Independança

  • Histórias de Cabaret
  • De: Abel Ferrara
  • Com: Willem Dafoe, Bob Hoskins, Asia Argento
  • Género: Comédia Dramática
  • Classificacao: M/16

Crítica Ípsilon por:

Luís Miguel Oliveira

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9 de 9 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Um belíssimo manifesto pela independência.

Abel Ferrara é um especialista do caos, esse mesmo caos (viram o episódio do "Cinema de Notre Temps" que a ARTE fez sobre ele?) que lhe inunda a vida pessoal, os processos criativos e uma data de filmes. Pois bem, há muito que ele não filmava assim o caos, a periclitância como estado permanente, o risco de a qualquer momento tudo dar para o torto.

"Histórias de Cabaret" é habitado por estas sensações de uma ponta à outra, dir-se-ia mesmo que é sobre elas; mas, e quase como uma inevitabilidade tratando-se de Ferrara, foi ele próprio extraído ao caos e à iminência do falhanço, no decurso de uma rodagem (na Cinecittà, em Roma) marcada por inúmeros problemas de produção e pela ameaça constante de tudo ficar pelo caminho.

Quer o filme se tenha alimentado dessas perturbações quer não, o efeito de espelho adensou-se. "Histórias de Cabaret" rima as angústias de Abel Ferrara como autor "independente", reflecte a dificuldade da condução a bom porto do seu "pequeno comércio", do seu "cabaret", quer dizer, do seu cinema. É a história de um "night club" nova-iorquino (reconstituído num estúdio romano, como dissemos, incluindo alguns planos de exteriores) dirigido por um Willem Dafoe, actor em estado de graça, tão entalado como optimista (a energia positiva da personagem evoca a do Ed Wood de Tim Burton, outro filme sobre as agruras da independência). Não há dinheiro para pagar a ninguém, nem às "strippers" que ameaçam entrar em greve, nem à senhoria, uma velhota a quem Dafoe deve vários meses de renda e que não se cansa de anunciar que ou ele paga ou é despejado. Está tudo à beira do fim, mas Dafoe tem razões para estar optimista: apostou tudo num esquema (confuso e aparentemente fraudulento) para ganhar a lotaria, e teve sucesso. Mas ainda o caos: nem ele nem nenhum dos seus parceiros se lembram de onde raio guardaram o bilhete premiado.

É portanto uma noite de "ou vai ou racha", num frenesi dado praticamente em "tempo real" (a duração do filme corresponde à duração da acção), o fulcro de "Histórias de Cabaret". Em suspensão (sobre o abismo, em fuga para a frente) e em "suspense" (ah mas onde está aquele maldito bilhete salvador?). O tempo preenche-se com as correrias à procura do bilhete e com as conversas de Dafoe para apaziguar os credores e convencer as meninas a subirem ao palco - e entretanto, "the show must go on", com "performers" vindos de outros filmes de Ferrara (Matthew Modine ou Asia Argento). Dafoe é uma espécie de figura paterna, mestre de cerimónias, psicólogo, intrujão por uma boa causa (a sua independência, o seu negócio, o bem-estar da "família" composta pelos funcionários do "cabaret"). Também é uma espécie de cineasta, como que um duplo do próprio Ferrara, a conduzir um filme de expediente em expediente, a arrancá-lo às garras do fracasso. Ferrara mencionou "A Morte de um Apostador Chinês", de Cassavetes, o filme onde Ben Gazzara se dispunha a tudo para preservar o seu negócio nocturno. "Histórias de Cabaret" tem outro tipo de intensidade, e um espírito de irrisão totalmente diverso da sisudez de Cassavetes. Mas é, como ele, um belíssimo manifesto pela independência, capaz de integrar, irónica e esfuziantemente, todas as suas ambiguidades e sombreados morais.

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Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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Depois do existencialismo metafísico do extraordinário "Maria Madalena", Abel Ferrara "descontrai-se" com esta comédia largamente improvisada sobre uma noite infernal num cabaret rasca nova-iorquino à beira do colapso: o proprietário é um jogador compulsivo que não hesita em hipotecar o futuro do clube num colossal número de bilhetes de lotaria, as strippers estão à beira da revolução por não serem pagas há dois dias, a senhoria não se cala com a ordem de despejo.


Há ternura genuína de Ferrara por estas personagens, que por vezes recordam uma versão mais canalha do "Agente da Broadway" de Woody Allen, mas quando o realizador mostra onde quer chegar já é tarde demais: "Histórias de Cabaret" já se perdeu numa longuíssima série de "sketches" de inspiração variável que se esticam muito para lá do que seria justificável, aos quais nem o elenco de luxo consegue emprestar interesse.

Ferrara sempre foi um cineasta desigual, mas mesmo assim esperávamos bastante melhor de "Histórias de Cabaret".


Crítica Comunidade:

Crítica por: Fernanda Damas Cabral de Lisboa

Este Filme desconcertou-me.Perdi-me.Percebi que o mal estar residia em Willem Dafoe. Que estava ele ali a fazer, melhor dito que estava eu ali a ver.Numa alucinante história que envolve um Mundo duplo em tempo simultâneo e um Cabaret metáfora nevralgica desse mesmo mundo, naquela situação de angústia de precisar do dinheiro, mas de modo a não parecer fraudulência, tanto mais que era para pagar justos salários, Dafoe movimentava-se com uma ligeireza e umas sempre sedutoras feições que me levaram a não me conseguir concentrar.Finalmente foi-se embora a imagem obsessiva d''A Última Tentação de Cristo e e vi então Ferrara, sem deixar o mal estar porque já não ia a tempo de me situar.Um Filme que acabei por ver a sério no momento de ler a crítica do Crítico. Sim ajudou-me.As imagens rebobinaram à medida que lia.O Cinema é feito, para mim, destas miscelâneas mentais e assim fiquei a gostar mesmo foi da cena de Dafoe e das bailarinas na performance do espectáculo final na glória dos actores e do realizador. A minha alegria só surgiria depois de ler. FDC(1945