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Gaspar Noé
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Gaspar Noé

S.O.S. meteoro

21.03.2012
Por: Jorge Mourinha
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E se Gaspar Noé, o realizador de "Irreversível" fizer um filme de duas horas e meia sobre o que um morto vê depois de morrer, isso é... "Enter the Void". O filme que um cineasta ateu gostava de ter visto aos 25 anos

Todos os anos", diz Gaspar Noé, "há dois ou três meteoros," filmes "audaciosos" que parecem ovnis ao lado da corrente normal do cinema contemporâneo. "Mulholland Drive [David Lynch, 2001] é um deles, há outro de que gosto muito ao nível estrutural, 21 Gramas [Alejandro González Iñárritu, 2003], ou Palindromes, de Todd Solondz [2004], onde a mesma personagem é representada por um actor diferente consoante a cena. É uma ideia de que teria gostado de me lembrar."

Gaspar Noé não vai ao ponto de considerar a sua terceira longa, Enter the Void - Viagem Alucinante, como um desses meteoros - embora admita: "sim, é um filme muito audacioso", Mas a verdade é que sim, este é um meteoro. Ou não se tratasse da história da deambulação por Tóquio do espírito de um dealer de droga que acabou de ser morto a tiro numa casa de banho, que observamos em câmara subjectiva, pelos olhos do próprio falecido, durante duas horas e meia.

E se o leitor perguntar: quem é o tipo passado da cabeça que faz um filme estroboscópico de duas horas e meia sobre o que um morto vê depois de morrer?... a resposta é "irreversível".

Ou, por outras palavras: Gaspar Noé é o autor de Irreversível (2002), o filme-escândalo contado de trás para a frente, que começava com Vincent Cassel a esmagar a cabeça de um certo Ténia com um extintor, passava pela violação em tempo real de Monica Bellucci num túnel de metro, e acabava na mais pacífica felicidade conjugal. Antes disso, houvera Seul contre Tous (1998), a história de um talhante que decide vingar-se da sociedade que o relegou para as margens, contada através de um polémico monólogo interior.

Alguém falou em audácia?

Montanha russa

Enter the Void é um meteoro. E ao contrário da maior parte dos meteoros que só caem uma vez, este parece passar a vida a entrar e sair de órbita: estreado em 2009 em Cannes numa versão inacabada, finalmente completado a contento do seu autor em 2010, é um filme com o qual Noé vive há mais de cinco anos. "Entre o momento em que o comecei a preparar a sério e o momento em que o terminei a sério passaram-se quase quatro anos. Depois começou a estrear, passei cerca de um ano a fazer a promoção..." Promoção que ainda não acabou, porque esta semana este filme "atípico, que os distribuidores não sabem bem como vender" chega a Portugal e à Argentina (país de onde o realizador é natural).

"Atípico" é coisa que Noé faz questão de ser. Reconhece que há qualquer coisa de "parque de diversões" nos filmes que faz - sobre Enter the Void, diz-nos, durante a sua passagem "meteórica" pela capital: "A ideia é que o filme seja uma montanha russa: sentamo-nos no carrinho e somos levados pela experiência. É verdade que a câmara subjectiva ajuda a esse lado, se fosse visto do exterior pareceria bastante mais normal, seria uma experiência mais convencional."

Mas que não se confunda isso com uma vontade de épater le bourgeois: por muito que cite gente como Kenneth Anger, não quer ser experimental a qualquer custo. "É verdade que o meu filme ideal seria ainda mais experimental, com menos diálogos... Mas a certa altura, quando já tinha um guião mais definitivo, tentei desordenar todas as cenas em flashback, para ter uma visão mais caótica do passado. E não consegui. O filme tornava-se demasiado complicado, e compreendi que se o fizesse desse modo corria o risco de nunca o fazer. "

E que filme queria ele fazer? "Antes de pensar no espectador, pensamos em nós mesmos. Perguntamo-nos qual é o filme que temos vontade de ver. E este é o filme que eu tinha vontade de ver quando tinha 25 anos."

Ah, coração ateu

Foi aos 25 anos que a ideia de Enter the Void começou a macerar, lendariamente depois de Noé ter visto (ao que consta sob a influência de drogas alucinogénicas) um "meteoro" produzido na Hollywood dos anos 1940, A Dama do Lago (1946), adaptação de um romance de Raymond Chandler pelo actor Robert Montgomery filmada em câmara subjectiva, pelo ponto de vista da personagem principal. Se essa pode ter sido a inspiração - e reencontramos a "câmara subjectiva" durante toda a duração de Enter the Void - os filmes que Noé invoca como influência directa são outros. Fala de Stanley Kubrick e do lado de trip sideral de 2001, Odisseia no Espaço (1968); "pensei em Mulholland Drive, Videodrome - Experiência Alucinante, de Cronenberg [1983], e num outro filme, Viagens Alucinantes, de Ken Russell [1980]..."

À imagem de todos esses filmes, Enter the Void tem qualquer coisa de onírico, e a sua narrativa inclui o Livro Tibetano dos Mortos e a sua concepção da reencarnação. Mas se essas referências, nas palavras de Noé, "funcionam como coluna vertebral do filme", será boa ideia não as ver como "chave" para o que se passa. "Quem ache que o filme é uma adaptação à letra do Livro Tibetano dos Mortos, se olhar bem, percebe que não é nada disso - mas não queria que isso fosse demasiado claro. Cresci no ateísmo total e tenho muito orgulho em ser ateu." E, por isso, "o filme pode ser visto como a história de um sonho."

A esse respeito, conta-nos Noé, "houve uma coisa que muitas pessoas disseram": "O facto de terem sonhado com Enter the Void depois de o terem visto. Isso dá-me prazer, porque me faz pensar que os meus filmes se aproximam mais de uma linguagem do inconsciente do que a maioria dos filmes. Quando sonhamos, aproximamo-nos mais de uma linguagem universal..."

Tira e mete bobina

Se há coisa que Enter the Void não é, é um filme "universal". O cinema de Noé é tudo menos unânime, ou se ama ou se odeia. O que o homem quer, mesmo, é mexer com o seu espectador, de um modo que seja tão imediato e vivo como a vida real. "Ver dois tipos à porrada num café é impressionante, mas vê-los no cinema não faz efeito nenhum porque sabemos que é falso. As pessoas, quando vão ao cinema, sabem que tudo o que estão a ver é falso, e por isso perguntamo-nos como vamos conseguir fazer com que ultrapassem essa desconfiança e invistam mais da sua própria emoção." Pega no exemplo de Irreversível para explicar melhor. "Não se trata de estar fascinado pela violência, mas antes de perguntar como posso transmitir alguma dessa violência da vida real ao espectador. É mexer com o espectador que me interessa mais."

Então e se o filme deixar as pessoas indiferentes? "Ah, não, não - antes disso, a primeira derrota é não ser capaz de fazer o filme que sonhámos. O cinema é uma indústria, com muito dinheiro e muitos parceiros envolvidos. E acontece muitas vezes que um realizador se lança ao trabalho convencido de que vai conseguir o filme que sonhou, e pelo caminho acaba por se desentender com os produtores ou com os distribuidores ou com os actores, e o objecto final não se parece nada, ou apenas em parte, com o filme que se pensou. E aí a recepção pública deixa de ter importância. Ficamos feridos por termos falhado a aposta".

É nesta altura que surge a questão de Enter the Void ter duas versões: uma versão "longa" de 154 minutos, e uma "curta" de 137 minutos, a que estreia em Portugal. Quererá isto dizer que foi preciso ao cineasta "audacioso" "acomodar-se" à indústria? "Ah, não, não, de todo. O produtor pediu-me para preparar uma versão curta no caso de o filme ultrapassar as duas horas e meia, e de facto chegámos ao fim com duas horas e 34..."

Mas essa diferença de 17 minutos, contudo, resume-se a... "Uma bobina." Leram bem, a diferença entre as duas versões é uma bobina que pode ser metida ou tirada ao bel-prazer do distribuidor. "A versão curta tem 17 minutos a menos, que correspondem a uma bobina sem a qual o filme funciona perfeitamente. Não queria cortar o filme, mas se não tivesse encontrado esta astúcia provavelmente não teria conseguido chegar a uma versão curta. O filme custou muito caro e eu devia aos produtores que investiram dinheiro uma versão alternativa, para que pudesse ser mais rentável. Foi a melhor ideia que tive, conseguir montar um filme ao qual se tira uma bobina sem o afectar... "

Não é para qualquer um. Alguém disse "audacioso"?