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Um filme de género autor

  • Era Uma Vez na Anatólia
  • De: Nuri Bilge Ceylan
  • Com: Muhammet Uzuner, Yilmaz Erdogan, Taner Birsel
  • Género: Drama
  • Classificacao: M/12

Crítica Ípsilon por:

Vasco Câmara

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5 de 18 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Nuri Bilge Ceylan assumindo-se como herdeiro de uma tradição, a do “cinema de autor

O pequeno ciclo que no Espaço Nimas, em Lisboa, organiza em torno da estreia de "Era uma vez na Anatólia" - dia 4, 21h30, "Uzak-Longínquo"; dia 5, 18h e 21h30, "Climas"; dia 6, 18h e 21h30, "Os Três Macacos" - pode servir como desenho do que se passou no cinema do turco Nuri Bilge Ceylan: algo de afectuoso e familiar - embora família e afectos estejam em perda nos filmes - progressivamente substituído por uma estratégia “autoral”.


O intimismo atmosférico de "Uzak" (Grande Prémio do Júri Cannes 2002), com o silêncio da neve em Istambul e o mundo e as relações às escuras, ou o vento de melancolia de "Clouds of May" (1999, ausente do ciclo) tacteavam uma espécie de autobiografia afectiva - actores e cenários eram muitas vezes membros da família e espaços da privacidade deste realizador, engenheiro de formação e ex-fotógrafo de publicidade.

Em "Clouds of May" a personagem era um cineasta, em Uzak um fotógrafo. Em qualquer dos casos métiers que supostamente levam à procura de uma relação com o outro mas que acabam por ser princípios de fechamento, de autismo (o que, retrospectivamente, não deixa de ser irónico tendo em conta o que depois aconteceu ao realizador Ceylan). Em "Climas" era o próprio Nuri a interpretar um marido ensimesmado, pouco atento à esposa, que era interpretada pela mulher de Nuri, a actriz e fotógrafa Ebru Ceylan. Isso convidava a perturbação e alguma auto-ironia (coisa que Ceylan nunca mostrara antes e que não voltou a mostrar depois) a instalar-se no jogo. Mas evidenciava-se também o calculismo de um estratega - como se este cinema começasse a ouvir menos a sua voz e a interessar-se sobretudo em responder com o seu próprio exibicionismo. A caricatura de um cineasta singular de prestígio empolado pelos festivais a filmar de acordo com o que dizem dele chegou a concretizar-se: Os Três Macacos (Prémio de Realização Cannes 2008), penosa decepção de ver um cineasta a assemelhar-se a um decorador de ambientes. "Era uma vez na Anatólia", e as suas três horas de deriva de uma equipa de médicos, inspectores da polícia e suspeitos de assassinato à volta de um cadáver, parece impedir, para já, mais danos colaterais no cinema de Ceylan. Suspendendo até a suspeita de falsidade que pairou sobre o seu trabalho sobretudo quando o filme toca na morte e as personagens ficam por ela tocadas. Mesmo se na primeira hora nada interesse ao realizador mais do que os efeitos das luzes dos carros a serpentearem pela noite ou uma peça de fruta a sofrer os caprichos da água num riacho - é como se, com o seu desenrolar, o plano-sequência se autonomizasse e assim se rasurasse a ligação orgânica e afectiva ao filme e às personagens. Mesmo se o título, Era uma vez na Anatólia, e a tentação de epopeia que aí se lê (e então Angelopoulos junta-se à marca de Antonioni no cinema do turco, como se ele fosse o representante desses deuses na terra) continuassem a dar sinais de uma arrogância sisuda. E dissessem sobretudo da vontade de Nuri Bilge Ceylan se assumir como herdeiro de uma tradição, a do “cinema de autor”. Para a qual contribui, então, com um filme de “género”: “autor”. Como quem disso faz uma recriação.


Crítica Ípsilon por:

Luís Miguel Oliveira

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11 de 14 pessoas acharam útil a crítica que se segue.


É a Turquia e todos eles são turcos, turcos da cidade e turcos do campo (oposição importante dentro do filme), mas Ceylan não quer necessariamente que o espectador fique agarrado a essa chave, ou condenado a “ler” o filme à procura da descodificação do que ele quer dizer “sobre a Turquia”. Até nos esquecemos disso, e naquele grupo de personagens, de ecletismo tão hawksiano, que passa o filme como se estivesse num western (são cowboys e índios, em sentido menos figurado do que possa parecer) a avançar por uma paisagem de “fronteira”, impõe-se menos o “género turco” do que o género humano, e dentro deste, muito especialmente, o género masculino.


O ensemble é muito bem desenhado e conduzido, em estirpe quase clássica (lembra, por vezes, Angelopoulos, com menos rodriguinhos), e o tempero melancólico da maneira como Ceylan filma a noite e a madrugada (e os seus “climas”, ventosos e húmidos) garante o prazer de um filme que, se não é de facto outro Climas, também não serve para arrumar o seu autor a um canto.


Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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7 de 8 pessoas acharam útil a crítica que se segue.


Uma surpresa tanto maior quanto Nuri Bilge Ceylan não tinha ainda transcendido a etiqueta preguiçosa de discípulo de Antonioni e de representante oficial da Turquia na internacional do cinema de autor, Era uma Vez na Anatólia é um filme de estarrecer. Neste policial existencialista tão desacelerado como surpreendentemente tenso, a busca de um cadáver na Turquia rural torna-se num microcosmos da condição humana, filmado com um virtuosismo quase ofensivo e uma sensibilidade extraordinária. É verdade que Era Uma Vez na Anatólia é programático no seu jogo de dicotomias (campo/cidade, culpa/inocência), e que nunca fugimos à consciência sisuda de Ceylan estar a fazer “obra” séria e significativa. Mas, face à magistral construção narrativa “em câmara lenta”, à subtileza das interpretações, à humanidade que se desprende do formalismo preciso e observacional, isso quase parece vontade de arranjar defeitos a um dos melhores filmes que vimos este ano.

Crítica Comunidade:

Crítica por: AndreasB de Lisboa, Portugal

Como sempre, a necessidade de classificar, que por consequência revela a tendência formalista de controlar/dominar … deixa escapar sensibilidades mais subtis e conceitos implicitos/poeticos.

Crítica por: Helena B de Setúbal

Terrível, avassalador, sublime Sobressai, neste filme, um carácter existencialista onde a condição humana se revela, de uma forma extraordinária, na narrativa que se constrói sob o primado da imagem ; as paisagens esmagadoras, a longa noite, a luz e a profunda escuridão, os rostos, sombras, contornos, o vento, os sons, elementos essenciais da viagem partilhada em buca do corpo, projetada no percurso interior das personagens. Terrível, avassalador, sublime.