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João Tabarra. Com Moon Watchers Defeat (citação do plano do osso de 2001), o artista instalava-se num território de reconhecimento prévio de uma cultura (visual): a do cinema moderno

No espaço de Kubrick

27.06.2012 - José Marmeleira
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Na Galeria de Arte Cinemática e no Centro de Memória, em Vila do Conde, obras de vários artistas permitem recordar um momento em que a arte portuguesa descobriu o cinema moderno

O ecrã permanece negro durante vários segundos, apesar das notas musicais que o animam. Mais à frente, um osso voa e suspende-se no ar. E num movimento gracioso, impulsionada pela ausência de gravidade, uma hospedeira espacial faz meio círculo sobre si mesma. São todos planos do mesmo filme de Stanley Kubrick, e podemos encontrá-los nas obras de vários artistas portugueses que compõem 2012 Odisseia Kubrick, exposição inaugurada ontem na Galeria de Arte Cinemática e no Centro de Memória, em Vila do Conde.

É conhecida (ou pelo está documentada) a presença das imagens do cineasta americano em alguma da arte portuguesa dos últimos 15 anos (demos conta disso mesmo nas páginas desta suplemento em 2010 a propósito da exposição de Jane e Louise Wilson no CAM, em Lisboa). Mas o que significa de facto? O que nos diz da relação que as obras sugerem entre o cineasta e os artistas? O que a motivou?

Sondar respostas para estas perguntas implica primeiro descrever um contexto. As obras produzidas por João Onofre, João Tabarra, Alexandre Estrela, Pedro Tudela e Miguel Soares desenham um arco temporal de dez anos que coincide, aproximadamente, com o final dos anos 90 e a primeira metade da década seguinte. "Foi quando o digital se tornou mais acessível através dos computadores", recorda Alexandre Estrela. "Sem grandes meios, tivemos a liberdade da apropriação. No meu caso interessava-me qualidade das imagens e a possibilidade de perante o cinema encontrar já tudo feito, como se fosse um ready-made assistido".

Para João Onofre, que participa com o trabalho mais antigo (Sem título, 1999), a obra de Kubrick marcou a sua terceira e última apropriação de imagens cinematográficas. Antes tinha trabalhado com um plano de Martha (1974), de Rainer Werner Fassbinder e outro de O Eclipse, de Micheangelo Antonioni. "São obras que lidam com a relação entre dois corpos. Neste caso, complexifico um pouco as coisas. Vemos o corpo da hospedeira a rodar sobre si próprio. No filme, ela só fez meio círculo, Aqui faz um círculo completo por meio de um loop. Estava a ler Beckett na altura, mas trata-se de um trabalho onde é evidente o meu encontro com o cinema".



Cultura cinematográfica

O encontro com o cinema, eis um aspecto que repousa sobre os percursos dos artistas. Podemos, por isso, falar de um reconhecimento prévio de uma cultura (visual) comum? "Talvez", responde João Tabarra. "Quando fiz Moon Watchers Defeat [2007], achava que as pessoas iam reconhecer não só plano do osso e a elipse que ele precede, como a referência presente no título. Mas isso nem sempre aconteceu e hoje também não acontece". Alexandre Estrela prefere pôr a tónica noutra questão, para regressar ao encontro com cinema: "Creio que posso dizer que estes e outras artistas tinham uma boa cultura cinematográfica e isso foi importante. A programação da RTP2, os ciclos nas salas do Quarteto e do King foram extremamente formativos. E tive a sorte de frequente excelentes videoclubes quando fui estudar para Nova Iorque".

O interesse pelo cinema pode explicar-se por diversas razões, sendo a mais corriqueira a que assenta numa suposta reacção dos (então jovens) artistas ao academismo dos currículos do ensino ou à própria história da arte. "No meu caso, isso pode ter acontecido", concorda Miguel Soares. "Passava horas no CAM, onde a minha mãe fazia visitas guiadas e provavelmente senti a necessidade de conhecer outros universos artísticos. Mas também devo dizer, entretanto, já desisti de todo e qualquer filme feito por Hollywood".

João Onofre, em conversa telefónica a partir de Londres, rememora o seu trabalho e o confronto com Kubrick. "O 2001 é um momento histórico do cinema, que continua a ser discutido. Limitei-me a utilizá-lo, sabendo das repercussões. O meu trabalho pode ser inútil ao lado do filme, mas as diatribes com os clássicos têm que acontecer. Se não dialogarmos com os clássicos, dialogamos com quem?"

Agregar aspectos comuns a partir de um conjunto diversificado de artistas permitir-nos-á falar de laços ou intra-geracionaisl? Tabarra acha que não. "Compreendo a pergunta, mas para mim no trabalho deste ou de outro artista interessam-se questões intemporais. A condição humana ou questionamento das imagens que vemos no [cinema de] Kubrick atravessam ao logo da história, obras de artistas, escritores, filósofos".


Não imagem

Tabarra, que em 2002 representou Portugal na Bienal de São, apresenta Moon Watchers Defeat (uma citação do plano do osso que o hominídeo lança ao ar), descobre proximidades com o cineasta: "A ideia do monólito, o paradoxo da perfeição, o jogo das impossibilidades. A impossibilidade e a possibilidade da perfeição na produção das imagens. Creio que o meu trabalho também lida com isso".

O rigor formal de Kubrick pode ser intimidatório. "Quando comecei a fazer a apropriação interessavam-se filmes maus ou menos canónicos. Já o Kubrick assustava-me", admite Alexandre Estrela. "Como podia apropriar-me de algo que já era perfeito? Limitei-me a fazer uma citação, apropriando-me de uma não-imagem". A não imagem é o negro que no início e noutros momentos de 2001 ocupa o ecrã. O negro do monólito. "Foi assim que cheguei a Intermission [2002, Museu do Chiado), que interfere, através da presença de um espaço negro, nas outras peças. Essa interferência podia durar uns minutos numa ou noutra peça, como podia deixar a exposição às escuras. Procurei concretizar essa não-imagem no espaço expositivo"

O interesse de Alexandre Estrela pelo modo como o cineasta trabalhava espacial e sonoramente o espaço negro reacende-se em Solar Circle (produzido para a exposição): o ecrã confunde-se com a sombra e percebemos a imagem pela sua ausência. "A eficácia do monólito é que absorve a luz", continua o artista. "Quando [o cineasta] põe o monólito no espaço dá-lhe um lado concreto, mas não sabemos de que material é feito. Neste trabalho, interessa-me o monólito como sombra" (o artista insere entre o ecrã e o projector um ecrã de dimensões mais reduzidas).

Com Miguel Soares (que cita Dr. Estranho Amor), Pedro Tudela é o outro artista que estende a sua relação com Kubrick para lá de 2001: Odisseia no Espaço. "Fiz Masked Wall há 10, 11 anos, depois de ver De Olhos Bem Fechados. Evoca a mascarada, a cena do ritual do filme. Interessou-me a questão da uniformização das máscaras a ideia de uma personagem se perder nessa uniformização". O trabalho é composto para uma máscara branca e um dispositivo sonoro no interior do qual correm fragmentados três matizes: a atmosfera do ritual encenado pelo realizador, o discurso do computador Hall 900 e os sons que acompanham as imagens que o dispositivo acoplado ao rufia Alex de Laranja Mecânica faz disparar. "O som é localizado, como se fosse o de um rádio. Esta peça surgiu de um impulso. Há um certo pessimismo no meu trabalho que pode ligar-se ao cinema do Kubrick. Mas a minha aproximação é dispersa, não é refém de matérias ou referências", considera." O que explica então este interesse pontual e quase desconhecido, pois a peça, de 2000, nunca havia sido mostrada numa exposição individual? "A ocasião foi a ideal para remontar e pensar o trabalho. Embora narrativo, o cinema de Kubrick é feito de blocos que têm um grande autonomia. E uma força muito directa, com um poder concreto. O seu cinema não é uma mera representação, mas uma interpretação. E isso, na minha opinião, aproxima-o da arte".