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Crítica

A voz de Fausta

  • A Teta Assustada
  • De: Claudia Llosa
  • Com: Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Solís
  • Género: Drama
  • Classificacao: M/12

Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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Um belíssimo filme cuja aparente simplicidade e tranquilidade escondem discretamente as turbulências de uma jovem que aprende a viver no mundo real

A propósito de "A Teta Assustada", podia-se invocar o "realismo mágico" que se tornou no metro-padrão da literatura latino-americana pós-Gabriel García Márquez, ou a vitalidade aparentemente imparável do cinema que nos chega da América do Sul hispânica. E tudo isso está na segunda longa-metragem da peruana Claudia Llosa, mas é limitativo para definir um filme camaleónico e multifacetado, profundamente pessoal e atmosfericamente político, de um realismo quase documental cruzado com um onirismo surreal, onde as dificuldades da adolescência e as heranças ancestrais se miscigenam numa espécie de limbo social. Tudo isto descrito com uma segurança extraordinária e uma confiança infinita nas potencialidades do cinema para fazer passar emoções e sentimentos - tanto mais importante quanto seria muito fácil a "A Teta Assustada" tombar na bizarria regional, sobretudo com o ponto de partida desta história.


Simplificando, esta é a entrada na idade adulta de Fausta, adolescente peruana nascida na província durante os tempos do terrorismo, que mora com os tios nos subúrbios improvisados de Lima. Esse ritual de passagem é complicado pela morte da sua mãe no arranque do filme, numa cena poderosíssima que explica desde logo o método observacional da realizadora - mostrando em vez de explicar, deixando a sua câmara a correr o tempo suficiente para nos habituarmos a estes ritmos diferentes, prisioneiros de um limbo entre a tradição e a modernidade, o rural e o urbano.

É preciso que tudo aconteça assim, porque Fausta é um "bicho do mato": não sai à rua sozinha, não fala com ninguém que não conheça, tem um medo quase irracional do outro. "A teta assustada", assim chamam as superstições da província aos filhos de mães traumatizadas que herdaram o medo através do leite - suficiente para levar Fausta, aterrorizada com a possibilidade de ser violada, a enfiar uma batata na vagina. Metáfora do medo e da recusa de entrar na idade adulta que Llosa integra como um elemento naturalíssimo numa história de aprendizagem que é também do mundo que a rodeia, num confronto simultaneamente emocional, social, político, cultural, e sublimado através da música que é a válvula de escape de Fausta.

É a música - as canções que Fausta inventa na língua Quechua e que canta para si própria como talismãs para afastar o medo e a tristeza - que lhe vai desenhar a saída do labirinto em que ela própria se fechou, sublinhando o poder mágico, místico, do canto como fonte de força ao mesmo tempo que acelera a saída do seu casulo. Claudia Llosa conta tudo isto com minuciosa precisão que, contudo, evita a queda quer no formalismo gratuito quer na frieza clínica: a atenção enorme aos pormenores, à gestão dos silêncios, à justeza do seu elenco (e seria profundamente injusto não destacar a assombrosa presença, telúrica e frágil, de Magaly Solier) reafirma a segurança de uma encenação que consegue manter abertos ao mesmo tempo múltiplos níveis de leitura sem nunca perder de vista a emoção central que transporta a narrativa.

"A Teta Assustada" é um filme enganador: parece muito menos do que é, não se revela por inteiro numa primeira visão, ganha em ser digerido com tempo e atenção (o que explica porque é que, mesmo quando o vimos primeiro no Festival de Berlim onde ganhou o prémio máximo, a sua tranquilidade não revelou todos os seus segredos). Mas dentro da sua história de uma jovem forçada a crescer cabem mundos inteiros - e raros são os filmes que nos dão vontade de os explorar todos.


Crítica Ípsilon por:

Mário Jorge Torres

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1 de 3 pessoas acharam útil a crítica que se segue.


Goste-se mais ou menos do resultado final, não pode deixar de se respeitar a coerência formal e o bom gosto representativo de "A Teta Assustada", fábula complexa de uma jovem peruana que lida com a morte, com as suas próprias raízes e com as implicações políticas da existência, num mundo em que a diferença constitui estigma. O problema maior (nosso, com certeza) passa pela fórmula adoptada de uma espécie de "realismo mágico", praga literária que se estende não poucas vezes ao cinema, determinando uma visão algo folclórica do real, com uma ritualização que se esgota nas suas componentes.


Dito isto há momentos inesquecíveis, como a função da língua quechua na lógica poética das canções do filme ou os planos orgiásticos de casamentos ou ainda actos quotidianos mínimos, desde as deambulações da protagonista pela casa quase assombrada até à subida das intermináveis escadas para o bairro, a lembrar imaginários templos. Só que é tudo demasiado artificioso para servir a magia de um programa (apetecia dizer cartilha) pré-existente.