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Explora metáforas de aprisionamento, social e emocional, e de feminização. As flores selvagens são a inspiração, num processo de degeneração e descontrução

Bianca Casady, flor selvagem

04.07.2012 - Ana Duarte Carmo, em Nova Iorque
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Diego Cortez, lendário curador nova-iorquino, compara o trabalho artístico de Bianca Casady ao da escultora Louise Bourgeois. Intrigante. Fomos à galeria Cheim & Read, em Nova Iorque, onde uma das irmãs CocoRosie expõe Daisy Chain

Bianca Casady é mais conhecida pela sua música do que pela sua arte visual, mas a irmã Coco, da dupla CocoRosie (com Sierra Casady), tem cada vez mais presente este caminho, paralelo à música, de colagens, desenhos e vídeos. Daisy Chain é a primeira grande exposição individual de Bianca em Nova Iorque desde 2007. Explora metáforas de aprisionamento, social e emocional, e de feminização. As flores selvagens são a inspiração, num processo de degeneração e descontrução. "Interessa-me como o mundo está universalmente escravizado e interessa-me explorar uma série de formas de escravidão, até das nossas próprias mentes, sem termos consciência disso", diz-nos Bianca.

Este universo é partilhado com Jesse Hazelip, artista com base em Oakland, Califórnia, com quem Bianca colabora de forma permanente, trocando desenhos pelo correio. A colaboração mais conhecida entre os dois (dupla denominada Twin Rivers) é a capa do álbum das CocoRosie Tearz for Animals, "um projecto de intercâmbio, com desenhos a partir do interior de uma prisão".

Solidão e flores selvagens: "Os nomes vulgares das flores selvagens inspiram-me muito. Começa como poesia, uso muitos dos nomes comuns das flores silvestres - quero dizer, as designações não científicas -, muitas das minhas ideias começam por aí. Acho que no fundo sou só fascinada por ervas e flores selvagens, pela forma como conseguem crescer mesmo em áreas urbanas, como rompem pelo cimento ...". Não usa flores consideradas de classe alta, apenas as que têm nomenclatura vulgar. "Existe um sistema de castas e experimento a minha própria romantização desse sistema, usando imagens e elementos linguísticos antiquados, arcaicos e em decadência.".

Costuma apontar o cinema como inspiração para a sua música, agora fala-nos de um livro com imagens de flores selvagens e de Notre Dame des Fleurs (1943), de Jean Genet, autor que já inspirara o tema Beautiful Boyz (2004) das CocoRosie. Em Notre Dame des Fleurs as personagens, homossexuais, vivem à margem da sociedade parisiense da época. "Este livro inspira-me há anos, e recentemente tem-me atraído mais. Nunca o li do início ao fim, mas estou sempre a usá-lo, por o vocabulário ser perfeito para o meu trabalho: muitas vezes pego numa palavra e escrevo um poema a partir daí, que depois uso como ponto de partida para um desenho."

Diego Cortez, curador e impulsionador desta exposição, compara Bianca à escultora Louise Bourgeois (1911-2010), também representada pela galeria onde Daisy Chain é exposta. "Algumas das ideias de feminismo de Louise parecem reencarnar no trabalho de Bianca, e também a forma como rompe com tabus. As ideias por trás do trabalho de Louise eram bastante radicais e acho que Bianca está na mesma categoria." Ambas foram influenciadas pelo surrealismo, que Casady abraça nas suas justaposições e colagens. Além das influências literárias, quando está em Nova Iorque Bianca diz que gosta de ir a lojas de produtos de beleza encontrar objectos e imagens que possa usar nas colagens, como o pente vermelho de "Rupert (2011).

Bianca começou a trabalhar no conjunto de obras que integram Daisy Chain, inaugurada na galeria Cheim & Read em Nova Iorque, em Abril de 2011, continuando a temática de Grasswidow, apresentada em Milão no mesmo ano, na Galleria Patricia Armocida, e de Holy Ghost integrada na 4ª edição da Bienal de Arte Contemporânea de Moscovo, onde explorou a esquizofrenia. "Em Daisy Chain alguns dos trabalhos dão continuidade a essa ideia, com caras cortadas, lágrimas e cicatrizes. Interessava-me a alienação e a perturbação em que vivem estes marginais e prisioneiros", podemos ler numa conversa entre Bianca e Diego Cortez publicada no catálogo da exposição. Cortez é um dos curadores mais influentes no panorama artístico americano, influência que vai além das artes plásticas - actor, músico, performer, director de arte, e manager de bandas new-wave e punk, foi um dos fundadores do Mudd Club, um clube underground do final dos anos 70 que mudou para sempre a cena nocturna de Nova Iorque. Conheceu Bianca pelas CocoRosie, viu a exposição Lil Girl Slim "Cosmic Willingness" Pipe Dreamz a Revelation and the Death of Mad Vicky Lopez na galeria Deitch Projects, em 2007, e só teve de seguir o instinto. Em 1981, organizou New York, New Wave, exposição única que juntou o trabalho de inúmeros artistas, na antiga escola PS1 em Long Island City/Queens, hoje pertencente ao MoMa, entre os quais David Byrne, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat (de quem foi agente em 1980). Depois de visitar o estúdio de Bianca há um ano, e "tocado pela profundidade do seu trabalho", segiu-a de perto e acabou por propor aos amigos John Cheim e Howard Read, que estão à frente da galeria em Chelsea, a exposição agora inaugurada. "Acredito no trabalho de Bianca, na sua instalação, vídeo e em todo o seu trabalho visual, excelente por si só e independente da sua carreira musical ou da fama que possa ter."

O curador esteve também ligado às exposições de Devendra Banhart em Modena, Miami e Nova Iorque, e estabelece a diferença: no caso do Devendra, a música e a arte estão ligadas que as artes visuais só se tornam interessantes no contexto global do artista. "No caso de Bianca acho que a sua obra plástica se destaca mesmo no contexto da arte, mesmo que ela seja mais conhecida pela música."

"Eu brinco imenso com a feminização de figuras hiper-masculinizadas, como as estrelas do rap, os gangsters, com os seus penteados e lenços, que de alguma forma se relacionam com a servidão feminina e os escravos afro-americanos". É o que vemos na exposição, gangsters, transexuais, como em Prison Faeries 3 (2011), onde Bianca transforma um corpo através de colagens; em The White Gipsy uma burca sobre uma fotografia de um pai torna-o num mendigo feminino. Há ainda uma dimensão erótica: figuras masculinas com os orgãos sexuais substituídos por molhos de flores selvagens. "Mesmo o cliché racista do hiper-sexualizado homem negro, alimentado pelos media, é prejudicado pelas minhas alterações feitas com flores selvagens, que criam uma paisagem mais delicada" - a expressão Daisy Chain, que pode ter uma leitura de engenharia electrónica, designando então um esquema de cabos onde vários dispositivos são ligados em sequência ou em anel, é também usada para se referir a um acto sexual em cadeia.

A exposição divide-se em duas partes: a de colagens, onde são criadas as personagens; e os desenhos a maior escala, onde aquelas são desenvolvidas e onde as técnicas de colagem acabam por se dissipar. Dias antes da inauguração, Bianca dizia-nos que gosta de trabalhar no espaço onde exibe, passar tempo nele, relacionar-se com ele, transformá-lo em algo seu, e foi isso que aconteceu na galeria estabelecida em Chelsea desde o final dos anos 90 onde a exposição está patente até 8 de Setembro. Num vídeo e em muitas das fotografias expostas surge Biño Sauitzvy, bailarino e coreógrafo brasileiro que tem colaborado com Bianca, nomeadamente em Nightshift, peça de teatro-dança apresentada no Kampnagel Arts Centre em Hamburgo. A performance apresentada na inauguração da exposição, uma coreografia de Bianca interpretada por Biño, foi também fruto deste trabalho.

Apesar da obra visual de Bianca poder ser avaliada de forma independente, a dissociação das CocoRosie é impossível, e ela acaba por assumir que está tudo ligado. "A única diferença entre a minha arte e as CocoRosie é não ter a minha irmã como parceira do meu trabalho visual, não há nenhuma diferença em termos da minha contribuição, pois vêm ambos do mesmo sítio."