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  • O Campo da Morte
  • De: Ami Canaan Mann
  • Com: Sam Worthington, Jeffrey Dean Morgan, Chloe Moretz, Jeffrey Dean Morgan
  • Género: Drama, Thriller
  • Classificacao: M/12

Crítica Ípsilon por:

Luís Miguel Oliveira

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A ideia fixa de que o policial é uma maneira de abordar a doença do espírito

Ami Canaan Mann é a filha de Michael Mann. Pormenor que não mereceria menção (mesmo quem sai aos seus deve ter liberdade para degenerar) se Michael Mann não estivesse associado - como produtor - a esta estreia da sua filha na realização para cinema (antes, tinha dirigido episódios para séries de televisão, meio onde também o seu pai se formou). Inevitável, portanto, ver O Campo da Morte, Texas Killing Fields no original, como um “filme dos Mann” (há outros Mann no genérico, como coprodutores, mas a IMDB é omissa quanto ao grau de parentesco).


Ou como um little Mann. Ami estreia-se no género em que, incontestavelmente, o pai fez o melhor da sua obra: o policial. Género que se tornou residual no cinema americano popular, tomado pelos super-heróis e pelas comédias para adolescentes, e vive hoje sobretudo na televisão, escorado no novo paradigma “techno” (-lógico,-crático) de CSIs e afins. Como competir com ele, com esse pragmatismo frio e laboratorial? É em resposta a isso que Campo da Morte encontra o seu espaço. Conta menos a investigação, o relato do cumprimento de um procedure, e mais uma malaise, vagamente existencial, seguramente venenosa, que plana sobre tudo e todos e infectou, já, os próprios policias. Aquele “campo da morte” (um pântano texano onde um serial killer deposita os restos das suas vítimas) é filmado como um atoleiro da humanidade, a sua estranha vegetação (árvores sem folhagem) assemelhando-se a figuras humanas ressequidas recortadas contra o céu. Ou a cruzes, memória crística autorizada pelo facto - peculiar - de um dos detectives ser católico e ter até uma fotografia de João Paulo II no gabinete.

Acredita-se em quê, quando se tem os pés e as mãos enterrados no atoleiro da humanidade? É a pergunta que serve de tema ao filme. Que assim encontra uma maneira de devolver o policial ao território poético habitado pelos seus heróis clássicos (pense-se no noir dos 40 e 50): homens cansados num mundo corrupto, ansiosos por qualquer coisa que mereça ser salva para além do simples formalismo do cumprimento de um dever. Sem rasgo, sem um estilo forte a “marcar” o filme, mas de modo coerente, inteligente e, mais importante, intencional, Ami Canaan Mann não abandona esta ideia fixa de que o policial - no cinema ou nas mais importantes matrizes literárias - foi primordialmente uma maneira de abordar a doença do espírito. Missão executada, com uma certa distinção. Pergunta: O Campo da Morte indicia que alguma vez falaremos de um filme de Ami Canaan Mann sem mencionar o nome do pai? Íamos tentar prognosticar, mas depois, francamente, pareceu-nos um raio de uma pergunta.


Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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Não fosse Ami filha de Michael e talvez não estivéssemos todos a olhar para O Campo da Morte à procura de uma digna herdeira do apelido Mann. O que é injusto para Ami, em tempo de estreia na longa-metragem depois de carreira na televisão, e para Michael, que só muito para lá do primeiro filme começou a assinar os clássicos que lhe reconhecemos (Heat, Miami Vice). Por esse ponto de vista, O Campo da Morte é estreia perfeitamente honrosa, policial clássico sobre dois detectives texanos investigando um possível serial killer que deixa as vítimas nos pântanos à saída da cidade, com um excelente sentido de espaço e cor local e um elenco sólido em pleno controlo das personagens. Só que nada disso invalida que o argumento de Donald Ferrarone pareça mais episódio-piloto que não encontrou espaço no pequeno écrã e que o filme nunca encontre o equilíbrio entre a ambição atmosférica de grande écrã e a modéstia corriqueira de pequeno écrã. Ainda assim, dá vontade de ver o que Ami vai fazer a seguir.