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20.06.2012 - José Marmeleira
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O que é ver música num museu? O Novo Ofício ensaia hipóteses através de obras de músicos como Charlemagne Palestine, Erik Satie, Lou Reed ou William Basinki. Chamemos-lhe música sonhada e escutada nos objetos e no espaço.

De uma fenda na parede sai o organizado de uma slide guitar, voz, percussão. Uma reunião de guitarras e amplificadores cria um quadrado de feedback. Fitas degradadas de cassetes desfolham loops e melodias quase imperceptíveis. É tudo música, que nasce de objectos. Sim, estamos numa exposição, no Museu Berardo, Lisboa, e chama-se O Novo Ofício. Mas o conceito que subjaz ao conjunto de obras selecionadas pela Associação Filho Único (Pedro Gomes e Nelson Gomes) configura dois aspectos que escapam aos clichés das mostras temáticas ou às exposições de sound-art: a presença de música que contempla uma existência física e um entendimento aberto da prática musical.

Pedro Lapa e os dois programadores musicais começaram a colaborar, ainda o primeiro dirigia o Museu Chiado, no contexto de uma série de concertos e performances que assinalavam uma experimentação com outros campos disciplinares, tradição que na arte é secular (da Bauhaus aos concertos de Steve Reich no Museum of Modern Art em Nova Iorque, abundam os exemplos). Entretanto, a relação manteve-se próxima até ao reencontro em O Novo Ofício; reencontro e feliz ocasião.

"O trabalho para esta exposição já tem vários anos", revela Pedro Gomes, "mas sem se materializar num espaço ou contexto específico. Pensámos em várias maneiras de expandir a leitura de uma música que por estar desamparada necessita de uma contextualização e de um entendimento. E começámos a equacionar uma existência expositiva para ela". A iniciativa entroncava-se entretanto numa das linhas da programação anunciada por Lapa para o Museu Berardo: estabelecer sobreposições, cruzamentos entre as práticas artísticas contemporâneas e alguns campos culturais contemporâneos.

"Foi nesse sentido que dirigi um convite à Filho Único", revela Lapa, "mas esta exposição ultrapassou as minhas expectativas. Esperava, talvez por deformação, uma exposição mais dicotómica entre aspectos puramente das artes visuais e das artes musicas. Mas aqui os objectos são ao mesmo tempo musicais e visuais. Ultrapassa-se essa diferença de campos". A lista de músicos (com excepção de dois artistas, são sobretudo músicos) é eclética e desenha um arco histórico que começa no modernismo (Duchamp) e termina na contemporaneidade (William Basinski e a cena de Brooklyn com os Black Dice e os Excepter).

Centrada na música

Pedro Gomes esclarece alguns pressupostos: "Não se trata da interdisciplinaridade como conceito teórico, nem é uma sobreposição de medias acústicos. Mas de uma exposição de música que tem existência objectual, escultórica ou pictórica. Por isso, reúne composições feitas para um objecto também ele inventado para receber essa composição musical. Transcende a noção de site-specific"

Com efeito, a maioria das obras são máquinas de música, instrumentos portáteis, transportáveis. Mas podem ser consideradas esculturas? "Sim, se tivermos em consideração um campo alargado da escultura", responde Lapa. "Sobretudo, estes dispositivos distinguem-se da sound art. Tem existido na última década um interesse por algumas propriedades sonoras da escultura. Mas esse tipo de arte tem uma envolvência fenomenológica característica. Aqui o processo é diferente". Surge centrada na música e não na reflexão do som no objecto. "São obras que partem de um universo que é musical e onde qualidade acústica ganha relevância física", continua o director do museu. "Por isso, a grande maioria dos artistas são músicos".

O Novo Ofício divide-se em duas partes. A primeira inclui, por exemplo, as pautas de Erratum Musical ou Sculpture Musical, de Marcel Duchamp (1913) que para sem tocadas previam a construção de um novo dispositivo, assinalando assim a indivisibilidade da música e do objecto. Ou essa mobília musical inventada por Erik Satie que dá pelo nome de Musique d´aumeublement (1917). "Para chegarem a novos sons, tiveram que os inventar e sonhar", esclarece Gomes. "São provas visionária de pessoas que procuram novas matérias sonoras e novos assuntos musicais a partir de uma realização objectual, que sonharam um som novo e que para isso tiveram que trabalhar sob o ponto de vista da objectualidade".

Tornar visível

A presença de um dos primeiros exemplares do theremin (transversal a várias linguagens musicais) e de um ondes Martenot, instrumento eletrónico celebrizado artisticamente pelo compositor Olivier Messiaen (e utilizado ao longo do século XX e XXI por Léo Ferré, Jacques Brel, Bryan Ferry ou Radiohead) atestam essa capacidade dos músicos em relacionarem num só objecto o musical e visual. Outras peças remetem para uma ideia de performance (Charlemagne Palestine, Yves Klein) e não faltam, igualmente, nomes associados às mais periferias experimentais ou marginais da música popular. "Do Lou Reed vai ser apresentada uma instalação inédita de Metal Machine Music que consiste no processo da própria música", conta Gomes. "Quatros guitarras e quatro amplificadores que geram um quadrado no espaço ou milhões de feedbacks em cadeia". Lou Reed, ainda que por caminhos imprevistos a figura tutelar dos objectos elétricos dos Excepter e dos Black Dice, não é o único guitarrista da exposição. Jandek também integra O Novo Ofício e com uma "slide-guitar", voz e pequenas percussões, faz o som viver dentro de uma parede.

A maior parte das obras (Duchamp, John Cage ou Luigi Russolo) provém de arquivo e bibliotecas e pequenas coleções internacionais. As restantes, as mais contemporâneas, foram produzidas para a exposição. E todas podem ser fruídas de duas maneiras. Cada peça será ativada durante um determinado período de tempo, antes de dar lugar à seguinte. Ou seja: haverá sempre música, não uma cacofonia, sendo que no final de cada sequência a exposição recomeça. Quem preferir uma apreciação menos determinada, dispõe de um mp3 que lhe permite selecionar o que quer ouvir. Finalmente haverá ainda trabalhos que só serão reanimados em performance e para este efeito será divulgado um programa.

Pedro Lapa está otimista e entusiasmado. "Esta exposição pode reivindicar uma nova disciplina. Onde caem estes trabalhos que são vistos como uma franja na história da música e o que mundo das artes visuais pouco considera? Ao trazê-los para aqui, para o espaço da are, a sua configuração visual aumenta. Continuam a ser audíveis, mas passam a ser muito visíveis". Um trabalho como belíssimo Desintegration Loops, de William Basinki parece dar-lhe razão. São as fitas da cassete que se desenrolam e degradam, tecendo melodias em loop, que inventam e fazem música, que oferecem aos ouvidos do espectador a respectiva informação musical. A música é cantada pelos objectos num processo aberto aos olhos.