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Política Cultural

Adufe

14.03.2012 - António Pinto Ribeiro
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Há em Portugal uma revista popular de cultura a dizer-nos que a ruralidade não está condenada a ser uma “rua da estrada” e que neste início do século XXI outras centralidades emergem a partir do campo

Adufe é uma revista popular de cultura. Tudo pode parecer estranho nesta designação: o nome, que é um instrumento de música popular associado a festividades e a ritos do ciclo agrário - estamos pois a falar de um tempo antigo; a revista, que é uma forma de publicação cada vez mais rara, seja por utilizar o suporte do papel, seja porque tem a ambição, comum a todas as revistas, de ter uma actualidade duradoura; o "popular", termo que se refere ele também a um outro tempo, em que as classes sociais eram distintas e definidas pela divisão social dos meios de produção e em que o termo era de eleição quando pronunciado pelos revolucionários ou depreciativo quando tinha origem nos salões da nobreza ou dos proprietários das fábricas e dos campos; e, finalmente, o "de cultura", assim, sem ambiguidades ou receios de ser passadista.

Adufe é isto tudo, uma revista cultural de Idanha-a-Nova, propriedade da Câmara Municipal, de periodicidade semestral, em formato A5 e com tiragem de 15 mil exemplares. Existe desde 2004, mas é herdeira de uma outra revista de etnografia com o o mesmo nome, fundada em Abril de 1984 e patrocinada pelo Governo Civil de Castelo Branco. De onde vem a singularidade desta revista e o que ela representa? Primeiro que tudo, é uma revista cuidada, com uma edição (Luís Pedro Cabral) atenta, que tem o propósito claro de "divulgar e promover os eventos culturais e o enorme património arquitectónico, histórico e etnográfico do município de Idanha-a-Nova, na Beira Interior". Há portanto subjacente uma ideia de cultura que combina a sua dimensão mais antropológica com aquela que deriva da industrialização e dos seus efeitos mais positivos. É uma revista de inclusão e não de exclusão, o que é difícil de realizar porque se está sempre no limite do conflito entre uma ruralidade mítica e um real viver no campo mas ainda com sentido. É assim que as fotos de Rui Vasco, Paulo Muge, Valter Vinagre são sobre aspectos da ruralidade actual, presente, uma ruralidade onde ao mesmo tempo se vêem árvores, terra e cavalos, mas também máquinas modernas e eficazes de regadio, ancinhos com um design actual, casas de turismo rural. O bom gosto e a inventividade que atravessam a revista estão nos desenhos naturalistas dos vários espécimes de borboletas, das ervinhas, das aves tradicionais de capoeira. Depois, a Adufe está cheia de pessoas concretas e não de camponeses idealizados em casinhas portuguesas (que na verdade eram desconfortáveis e pobres), vestidos com camisolas de lã vermelha, magros e gordos, feios e bonitos, lavradores, comerciantes ou políticos da região. E como é de facto uma revista de divulgação regional, tem listas dos alojamentos e das associações culturais e o calendário das festas, das feiras e das exposições; oferece mapas de passeios pedestres, o que é significativo porque se trata de reconhecer uma relação supostamente mais conforme do homem com uma parte da natureza: o caminhar, o andar a pé, numa relação com o tempo e com o espaço que recupera uma ancestralidade (porque não dizê-lo?) arqueológica. Vêem-se ainda e escrevem-se sobre colecções de arte sacra, chouriços, queijos, mármores, plátanos; há fotografias de misericórdias e da poda, tudo no presente. E tudo tem a ver com trabalho, labor e energia.

A Adufe diz que a ruralidade não está toda ela condenada a ser atravessada pelas "ruas das estradas", para usar a excelente designação criada por Álvaro Domingues para falar da fealdade que cresce desmesuradamente nas estradas que atravessam o país (dispensavam-se apenas as siglas dos graus académicos nas assinaturas de alguns textos). A vida no campo (título também da mais recente obra de Álvaro Domingues, que será lançada amanhã no Porto) não tem de implicar optar entre viver no meio dos automóveis e da construção aberrante das habitações na província e a nostalgia do encontro de uma qualquer Margarida Morgadinha dos Canaviais. A vida no campo pode ter sentido, e um sentido positivo, criativo, relacional com a ruralidade no século XXI. Quem pôde acompanhar ao longo de muito tempo neste jornal as "cartas do interior" de Paulo Varela Gomes ter-se-á dado conta de que é possível estar ligado e atento ao mundo e à actualidade no meio do campo e reflectindo sobre a passagem do tempo. Quem viu o documentário Yama No Anata, de Aya Koretzy, a história de uma família japonesa que decide partir de Tóquio para vir viver para uma aldeia da Beira Baixa numa casa reconstruída a partir de ruínas, aí cultivando a terra, reflectindo sobre arquitectura paisagista e fazendo cinema, encontrou formas contemporâneas de viver a ruralidade. Quem pôde assistir à peça Vale, que a coreógrafa Madalena Victorino criou em Santarém e apresentou em várias cidades do interior do país mas também em festivais de dança contemporânea em França, inspirada no confronto dos animais (bois e cavalos) com o homem, percebeu que a arte campestre não findou no século XIX nem no neorealismo, e que há uma vida no campo que pode ser de enorme subtileza e de concórdia. E conhecendo o trabalho da companhia de teatro Comédias do Minho sabemos que pode acontecer bom teatro com reportório pertinente fora das grandes cidades do Minho; que outro tipo de centralidades emergem a partir do campo. E isto também podemos ler na Adufe.