4 de 5 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
A história da solidão desamparada de um homemPhilip Roth não é um bicho fácil de adaptar ao cinema e "Elegia" introduz ligeiras alterações na trama da sua novela "O Animal Moribundo", suficientes para fazer os mais puristas clamar ao sacrilégio. Mas são pormenores face à constatação de que, para além de uma portentosa interpretação, está aqui uma adaptação inteligente que sublinha um dos recentes temas Rothianos - o confronto com a decadência do corpo e a morte omnipresente - com elegância e bom gosto, ou não fosse este um filme da espanhola Isabel Coixet, cujos filmes anteriores ("A Vida Secreta das Palavras" e "A Minha Vida sem Mim") têm evitado com sensibilidade as armadilhas do lugar-comum.
É verdade que "Elegia" se conforma ao arquétipo do drama de prestígio sobre as neuroses dos intelectuais nova-iorquinos; é ainda mais verdade que há um certo risco de se cair na telenovela de luxo. Mas Coixet consegue evitá-la de justeza e deixa à solta Ben Kingsley para confirmar como este extraordinário actor parece estar num segundo fôlego digno de registo (depois de "The Wackness", onde o seu psiquiatra charrado era assombroso). O arquétipo do professor universitário pinga-amor que procura adiar o confronto com a morte através dos "affaires" que vai tendo com as alunas ganha carne, sangue, suor e lágrimas através da performance vulnerável e comovente de Kingsley, a quem o destino troca as voltas quando dá por si apaixonado por Penélope Cruz (que, decididamente, só parece sentir-se à vontade com Almodóvar).
Coixet transforma "Elegia", mais do que na história de um romance impossível, na história da solidão desamparada de um homem que descobre "in extremis" o que é que amar quer realmente dizer. E se é certo que sem Kingsley "Elegia" seria um filme menos interessante, é injusto reduzi-lo apenas à sua interpretação extraordinária.
Esta Crítica teve utilidade para si? Sim | Não
2 de 4 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
A espanhola Isabel Coixet anda há
anos ("Coisas que Nunca Te Disse", "A
Minha Vida Sem Mim", "A Vida
Secreta das Palavras") a filmar
histórias de personagens "sensíveis"
vítimas de crises existenciais de todo
o tipo, numa mistura (nada explosiva,
"hélas!") de filosofia positiva digna de
magazine dominical e melancolia
artificial criada e caucionada pela sua
própria pose (ou seja, uma versão
"soft", e portanto aceitável, do que
alguns vêem como "tiques" do
"cinema de autor"). Dentro do seu
género, filmes tão honestos quanto
enfadonhos. Mas que fazem de Coixet
a última pessoa que nos
lembraríamos de recomendar para
filmar uma história de Philip Roth.
Em todo o caso ninguém nos
perguntou nada (leitores "online",
pela vossa saúde, não deixem tanta
presunção passar em claro), e eis
"Elegia", título que pudicamente
esconde o "Animal Moribundo" do
escritor americano. A angústia crua,
egoísta, mesmo "isolacionista", do
macho solitário e envelhecido
reconvertida na neblina sentimental
de um mau melodrama. Que não tem
bem "cenas", antes "vinhetas"
ilustrativas à espera do diálogo (ou da
frase, ou pior, da máxima) que as vem
resolver e justificar. Que não tem
"personagens", mas (de Kingsley e
Cruz a Dennis Hopper e Patricia
Clarkson) "exemplos", retóricos e
ambulantes. Que não tem
"ambiente", e muito menos
"meteorologia", mas uma
fotografia de enjoativos cinzentos e
azuis que nos grita "reparem, é o
Outono da vida". E que faz o que
pode (interlúdios musicais e tudo)
para que o espectador não saia sem a
sua lagrimita. O poder do cinema:
Coixet não fez Roth, fez Coixet.
Infelizmente, "fazer Coixet" é algo de
muito pouco interessante.
Esta Crítica teve utilidade para si? Sim | Não