Leia também
Labyrinth: local, lanes, walks, de Richard Long (1991)
CORTESIA DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN

O infinito é de papel

25.07.2012 - Lucinda Canelas
diminuiraumentar


O livro é como um labirinto que se perpetua e a que podemos sempre voltar. O museu e a biblioteca de arte Gulbenkian propõem-nos uma viagem sem mapas nem indicações. Nesta estrada, como na de Richard Long, está tudo em aberto.

É fácil pensarmos numa biblioteca como um mundo infinito ou como um mundo de infinitos. Um por cada livro. Sem limites à interpretação, sem fronteiras à leitura, sem obstáculos à contemplação e ao pensamento. Cada um é uma nova oportunidade ao virar da página, mesmo quando o devolvemos à estante para experimentarmos mais tarde essa sensação de regresso que é pegar num livro que já lemos. Não é por isso de estranhar que uma exposição sobre o livro e a relação que ele mantém com a arte e nós com ele receba como título Tarefas Infinitas. Quando a arte e o livro se ilimitam.

Paulo Pires do Vale, o comissário, quis fazer desta exposição, que até 21 de Outubro ocupa a sala de temporárias do Museu Gulbenkian, em Lisboa, uma experiência interpelativa. O objectivo, explica, é que Tarefas Infinitas ponha o visitante a interrogar-se à medida que percorre o espaço: o que é entrar num livro? O que é sair? Que linha é esta que o atravessa e que me atravessa? Um livro pode ser uma obra de arte?

Na parede do seu gabinete, até há bem pouco tempo coberta de reproduções de obras saídas de colecções privadas e dos acervos do museu e da biblioteca Gulbenkian, estão agora apenas notas e fotografias de algumas das 100 peças escolhidas para a exposição, sobretudo livros, mas também pintura, filmes, fotografia e instalação. A ideia inicial era trabalhar o universo dos livros de artista, que para uns começaram no século XIX com Stéphane Mallarmé, para outros nos anos 60 com Edward Ruscha e o seu Twenty six gasoline stations. Mas Pires do Vale acabou por fazer algo bem diferente.

"Esta exposição não é de livros e muito menos de livros de artista. É como um ensaio, porque não propõe conclusões, não fecha um debate. Não é um tratado em que tenha procurado pontos finais. Esta é uma exposição cheia de vírgulas e reticências sobre o livro como elemento transformador", explica. "Um livro muda-nos e é por isso que um livro que relemos nunca é o mesmo - nós já não somos os mesmos."

Organizada sem preocupações cronológicas e composta por cinco núcleos, a exposição deixa a cada um a tarefa de desenhar o seu próprio percurso. Comece-se pelo módulo O infinito nas mãos ou pelo que cita Mallarmé, Tudo existe para chegar a um livro, faz sempre sentido. Nela o livro é apresentado como mediador "entre o escritor e o leitor, entre o artista e o leitor, entre o leitor e os mundos que ele é capaz de criar". Nas vitrinas, ao lado de livros de horas do século XV, carregados de iluminuras, com minuciosos agricultores a trabalhar e nobres num jogo muito parecido com críquete, é possível encontrar um título de Mallarmé - o francês paira sobre a exposição na companhia de outros autores como Maurice Blanchot - reeditado nos anos 80, e o balanço do mar que Roni Horn fotografou uma e outra vez em Dictionary of water (2001).

A mistura de tempos faz ainda com que as linhas estranhamente modernas de Manuel Andrade de Figueiredo num manual do século XVII para ensinar a ler e a escrever convivam lado a lado com o minimalismo de Sol LeWitt.

Paulo Pires do Vale não quis organizar o pensamento dos que entram na galeria, quis que sentissem uma certa desorientação, que se torna evidente, por exemplo, em The blind pavilion. 50th Venice biennial, 2003, catálogo de Olafur Elliasson. "Mesmo que pudessem pegar-lhe, a maioria das pessoas não saberia por onde começar. Este livro não tem uma capa clássica, foi feito para baralhar."

A noite dos tempos

A exposição termina como começa - com uma obra de Robert Fludd que evoca de imediato aos olhos do visitante, mais habituado às vanguardas na pintura do início do século XX do que aos tratados de física e astronomia do século XVII, o revolucionário Quadrado negro sobre fundo branco (1915), do russo Kazimir Malevich.

"Fludd era um cientista e um místico, coisa que no século XVII era comum", diz o comissário, explicando que escolheu esta obra para abrir e fechar a exposição precisamente porque ela aponta para a noite dos tempos, para escuridão inicial do universo, para um macrocosmos em que tudo é possível, em que tudo é ainda expectativa. "Esta imagem aponta para a experiência de abrir um livro e encontrar o infinito. Ao mesmo tempo, tira o tapete a quem vê, porque põe em causa, assim espero, a ideia e a definição que tem do próprio livro."

Uns em fole, como os velhos metros, outros às tiras; uns com balões, outros bordados. O livro é conhecimento e jogo, é morte, cinzas, queda (aqui destaque para Bas Jan Ader, o holandês que desapareceu num barquinho quando fazia a travessia dos EUA para a Europa). Esta diversidade de temas e abordagens é também um reflexo dos artistas portugueses expostos: Helena Almeida num livro que é uma escultura, Fernando Calhau e a linha contínua, Lourdes Castro e os seus bordados, num jogo de verso e reverso, Vieira da Silva e os esquimós Kô e Kô, guaches de traços simples numa história para crianças (1933), os Mapas da imaginação e da memória (1973), de Ana Hatherly.

"Mistura-se a ideia de livro como instrumento espiritual, argumento de Mallarmé, com a sua dimensão mais tangível, quotidiana." E aí temos, por exemplo, os diários de Daniel Blaufuks, que enganam o olhar ao parecerem peças únicas, e Lisboa: Cidade triste e alegre (1959), de Costa Martins e Victor Palla, instante irrepetível do livro e da fotografia em Portugal, que faz um retrato da capital e que mostra que o livro também pode contar a vida.

Escolher o espólio exposto não foi tarefa fácil. A colecção Gulbenkian guarda "jóias incríveis", assim como os acervos particulares a que o comissário recorreu. Das descobertas feitas, Pires do Vale destaca duas: The works of Geoffrey Chaucer (1896) e Description succinte de la colonne historiée de Constantinople (1702). O primeiro é de William Morris, artista inglês do século XIX da esfera dos pré-rafaelitas, o segundo mostra magníficas gravuras, uma delas com uma fenda surpreendente. "O leitor nunca atinge o absoluto do livro, porque ele guarda sempre um vazio, deixa sempre algo por fazer, como uma fenda aberta por onde podemos voltar a entrar ou a sair."

Como um ensaio

Saído da sala do museu, o visitante encontra uma extensão de Tarefas Infinitas na biblioteca, onde experimenta outra proximidade, porque, admite o comissário, fazer uma exposição sobre a relação com os livros em que nunca fosse possível mexer-lhes seria um contra-senso (essa extensão alarga-se também às páginas do PÚBLICO onde, ao domingo, até Setembro, serão publicadas obras dos artistas portugueses representados). "A experiência do livro passa pelo toque. Há nela uma certa sensualidade." Como se o tacto fosse um dos imperativos da leitura e, sem ele, estivéssemos sempre no domínio do incompleto, do mais do que imperfeito.

Sensualidade é aqui palavra-chave. Assim como liberdade. No texto que escreveu para o catálogo que assume, como não poderia deixar de ser numa exposição sobre arte e livros, um papel ainda mais importante do que o habitual, Pires do Vale explica por que razão concebeu Tarefas Infinitas como um ensaio, uma carta de amor. Ao ípsilon, detalha: "Há um ensaio de [Friedrich] Hölderlin que diz que a poesia é um equilíbrio entre o cálculo e as asas. Gosto dessa ideia aplicada também ao ensaio e que evoca razão e liberdade. Como o poema incendeia e o romance transforma, o ensaio liberta e atrai. João Barrento fala disso quando escreve que ‘o ensaio pode ser também um namoro, um modo de sedução, uma técnica de engate em relação ao objecto'." Ficamos com esta ideia e a imagem da estrada deserta de Richard Long, num livro que esconde, como todos os outros, um labirinto em cada dobra.