Lars von Trier provocador ontem em Cannes
Festival de Cinema de Cannes

As brincadeiras perigosas de Lars von Trier

19.05.2011 - Vasco Câmara com Sérgio Costa Andrade
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Realizador declarou-se "nazi", disse compreender Hitler e depois pediu desculpa. Foi na conferência de imprensa de "Melancholia", a versão (modesta) de Lars de um filme-catástrofe

Foram apenas dois minutos de declarações, mas transtornaram esta quinta-feira em Cannes e ganharam uma reverberação que incomodou toda a gente. Na conferência de imprensa de apresentação de "Melancholia" (competição), o dinamarquês Lars von Trier declarou-se "nazi", disse "compreender" e ter "simpatia" por Hitler e ainda nutrir "grande admiração" por Albert Speer, o arquitecto do III Reich. Acabaria por vir a emitir, durante a tarde, um comunicado a pedir desculpa, mas fê-lo só quando se apercebeu das implicações da sua performance; e também, certamente, porque a tal foi intimado pela direcção de Cannes.

"Eu compreendo Hitler. Sei que fez coisas más, sem dúvida, mas posso imaginá-lo sentado no seu bunker, na parte final", dissera na conferência de imprensa, num displicente tom de brincadeira, ladeado pelas actrizes e protagonistas do filme, Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg.

Após a tentativa do moderador da sessão para desviar o sentido dessas palavras, Von Trier ainda acrescentou: "É claro que não defendo a II Guerra Mundial, nem sou contra os judeus. Defendo-os, mas não em demasia, porque Israel é verdadeiramente irritante." Da plateia de jornalistas tinham-no questionado sobre a escolha de Wagner para banda sonora de "Melancholia", e também sobre a sua simpatia pela estética nazi. Lars falou sobre a questão das suas origens alemãs, descobertas em 1989, após a morte da mãe. "Durante muito tempo, eu pensei que era judeu, e sentia-me feliz com isso; depois percebi que era nazi, que provinha duma família alemã, o que não deixou de me agradar", comentou.

Acabou por pedir desculpa, num comunicado distribuído a meio da tarde pela direcção do festival, e assim citado pela AFP: "Se ofendi alguém com as minhas declarações desta manhã, peço sinceras desculpas. Não sou nem anti-semita, nem racista, nem nazi." Em simultâneo, também em comunicado, a direcção do festival registou o seu pedido de desculpas e reafirmou que não admitirá ver o festival ser palco deste género de declarações.

"Melancholia" é a versão de "filme-catástrofe" do dinamarquês, um filme "bonito sobre o fim do mundo", como escreve no dossier de imprensa. Aí lança, à laia de pergunta: "Estou confuso e sinto-me culpado. O que é que fiz?", pergunta no director's statement, referindo-se ao seu interesse pelo romantismo, por Wagner e por Visconti que o filme exibe. É o final de um texto em que faz a sua parte de exposição pública, como lhe é habitual. Recordamos a conferência de imprensa de Cannes de 2009, ano de "Anticristo", em que falou da sua "depressão", que ainda diz ser o seu estado actual, e onde se comportou, quando lhe perguntaram as razões da violência do filme e de uma suposta misoginia, como quem cometera uma patifaria.

Será "fora com Trier"?

Em Melancholia a Terra esta à beira de uma catástrofe, o choque com outro planeta, e sob esta influência decorrem os dias de duas irmãs, Charlotte Gainsbourg e Kirsten Dunst. A primeira hora é toda dedicada ao casamento de Dunst, e sente-se que Lars quer que reparem na proeza (parece um remake da sequência do casamento de Festen, do colega de Dogma 95 Thomas Vinterberg). Na segunda parte, o mundo abeira-se do fim, Dunst está já sem marido, e nem a irmã que a protegia lhe vale, porque está assustada com a iminência da catástrofe. O filme nunca justifica esta divisão, que parece apenas uma afectação, como aquelas pessoas que no dia do casamento alugam uma enorme limousine branca. É numa dessas, aliás, que a noiva chega ao casamento, atrasada, porque a limousine é tão grande que não cabe nos caminhos que levam à boda. Será que nessa cena é Lars a querer falar, confissão involuntária ou "acto falhado", do seu desejo de exibição perante o qual o filme é impotente? É apenas um ensopado de ambição wagneriana, tal como a publicidade nas páginas da Vogue ou da Vanity Fair poderia recriar.

"Agora será "fora com Trier"?", pergunta Lars, no final do seu teatrinho de exposição, crime e castigo que é a sua nota de intenções.


Comentários
comentario 1 a 3 de um total de 3
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comentario21.05.2011 - 10:01 - Anónimo, Lisboa
Cannes tornou-se um festival de engravatados cinzentões sem um pingo de sentido de humor que são incapazes de aceitar que os artistas "emalucados" que convidam possam expressar-se livremente com ou sem ironia. O Trier fez um dos meus filmes favoritos "Europa". Mas ultimamente ando a perder a paciência para os filmes dele. O último "Anticristo" não achei mesmo muita piada, não pela violência etc, mas porque tudo aquilo era oco, um "paraíso" onde tudo era bonito e fantasmagórico em termos de imagem e fotografia mas vazio (um Tarkovsky oco), mas não senti nada pelas personagens nem pelo conteúdo. Na volta era mesmo isso que ele queria.
comentario21.05.2011 - 09:29 - p, porto
O homem está a falar da vida dele. Não prejudicou ninguém, nem cometeu qualquer acto. Não vão em interpretações jornalísticas como "displicente tom de brincadeira" ou como "israel irritante" e vejam no youtube o que ele disse. Onde está o Festival de Liberdade de Expressão?
comentario20.05.2011 - 14:02 - Ana, VNF
Veja-se o Manderlay e já se vê se ele estava a brincar ou a falar a sério...
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