João Salaviza

"Eu sabia que queria fazer filmes. Agora sei que há outros que querem que eu faça filmes"

24.05.2009 - Vasco Câmara
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João Salaviza chegou, viu e venceu. Mas está a "relativizar" a Palma de Ouro para a curta "Arena".

No topo do mundo, sim, "mas a relativizar", dizia-nos João Salaviza minutos depois de ter recebido a Palma de Ouro da curta-metragem, e de ter ouvido do cineasta John Boorman, presidente do júri das curtas, que "Arena" anuncia a "emergência de um talento cinematográfico". Deve ser difícil relativizar ouvindo isso. Mas foi o que fez desde que aterrou de pára-quedas, como descreveu, na Croisette. Relativizou o "glamour", pôs-se à procura de filmes, assistiu à "master class" dos irmãos Dardenne, de quem é fã. E, "sem falsas modéstias", considerava que "Arena" nem era coisa para a Palma de Ouro.

Chegou a Cannes, com 25 anos e duas curtas como obra (embora o anterior "Duas Pessoas" para ele não faça figura de curta inaugural), viu filmes e venceu. E ontem falou ao mundo, do Palais des Festivals. "Mas a relativizar", porque de cada vez que vê "Arena" diz que só vê o que não está no filme. Aliás, sábado, dia em que as curtas em competição tiveram as suas sessões para a imprensa, confessava que já estava no processo de despedida de "Arena". Já o tinha visto tantas vezes, já não sabia se gostava se não gostava... Cannes gostou, como antes o IndieLisboa que também lhe deu um prémio, destes 15 minutos sobre o quotidiano de um jovem em prisão domiciliária num bairro social de Lisboa. Entre o documento da realidade e o espectáculo da sensualidade dos corpos e do espaço, eis "Arena".

E eis João Salaviza: está ainda a acabar uma cadeira, no Conservatório de Lisboa, de Psicologia e Cinema. O curso estava incompleto, questões de equivalências, por causa de um protocolo que o fez, em 2006, continuar os estudos na escola de cinema de Buenos Aires, Argentina, uma "decisão de vida" que o pôs em contacto com o novo cinema argentino - gente como Pablo Trapero, Lucrecia Martel ou Lisandro Allonso - e como o entusiasmo dos argentinos pela sua cinematografia. Coisa que, já reparou, não acontece em Portugal ("Os filmes portugueses estão condenados a serem descobertas dos festivais internacionais. Provavelmente é o que me vai acontecer também", dizia-nos sábado).

"Eu sabia que queria fazer filmes. Agora sei que há outros que querem que eu faça filmes". Isso não se deve relativizar.


Comentários
comentario 1 a 10 de um total de 11
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comentario05.06.2009 - 22:34 - filipe, porto
Antes de mais gostaria de dar os parabéns ao João Salaviza. Parabéns sinceros por abrir caminho. Vou no entanto esquecer Cannes, as entrevistas à tv, o orgulho nacional... vou esquecer tudo isso. Apenas quero falar sobre o filme, que vi e revi com muita atenção. Não sou crítico, não sou um intelectual do cinema... sou apenas um espectador interessado e um apaixonado pelas imagens, pelas histórias que elas nos contam. Por isso vou falar só e apenas nessa condição. Vi "Arena" e decepcionei-me. Lamento dizê.lo. Vi um exercício académico excessivamente formal, onde as imagens roubaram toda a surpresa que poderiam revelar. Vi planos "certinhos", enquadramentos milimetricamente desenhados, uma fotografia desadequada, um cenário que não é o de um bairro.... vi imagens limpas num bairro sujo e uma personagem que tatua, mas que não tem tatuagens e até uma sala de uma casa onde me habituei a ver a classe média e não uma família de rendimento minímo. Vi um filme que quer contar uma história, mas que infelizmente não consegue, por se deslumbrar em demasia pela técnica e pelo brilho que um corpo nu consegue demonstrar. É um bom exercício académico. Nada mais do que isso.
comentario26.05.2009 - 09:18 - Matos, Lisboa
O João Salaviza mostrou a todos, que na arte do cinema, até o mais improvável se pode tornar realidade. Parabéns João, pois já és um dos imortais no cinema lusitano !
comentario26.05.2009 - 00:02 - Nuno Damas, Santo Tirso
Acho irreal utilizar-se uma boa noticia para se "enxovalhar" quem já é reconhecido! Parece-me que ninguém questiona que para além do Manoel de Oliveira e Joaquim de Almeida poucos são os nomes que o nosso cinema português tem como conhecidos internacionalmente! Independentemente de se gostar ou não... Parabéns a um rapaz de 25 anos que consegue vencer um prémio no que para mim é o melhor festival de cinema do Mundo espero todavia que consiga manter na indústria com integridade não se deslumbrando com títulos! Chega do bota-abaixo ou então emigrem!!!
comentario25.05.2009 - 21:02 - António Moreira, Sintra
O "arrebenta" da cauda da europa, para além de ter cauda tem também orelhas grandes: ou seja, é burro. E gosta de o assumir. Então o Manuel de Oliveira é um horror?! E você é um asno... Ninguem o obriga a gostar, mas a boa educação, o respeito pelo trabalho dos outros (e sobretudo de quem trabalha tanto como ele, como uma idade em que a grandessissima maioria já nem consegue saber o nome) obriga-o a não dizer alarvices despeitadas como essas. Com grande pena sua e de todos os portuguesinhos patetas que têm vergonha de ser portugueses e que vêm sempre génios e genialidade em tudo o que é estrangeiro (ah grandes espanhóis, que têm sempre orgulho do que é vosso!)e horrores em tudo o que é português, o Sr. Manuel de Oliveira é uma referência mundial do cinema, admirado em todo o lado, menos em Portugal, mete centenas de milhar de pessoas a ver os seus filmes em França ou Itália, é discutido nas escolas de cinema de todo o mundo, EUA incluidos, e já está na História do cinema mundial. E você vai ficar na estória porquê? Fez o quê de interessante na vida? É tão triste ser um Zé Ninguém quando os outros são admirados, não é?...
comentario25.05.2009 - 15:59 - João Antunes, Lisboa
RECONHECIMENTO INTERNACIONAL É BOM. AGORA É PRECISO QUE OS FILMES CHEGUEM ÀS SALAS E AS PESSOAS GOSTEM E NÃO SE FIQUE POR UMA PRETENSA CASTA DE ILUMINADOS QUE NÃO PASSAM DE UM BANDO DE IGNORANTES PRETENCIOSOS. FORÇA SALAVIZA, FAÇA FILMES QUE DIVIRTAM OS QUE OS VÊEM, QUE FAÇA CHORAR E MEDITAR OS QUE OS VÊEM,QUE SENSIBILIZEM OS MAIS DESTITUÍDOS DE ALMA E NÃO SE DEIXE ENREDAR PELOS QUE SE AUTOPROCLAMAM DE CULTOS SEM O SEREM.
comentario25.05.2009 - 14:14 - aospapeis.blogspot.com, Lisboa
A expressão cinema português hollywoodesco pretende marcar negativamente todos os que se afastam do "cinema de autor" - como se fosse possível colocar num mesmo saco um "O milagre segundo Salomé" e o "Crime do padre Amaro". Não é, mas os "autores" gostam de pensar que são uma casta à parte que luta desesperadamente contra a comercialização do cinema, apoiados em personagens elitistas como o que dizia que o cinema não servia para as pessoas se divertirem... Lembram-se dele?
comentario25.05.2009 - 14:13 - aospapeis.blogspot.com, Lisboa
A expressão cinema português hollywoodesco pretende marcar negativamente todos os que se afastam do "cinema de autor" - como se fosse possível colocar num mesmo saco um "O milagre segundo Salomé" e o "Crime do padre Amaro". Não é, mas os "autores" gostam de pensar que são uma casta à parte que luta desesperadamente contra a comercialização do cinema, apoiados em personagens elitistas como o que dizia que o cinema não servia para as pessoas se divertirem... Lembram-se dele? A verdade é que o dito cinema de autor não passa, na maior parte das vezes, de uma reciclagem até à náusea dos mesmos assuntos-fetiche: homossexualidade, criminalidade, prostituição, pobreza. Têm dúvidas? Façam uma lista dos filmes "premiados", dos filmes "aconselhados" e confiram. Quando aqui vi a palavra homoerotismo (apoiada pela imagem cuisadosamente seleccionada), já nem precisei de dar o benefício da dúvida ao filme pois já se percebe que - mesmo que seja fluido e bem feito -, está marcado com três dos fetiches acima indicados. Andam à volta, à volta e, quando têm uma ideia, fazem o mesmo que os outros...
comentario25.05.2009 - 12:04 - Margarida, Lisbpa
Uma primeira grande vitória que dá certamente uma responsabilidade acrescida. Porque há agora mais possibilidades de seres a "carne fresca" tão desejada pelo mundo das artes e consumida bem rápido, coragem para continuar. Por agora, é festejar e brandir os louros, ou melhor, a palma.
comentario25.05.2009 - 10:49 - Arrebenta, Lisboa, Cauda da Europa
Até que enfim uma alternativa ao permanente horror de Manoel de Oliveira. Homoerotismo!?... Pois muito bem, é um filme sobre a nossa natureza profunda. Parabéns :-)
comentario25.05.2009 - 00:56 - Luísa Alpalhão, Londres, Inglaterra
É em momentos como este que nos apercebemos de como as distâncias, assim como os anos, são apenas um pretexto para reactivar a memória. Muitos parabéns! Passado tanto tempo, fico muito satisfeita e entusiasmada por saber que, apesar do que nos tentam fazer crer, é possível ver o mundo de uma forma menos pre-concebida. Espero que este seja um primeiro passo para diversificar a colectânea cinematográfica nacional!Luísa
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