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Ele não está ali

28.12.2011 - Helena Ferreira, em Taipé
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Após quase três meses de detenção na sua China-natal Ai Weiwei é homenageado em Taiwan com algumas das suas obras mais emblemáticas. “Ai Weiwei: Absent” é considerada a primeira grande exposição na “Grande China” daquele que foi considerado “o mais poderoso artista do mundo”. Não deixa de ser irónico que este evento se realize na ilha democrática cujo estatuto é quase tão polémico para a China continental como o próprio Ai Weiwei

Em Outubro de 2011, o chinês Ai Weiwei foi aclamado como a mais poderosa pessoa do mundo da arte numa sondagem da revista "ArtReview". Na escolha terá pesado tanto a sua obra como o seu activismo, mas será que os dois são dissociáveis neste caso? A exposição "Ai Weiwei: Absent", em preparação desde 2009 e que está em exibição no Taipei Fine Arts Museum, até final de Janeiro de 2012, parece demonstrar que não. A referência subtil ao papel do artista-activista começa desde logo no título. "Ai Weiwei: Absent" ("Ai Weiwei: Ausente") alude à impossibilidade de o autor estar fisicamente presente em Taipé - segundo o próprio, não teve autorização das autoridades chinesas - para mostrar as suas criações. Apesar disso, em declarações à Reuters, declarou-se satisfeito por ver o seu trabalho exibido em Taiwan sendo que, recentemente, tal não é possível de suceder no seu local de residência.

Contactados pelo Ípsilon, responsáveis pelo Taipei Fine Arts Museum informaram, por e-mail, que a ideia de ausência como tema da exposição fora sugerida pelo próprio Ai durante a preparação da exposição dizendo que "a presença do artista não é necessária [...], é uma espécie de teste. Sinto que somos todos etnicamente chineses, temos um mesmo ‘background' cultural, e mesmo no ambiente político actual temos muitos problemas em comum". Para Ai a ausência é "o estado presente" da sua arte e da sua pessoa. "E parte da minha circunstância cultural o que dá um significado particular a esta exposição".

O museu garante ao Ípsilon que "no domínio da arte contemporânea, a mais importante forma de o visitante compreender o artista é através das suas obras". E o objectivo é "transmitir aos visitantes o dinamismo das obras de arte de Ai, as suas ideias e o seu poder influente".

Esta é, assim, a primeira grande exposição a solo de Ai na "Grande China" (designação que abrange a China continental, Hong Kong, Macau e Taiwan). Apesar de alguma polémica inicial pela ausência de visitas oficiais, já foi entretanto visitada pelo presidente de Taiwan, Ma Ying-jeou, tido como o grande obreiro da reaproximação entre Taiwan e a República Popular da China que permanecem, em teoria, em estado de guerra civil.

Na informação que fez chegar ao Ípsilon por correio electrónico, o Taipei Fine Arts Museum adianta que este projecto remonta há dois anos, tendo o antigo director do museu analisado com Ai Weiwei, no Japão e em Pequim em 2009 e 2010, a ideia de fazer uma exposição em Taipé. Ai terá mesmo sido convidado a visitar o museu - um dos grandes espaços dedicados à arte contemporânea em Taiwan - quando esteve na ilha em 2009. "A exposição de Ai no Taipei Fine Arts Museum foi planeada e discutida com o artista durante quase dois anos antes de esta tomar forma. Desde o título, a lista de obras e o plano da instalação, tudo resultou de uma estreira colaboração entre o museu e o artista". O museu garante ainda que "esta exposição é independente de qualquer outra mostra de Ai Weiwei".

Entre Pequim e Nova Iorque

"Ai Weiwei: Absent" apresenta vinte e uma obras cobrindo vários suportes e datas. As mais antigas são as séries de fotografias tiradas pelo artista em Nova Iorque e Pequim de 1983 a 1994. Da East Village nova-iorquina à comunidade artística como o mesmo nome que integrou na capital chinesa quando regressou ao país em 1993, as cem fotos de Ai são um testemunho provocador e melancólico de uma vida à deriva, no estrangeiro ou no seu país. São também testemunhos de duas dimensões inextrincáveis: a sua integração num meio artístico chinês e, simultaneamente, a forma individualista como nele se destaca. Nas fotografias de Nova Iorque, Ai fotografa-se a si e aos seus companheiros artistas em casa, na rua ou em museus. Nomes hoje consagrados, como os realizadores Chen Kaige, Jiang Wen e Feng Xiaogang, surgem num preto-e-branco por vezes desfocado, como se habitando um espaço feito de memórias de juventude, ora colectivas ora solitárias e de semi-exílio.

Nos anos 1970, após ter desistido da Beijing Film Academy, onde foi colega de Zhang Yimou, Ai Weiwei começou por chamar a atenção no grupo de artistas autodidactas The Star que expuseram os seus trabalhos num parque junto à então China Arts Gallery em Pequim.

Em 1981 Ai foi para os EUA com um visto de estudante mas acabou também aí por desistir de uma educação formal. No entanto, ali permaneceu dez anos numa espécie de limbo de aprendizagem independente, período em que terá travado conhecimentos com personalidades como o poeta da "geração beat" Allen Ginsberg e descoberto o apelo de Marcel Duchamp e Andy Warhol. Em 1993 regressou à China devido ao estado de saúde do pai, o poeta Ai Qing, que Mao enviara para campos de trabalho limpar casas de banho nos anos 1950. Foi em Pequim que se tornou num dos participantes da comunidade artística do East Village, onde se produziram várias obras experimentais.

Só em 2000, com 43 anos, Ai Weiwei foi catapultado para a fama no meio artístico internacional ao participar na exposição "Fuck Off", exibida paralelamente à Bienal de Xangai desse ano. Na década subsequente os seus trabalhos foram expostos em mecas artísticas como a Bienal de Veneza, em Itália, e a Documenta em Kassel, na Alemanha. O estádio olímpico conhecido como "Ninho de Pássaro" em Pequim, teve o seu contributo, numa colaboração com a firma de arquitectos suíça Herzog & de Meuron. É desse período que data a maioria das obras expostas no Taipei Fine Arts Museum.

Refazer o histórico

Ai gosta de desconstruir objectos históricos, suscitando reflexões sobre o seu valor e a sua ligação à vida das pessoas comuns. Numa entrevista publicada no portal de arte chinesa "ArtZineChina", há uns anos, dizia que gostava de usar "restos" (de objectos ou edifícios históricos) "como prova da nossa actividade passada", colocando-os em contextos contemporâneos criando um "contexto misto, problemático e interrogativo". Na exposição em Taipé isso é evidente no tríptico fotográfico "Dropping a Han Dynasty Urn" (1995) ou em "Colored Vases" (2010), estes últimos um conjunto de vasos neolíticos datados de 5000-3000 a.C. a que Ai aplicou tintas industriais de várias cores. Essa iconoclastia estende-se a objectos de datação mais recente mas igualmente valiosos, como mobiliário da dinastia Qing (1644-1911). Em "Grapes" (2010), criou uma estrutura a partir de 32 bancos dessa época que se assemelha a um cacho de uvas, provocando uma sombra estrelar no chão e desafiando as convenções de uso do objecto e até a própria ideia de gravidade. Mesas do mesmo período foram reconstruídas em estruturas bizarras mas evocadoras de uma certa fragilidade em "Table with Two Legs on the Wall" (2010) e "Table with Three Legs" (2010). Em "Map Of China" (2004), feito a partir de madeira de um templo da dinastia Qing, Ai reflecte sobre a dimensão geopolítica do país, com a particularidade de incluir o mapa Taiwan, cujo estatuto internacional permanece vago. Mas, nesse suporte, nada supera a monumental criação "Through" (2007-2008), em que mesas, feixes e pilares de templos da última dinastia chinesa foram colocados num conjunto de linhas diagonais com mais de 1 quilómetro de extensão. Com "Through" a imagem de elegância e ordem arquitectónica de edifícios históricos é limitada ao seu esqueleto e desconstruída, criando novas formas que parecem delinear caracteres chineses.

A recriação do objecto histórico não termina aqui. Em "Ruyi" (2006) criou em cerâmica um ceptro com esse nome mas decorou-o profusamente com motivos do corpo humano, conferindo a esse objecto cerimonial e símbolo de poder uma dimensão desconcertantemente física. Em "Coca-Cola Vase" pintou o logo da companhia norte-americana de refrigerantes num vaso da dinastia Han (202 a.C. - 220 b.C.), que pisca o olho à forma como o consumismo frenético e a pulsão ocidentalizante da nova classe média chinesa coabita com a herança civilizacional do país. É "pop art" com características chinesas.

Situada fora da exposição mas exposta em local privilegiado no "lobby" do museu, "Circle of Animals" é composto por doze esculturas de bronze de cabeças dos animais que são símbolos do zodíaco chinês. Ai Weiwei partiu das cabeças análogas que foram pilhadas do antigo Palácio de Verão na China em 1890 por forças invasoras ocidentais, nomeadamente britânicas e francesas. O caso das cabeças em colecções ocidentais gerou polémica em 2008 quando duas delas, pertencente à colecção de Yves Saint Laurent, foram leiloadas após a morte do estilista. As autoridades chinesas consideram que as peças são propriedade roubada e exigem a sua devolução. A recriação de Ai, feita em 2010, já esteve exposta em Nova Iorque e Londres e convida os visitantes a reflectirem no valor simbólico das peças, senão mesmo nas cada vez mais prementes questões do repatriamento de obras de arte. Um convite que passará ao lado daqueles para quem o mais importante é fazer pose enquanto tiram fotografias com a família em frente às esculturas.

Ecos políticos

A reflexão político-social mais pura não está ausente nas obras expostas em Taipé. "Surveillance Camera" (2010), esculpida em mármore, é um lembrete mais que evidente do controlo omnipresente do regime sobre o cidadão comum. Rima curiosamente com "Helmet", outra escultura de mármore feita no mesmo ano mas que sugere protecção ao invés de intromissão (ainda que não tenha protegido Ai neste seu "annus horribilis").

Em "Study of Perspective: Tiananmen Square" (1995) - a única das fotografias dessa série exposta em Taipé - em que Ai mostra o dedo do meio à praça de Tiananmen, não poderia ser mais óbvio na provocação ao poder instituído. As mutações da Metropolis que é Pequim são evocadas nos seus trabalhos vídeo projectados na mostra. Em "Beijing-Chang'an Boulevard" (2004), "Beijing: The Second Ring Road" (2005) e "Beijing: The Third Ring" (2005), onde se descortinam ecos das experiências fílmicas de Warhol, a câmara fixa o movimento incessante dessas avenida e estradas, registando com minimalismo os ritmos da cidade.

A obra mais impressionante é, no entanto, "Forever Bicyles" (2011), uma instalação com 10 metros de altura de mais 1200 bicicletas da marca chinesa "Forever" que foi feita de propósito para a exposição. Entrelaçadas entre si, estas são uma visão de infinito que nos intriga pela montagem e impõe respeito pela dimensão. O efeito, meramente artístico já que a forma como foram montadas retirou às bicicletas a sua funcionalidade original, é amplificado pelo facto de a instalação estar exposta na sala mais alta do museu.

Se nas "Sunflower Seeds" expostas na Turbine Hall da Tate Modern em 2010 Ai já demonstrara como traduzir o poder visual do colectivo na China a partir de um individual escondido mas minuciosamente executado (cada semente de porcelana fora produzida e pintada à mão por artesões chineses), as suas "Forever Bicycles" evidenciam essa força dinâmica centrando-a na fluidez e mutações do presente partindo do meio de transporte que há umas décadas era dominante e cuja relevância permanece indiscutível.

Afinal, as mil bicicletas de "Forever Bicylces" podem estar interligadas mas são antes de mais bicicletas individuais. É por defender esse poder colectivo de vozes individuais dissonantes que Ai Weiwei é conhecido pelo mundo. Em Taiwan a intenção é tão compreendida como em Inglaterra. E enquanto não for no vizinho gigante com quem Taiwan partilha tantas afinidades histórico-culturais teremos Ai Weiwei para não deixar o mundo esquecer. Mesmo que ele não esteja ali, a sua arte fala por ele.

O activista

Ai Weiwei, cujas obras em suportes como a instalação, a escultura, o vídeo ou a fotografia têm marcado presença em várias exposições na Europa e na América, é uma das vozes mais evocadas quando se abordam questões polémicas de direitos humanos na China. Das perseguições a outros activistas e intelectuais a acontecimentos como o colapso das escolas no terramoto de 2008, tem sido um crítico mais ou menos frontal e, durante algum tempo, o seu estatuto internacional parecia protegê-lo de represálias. Essa aparente "imunidade" acabou em Abril desde ano, quando Ai foi detido no aeroporto de Pequim.

Depois de cerca de 80 dias de detenção pelas autoridades na República Popular da China, o que provocou uma onda de protesto que se estendeu à comunidade artística e a meios diplomáticos mundiais, seguiram-se acusações de evasão fiscal e investigações por suspeitas de difusão pornografia (em causa estavam fotografias artísticas do autor nu), que foram recebidas na China com manifestações de solidariedade traduzidas em dinheiro para saldar a multa da primeira, e protestos sem roupa pela segunda.

A situação actual de Ai Weiwei é de permanente insegurança. Num recente testemunho ao diário britânico "The Guardian", o artista confessor viver todos os dias com medo de perder o que mais precioso tem - a liberdade. Por enquanto, as suas críticas continuam a poder ser lidas, seja na sua página no Twitter ou em jornais internacionais. Ai, a quem Allen Ginsberg terá dito um dia que duvidava que alguma galeria expusesse o seu trabalho, é hoje uma celebridade mundial e respeitado como um importante porta-voz de uma certa intelectualidade acossada na China.

Responsáveis pelo museu disseram ao Ípsilon que a exposição tem tido um número de visitas significativo. E pode afirmar-se que não terá havido este ano exposição em Taiwan tão comentada internacionalmente como esta, nem mesmo "Landscape Reunited" que juntou - pela primeira vez em séculos - as duas partes de uma pintura da dinastia Yuan que se encontram em colecções nos dois lados do estreito da Formosa e que também gerou leituras políticas. A grande exposição temporária de Ai Weiwei em Taipé é tanto mais extraordinária quando Taiwan tem procurado nos últimos anos uma reaproximação à China continental.

A realidade é que Taiwan, ou República da China (o seu nome oficial), onde um processo de democratização triunfou no final dos anos 1980, parece ter tanto orgulho na sua herança cultural chinesa (basta pensar no National Palace Museum em Taipé, onde está aquela que é considerada uma das melhores colecções de arte chinesa do mundo) como no seu cariz democrático. Muitos livros e filmes proibidos na China são legalmente vendidos e distribuídos em Taiwan, por exemplo, e o estatuto actual de Ai Weiwei como "persona non grata" para as autoridades da China continental não impediu que um museu de Taiwan lhe desse honras de protagonismo. Em termos de relações entre os dois lados do estreito, Ai Weiwei não poderia ser o embaixador cultural mais improvável.