Elegia

  • Elegia
  • De: Isabel Coixet
  • Com: Sonja Bennett, Patricia Clarkson, Penélope Cruz, Ben Kingsley
  • Género: Drama, Romance
  • Classificacao: M/12

Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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A história da solidão desamparada de um homem

Philip Roth não é um bicho fácil de adaptar ao cinema e "Elegia" introduz ligeiras alterações na trama da sua novela "O Animal Moribundo", suficientes para fazer os mais puristas clamar ao sacrilégio. Mas são pormenores face à constatação de que, para além de uma portentosa interpretação, está aqui uma adaptação inteligente que sublinha um dos recentes temas Rothianos - o confronto com a decadência do corpo e a morte omnipresente - com elegância e bom gosto, ou não fosse este um filme da espanhola Isabel Coixet, cujos filmes anteriores ("A Vida Secreta das Palavras" e "A Minha Vida sem Mim") têm evitado com sensibilidade as armadilhas do lugar-comum.


É verdade que "Elegia" se conforma ao arquétipo do drama de prestígio sobre as neuroses dos intelectuais nova-iorquinos; é ainda mais verdade que há um certo risco de se cair na telenovela de luxo. Mas Coixet consegue evitá-la de justeza e deixa à solta Ben Kingsley para confirmar como este extraordinário actor parece estar num segundo fôlego digno de registo (depois de "The Wackness", onde o seu psiquiatra charrado era assombroso). O arquétipo do professor universitário pinga-amor que procura adiar o confronto com a morte através dos "affaires" que vai tendo com as alunas ganha carne, sangue, suor e lágrimas através da performance vulnerável e comovente de Kingsley, a quem o destino troca as voltas quando dá por si apaixonado por Penélope Cruz (que, decididamente, só parece sentir-se à vontade com Almodóvar).

Coixet transforma "Elegia", mais do que na história de um romance impossível, na história da solidão desamparada de um homem que descobre "in extremis" o que é que amar quer realmente dizer. E se é certo que sem Kingsley "Elegia" seria um filme menos interessante, é injusto reduzi-lo apenas à sua interpretação extraordinária.


Crítica Ípsilon por:

Luís Miguel Oliveira

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A espanhola Isabel Coixet anda há anos ("Coisas que Nunca Te Disse", "A Minha Vida Sem Mim", "A Vida Secreta das Palavras") a filmar histórias de personagens "sensíveis" vítimas de crises existenciais de todo o tipo, numa mistura (nada explosiva, "hélas!") de filosofia positiva digna de magazine dominical e melancolia artificial criada e caucionada pela sua própria pose (ou seja, uma versão "soft", e portanto aceitável, do que alguns vêem como "tiques" do "cinema de autor"). Dentro do seu género, filmes tão honestos quanto enfadonhos. Mas que fazem de Coixet a última pessoa que nos lembraríamos de recomendar para filmar uma história de Philip Roth.


Em todo o caso ninguém nos perguntou nada (leitores "online", pela vossa saúde, não deixem tanta presunção passar em claro), e eis "Elegia", título que pudicamente esconde o "Animal Moribundo" do escritor americano. A angústia crua, egoísta, mesmo "isolacionista", do macho solitário e envelhecido reconvertida na neblina sentimental de um mau melodrama. Que não tem bem "cenas", antes "vinhetas" ilustrativas à espera do diálogo (ou da frase, ou pior, da máxima) que as vem resolver e justificar. Que não tem "personagens", mas (de Kingsley e Cruz a Dennis Hopper e Patricia Clarkson) "exemplos", retóricos e ambulantes. Que não tem "ambiente", e muito menos "meteorologia", mas uma fotografia de enjoativos cinzentos e azuis que nos grita "reparem, é o Outono da vida". E que faz o que pode (interlúdios musicais e tudo) para que o espectador não saia sem a sua lagrimita. O poder do cinema: Coixet não fez Roth, fez Coixet.
Infelizmente, "fazer Coixet" é algo de muito pouco interessante.