The Spirit

  • The Spirit
  • De: Frank Miller
  • Com: Gabriel Macht, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Eva Mendes
  • Género: Drama, Acção
  • Classificacao: M/12

Crítica Ípsilon por:

Luís Miguel Oliveira

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Miller trata de forma estereotipada figuras maiores do universo dos super-heróis

Havia no Spirit original (a BD de Will Eisner) um grau de loucura "surrealizante", expressa figurativa e narrativamente, que por si só estabelecia a identidade da série. Frank Miller não a aparou de todo (os clones palermas, a performance nazi de Samuel L. Jackson e Scarlett Johansson) mas deixou-a desvanecer-se. O seu Spirit é outro, mais convencional, mais indistinto, mais canonicamente "super-herói". O pior é que o filme também. Em todos os aspectos, incluindo a pobreza estereotipada com que Miller trata essas figuras maiores do universo dos super-heróis, a noite e a cidade: a modernidade tecnológica digital (aliança entre a "art direction" e os "special effects) em combate contra o arcaísmo de tinta da china da BD, e mais uma vez a BD ganha sem precisar de mexer um dedo (questão de natureza, mas também da diferença entre um estilo e uma atmosfera e as suas cópia e reprodução).


Da história do "filme de super-heróis", primeiro género americano do século XXI, é indissociável um trauma "fundador": nem um dos super-heróis apareceu em Manhattan a 11 de Setembro de 2001. Um trauma que já reverberou em vários filmes, mesmo que fraquinhos (no "Superman" de Bryan Singer havia uma cena que praticamente explicitava esta espécie de preocupação catártica). Mas na sua ligeireza totalmente desprovida de angústia, é impossível o vislumbre de qualquer sentido de necessidade em "The Spirit". Apenas, talvez, a necessidade de continuar a desbastar o catálogo. Aí, OK, missão cumprida: o "Spirit" está feito.

Trailer

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Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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O mestre da BD Frank Miller disse que aceitou ser ele a escrever e dirigir a adaptação cinematográfica da personagem criada pelo seu mentor, Will Eisner, porque não se perdoaria se fosse outra pessoa a fazê-lo e desse cabo do filme. A questão, agora, é saber se Miller se perdoa a si próprio por ter dado cabo do filme - porque "The Spirit" é um desastre tanto maior quanto tudo neste filme malfadado transpira o carinho e a paixão do homem que reinventou Batman na década de 1980 pela criação atípica e adulta de Eisner.


Mas na tentativa de respeitar as "amplitudes térmicas" da BD original, que ia do policial negro ao burlesco descartável (mas não forçosamente na mesma história), Miller esqueceu-se de oferecer ao espectador algo a que se agarrar para lá do deslumbrantemente hiper-estilizado chiaroscuro digital, na linha da adaptação por Robert Rodriguez das suas histórias da "Cidade do Pecado" (actores e adereços reais incrustados em cenários digitais, com a imagem retrabalhada em pós-produção). A sensação é de estarmos a ver três histórias diferentes em três tons diferentes, compactadas às três pancadas num filme que parece nunca saber como as ligar a contento e acaba por se perder numa demonstração de virtuosismo visual cuja ausência de sustentação narrativa chega a ser confrangedora, e onde nem as prestações gloriosamente maníacas de Samuel L. Jackson e Scarlett Johansson em vilões de opereta se salvam.


Crítica Comunidade:

Crítica por: Carlos Natálio/c7nema.net de Lisboa

O facto mais relevante sobre a adaptação do comic de Will Eisner, “The Spirit”, é que coincidiu e foi totalmente ofuscada pela estreia de “Watchmen”, de Zack Snyder. Ou seja, o que salta à vista é o estrondoso fracasso que o filme de Frank Miller tem representado, quer entre a comunidade cinéfila, quer mesmo entre admiradores do herói. E longe de contrariarmos tal corrente, percebe-se facilmente o ódio. Enquanto Snyder é um ilustrador competente que submeteu a sua obra ao espírito e atmosfera da novela de Moore, Miller é um recente fã das “avarias” do cinema, “avarias” essas que experimentou com algum sucesso em “Sin City”. Ora, é esse olhar admirador, pelo cinema em si, e não pelo universo de Eisner, que acaba por subjugar qualquer arremedo de história e suas personagens. Miller transporta “outra vez” tudo para a sua “Sin City”, só que aqui, no entanto, nada encaixa. Desta feita, as cores originais que acompanham o calvário de Denny Colt, um homem condenado à imortalidade, dão lugar ao monocromatismo de Central City. A representação real é mais uma vez entrecortada com inúmeros detalhes de CGI (Computer-Generated Imagery). Mas se Miller trabalhava o estilo de “Sin City” conjuntamente com os pontos fortes da sua história (e ele conhecia-os como ninguém), em “The Spirit” assistimos a um exercício de estilo sobre o vazio. Porque as personagens são caricaturas cujos dilemas são pouco explorados e/ou mal resolvidos. Um exemplo: o filme abre e fecha com a caracterização de um dos problemas de “The Spirit”; a sua condição de limbo existencial traz-lhe uma relação conflituosa de amor/ódio, de instinto de sobrevivência e vigilância sobre a sua cidade. No entanto, pouco ou nada desta relação fica à vista. Como em “The Dark Knight”, o universo do antagonista acaba por sobressair como centro atractivo do filme. Mas se na obra de Nolan, era a poderosa interpretação de Hedge Ledger que situava muito desse nosso sentimento, aqui é o overacting de Samuel Jackson e o seu Octopus que triunfam. Mas porque diabo haveríamos nós de qualificar um excesso como um ponto positivo? Por algumas razões. Primeiro, porque o carisma de Gabriel Macht, com tiradas e posturas brejeironas, é nulo, deixando-nos a milhas de acreditar que este “The Spirit” possa ser um sex symbol para o universo feminino, por exemplo. Assim, de repente só nos vem à memória outro concorrente: o “Daredevil” de Ben Affleck. Depois, porque se a história é pouco atractiva, a sua, mise en place no mundo CGI de Miller, deixa o espectador a gritar por alguma presença humana, mesmo que em boas doses de histrionismo bem disposto, como o de Samuel Jackson. Esse histrionismo acaba por indiciar um dos raros pontos interessantes de “The Spirit”. Há momentos em que a debilidade de tudo isto assume alguma postura, um certo sentimento de “perdido por cem, perdido por mil” que aporta um inteligente sentido de auto-ironia. Um dos bons exemplos é o número da “dentista e o nazi”, momento em que Octopus captura Spirit e planeia esquartejá-lo e mandar as suas partes por correio para que não possa voltar à vida. Aqui, a paródia ao universo nazi com Samuel Jackson de monóculo e fato condizente, o telefone que surge do nada, a dentista francesa, antiga paixão de Spirit, que vem ajudar à festa, são tudo detalhes que dão alguma sentimento de desordem assumida. Pronto, estamos a ver uma comédia, não nos chateemos mais, pensamos nós. Obviamente que esse caos saudável é esporádico e logo nos apercebemos que murros, cores berrantes, efeitos ou outras one liners débeis compõem uma amálgama de aborrecimento no qual o filme se desenrola. Uma palavrinha ainda para Scarlet Johanssen, ou antes Silken Floss, como ajudante de Octopus, que não se sai mal: o seu pouco protagonismo e o seu ar travesso de menina a fazer um frete, de quem "não está lá" de corpo e alma, serve na perfeição um mundo de pessoas que na realidade não estão mesmo lá. Para não aborrecer ninguém, não acabamos sem uma simpática sinopse que dá muito jeito e se dá numa linha. Querem ver? Spirit persegue Octopus que persegue a imortalidade. Mulheres belas ajudam ambos.3/10