura.

Uma outra viagem, desta vez até à colectiva "Pós-modernismo", celebrada no Victoria and Albert (V&A) com o subtítulo "estilo e subversão" e que inclui objectos relacionados com a arte, o design, a arquitectura, a moda, a literatura, a dança e a música pop. No fim, depois de atravessada a miríade de ilusões de um termo cunhado nos anos de 1930, na América-Latina, pelo espanhol Federico de Onís - na exposição londrina a memória histórica é obliterada, um habitual procedimento pós-moderno, em favor da aparição do termo no contexto norte-americano - tudo se resume à célebre frase de Robert Venturi e Denise Scott Brown, publicada em 1972, no manifesto arquitectónico da década, "Learning from Las Vegas": "‘Building for Man' vs. ‘Building for men (markets).'" Os mercados, o dinheiro e o homem em queda, visível no vídeo "Bizarre Love Triangle", que Robert Longo realizou para os New Order: "Every time I see you falling/ I get down on my knees and pray/ I'm waiting for that final moment/ You say the words that I can't say."

Uma última paragem, na Barbican Art Gallery, onde está patente "OMA/Progress". A mostra, comissariada pelo colectivo Rotor, com sede em Bruxelas, na Bélgica, constitui um levantamento dos projectos desenvolvidos pela empresa fundada por Rem Koolhaas em 1975. Um "work-in-progress" que procura desempenhar um "papel activo" nas ideias que estão a moldar o mundo, nomeadamente nas relacionadas com a arquitectura, o urbanismo e a análise cultural. No âmbito do programa paralelo à exposição, há uma visita guida pelo centro de Londres que termina, na city, junto à sede do banco Rothschild, um projecto "discreto" do OMA, recentemente concluído. Ali, num gesto simples, recuperou-se para a cidade a visão da cúpula da igreja de St Stephen Walbrook, projectada por Christopher Wren, em 1680, que estava escondida da vista há mais de 200 anos.

No dia 12 de Novembro, David Harvey discursou diante da Catedral de S. Paulo. E o que disse o autor de "Spaces of Global Capitalism? "Uma das coisas que temos aprendido nos últimos anos e particularmente nos últimos meses, é que, no fim, é o povo - na rua, nas praças -, aquilo que realmente importa. Ele é a única força política que temos." E acrescentou: "Quanto mais pessoas se juntem na rua, será cada vez mais difícil para eles dizerem: ‘Oh, não, os vossos interesses não são os nossos.'"