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História universal da escuridão

  • O Cavalo de Turim
  • De: Béla Tarr, Ágnes Hranitzky
  • Com: János Derzsi, Erika Bók, Mihály Kormos
  • Género: Drama
  • Classificacao: M/12

Crítica Ípsilon por:

Luís Miguel Oliveira

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95 de 121 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Magnífico, e inesgotável: vê-lo duas vezes é querer vê-lo uma terceira

Béla Tarr chega ao circuito comercial português in extremis: O Cavalo de Turim, anuncia o realizador húngaro, é o ponto final na sua obra. O nome de Tarr será familiar a muita gente, sobretudo pela influência que exerceu sobre outros (Gus van Sant é um exemplo evidente). A filmografia de Tarr, menos. Mas não é radicalmente desconhecida: houve uma integral na Cinemateca em 1997 (com Tarr cá), os filmes posteriores a esta data também foram vistos, na Cinemateca e noutros sítios, e um deles (O Homem de Londres, antecessor imediato de O Cavalo de Turim) conheceu edição portuguesa em DVD pela Atalanta. Ainda assim, é de crer que para a maior parte dos espectadores O Cavalo de Turim vá ser uma première absoluta. Bendita seja.


É o seu último filme, diz Tarr, e nada mais adequado a um “filme de fim” do que um “filme do fim”, um filme que descreve um esgotamento (da natureza, incluindo a humana), um encolhimento (do espaço), um apagamento (da luz). “Pai, que escuridão é esta?”, pergunta a rapariga no início do capítulo final. Pergunta lancinante, porque sendo feita, de facto, ao seu pai (a única outra personagem, humana pelo menos, que está presente no filme todo), ela soa como uma pergunta feita àquele outro Pai (dito o Nosso, que está no Céu), que já antes, numa das poucas cenas em que o diálogo é preponderante, fora implicado (“porque Ele toma parte em tudo”) no processo - seja ele qual for, de que natureza for - que as personagens vivem. Que miséria é esta a que nos condenas? Toda a obra de Tarr, num dos seus vários sentidos, relata este abandono dos homens a eles próprios, num mundo desolado, desertificado, insalubre. O Cavalo de Turim põe de facto uma pedra no assunto, a pedra definitiva (tumular...), vai às últimas consequências, estéticas e poéticas, de um movimento iniciado em Perdição e O Tango de Satanás. Depois dele, e através dele, nada sobra, a não ser uma espécie de... nada.

Estamos na província húngara, em época indeterminada que associamos ao final do século XIX a partir do preâmbulo narrado em off, que nos conta a história do silêncio de Nietzsche, chocado com os maus tratos infligidos a um cavalo numa rua de Turim. “Ninguém sabe o que aconteceu ao cavalo”, e começa a acção. A “acção”, de facto: em todos os seus fabulosos planos-sequência, O Cavalo de Turim mais não faz do que descrever acções, estendidas no tempo, numa unidade entre o movimento e a duração do movimento. Portanto, o esforço, a componente física da existência de todos os dias. No primeiro plano é um cavalo (o de Nietzsche? é irrelevante) que puxa uma carroça guiada pelo dono, e a câmara, sacudida pelo vento omnipresente, parece flutuar (este é o Tarr onde há mais steadycam), fazer uma anatomia do cavalo, os músculos a mexerem-se, o resfolegar, o cansaço. Não haverá muita ocasião de repetir este plano - que é ainda, à sua maneira, um plano de harmonia, um plano de um tempo em que tout va bien - sendo certo que o primeiro sinal de que as coisas começam a ir mal será justamente, mais tarde, a recusa do cavalo em mexer-se, em trabalhar. Não se repete este plano, repetem-se outras cenas - a repetição é uma figura fundamental em o Cavalo de Turim (bem reforçada pela música, enrolada e insistente, de Mihaly), crucial na descrição de uma rotina. As refeições, por exemplo, sempre as mesmas batatas cozidas com sal. As idas da rapariga ao poço, umas dezenas de metros em frente da casa, acompanhadas exaustivamente, desde o momento em que se levanta e se veste para o frio (muita roupa, muito tempo para a vestir) ao momento em que, de balde na mão, desafia o vento e a intempérie para percorrer o caminho até ao poço. E depois voltar com o balde cheio. Toda esta repetição é importante - e decide o “estruturalismo” do filme, curiosamente reminiscente do Jeanne Dielman de Chantal Akerman - porque é por ela que Tarr apanha a degradação da rotina e, consequentemente, da vida de todos os dias. As mesmas acções, de maneira cada vez mais difícil, cada vez mais imperfeita, até que se tornem impossíveis - o cavalo não anda, o poço seca, a lamparina não se aguenta acesa, as batatas não se podem cozinhar. The end.

Tarr não é um cinéfilo (no sentido exuberante do termo), mas é daqueles cineastas que, a cada enquadramento, permanece fiel aos realizadores que o formaram (Jancsó, Ozu, Fassbinder, Cassavetes, Godard, Pasolini, Ivan Passer - a julgar pela “carta branca” que a Cinemateca lhe deu em 1997). Também por isso, é um cineasta que vive à margem do tempo cronológico. Um filme como O Cavalo de Turim já não existe, quer dizer, podemos imaginá-lo a ter sido feito noutra década qualquer, é como um pequeno núcleo completamente impermeável. Até no tempo do mudo, que cinematograficamente será o espectro mais presente em O Cavalo de Turim - O Vento de Sjostrom, com certeza, mas na maneira de Tarr trabalhar a composição visual (aqueles planos de interior que, pela posição das janelas, se tornam também planos de exterior) e a sua expressividade, com um rigor maníaco que parece bater sempre assombrosamente certo, poucas vezes se sentiu uma “estética geral do mudo” a palpitar com esta potência (enfim, não falamos nem do maneirismo nem do folclore do mudo, isso é para os “Artistas” desta vida). Magnífico, e aparentemente inesgotável: vê-lo duas vezes é querer vê-lo uma terceira, tem lá dentro um mistério.


Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

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24 de 28 pessoas acharam útil a crítica que se segue.


"O Cavalo de Turim" não é um filme que se revele à superfície, que responda às lógicas lineares da convenção tal como o cinema mais tradicional as usa. OCavalo de Turim é um filme para quem espera do cinema que mexa consigo de uma forma elementar, quase inexplicável, puramente sensorial. Podíamos dizer que é um cinema para “entendidos”, seja lá isso o que for -mas é uma ideia profundamente redutora, porque este é um filme que reduz tudo à essência mais pura da arte cinematográfica (imagem, som, ação) e fá-lo descartando tudo aquilo que é importante para a maior parte dos espectadores. Bela Tarr não é para quem quer, nem mesmo para quem pode - e não há nisto nada de elitista: trata-seapenas de admitir que há muitas maneiras diferentes de fazer cinema e a dele é “outra coisa”, a um tempo tão depurada que chega a ser arcaica e tão radical que chega a ser visionária. E, como sabemos, esse é o tipo de atitude que se dá mal com um certo discurso redutor e superficial sobre o que “deve ser” o cinema. O Cavalo de Turim diz que o cinema é o que um artista quiser - e o que Béla Tarr quer deixa marcasinapagáveis. Saibamos merecê-lo.

Crítica Ípsilon por:

Vasco Câmara

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14 de 55 pessoas acharam útil a crítica que se segue.


Na entrevista a este suplemento, na semana passada, Béla Tarr falava da sensação de ter tudo dito - “a minha obra está feita, embalada” -, dizia que se O Cavalo de Turim não for o seu último filme, como diz que é, começará a repetir-se, a plagiar-se. Na verdade, havia já a sensação de um limite atingido em O Homem de Londres (2007): uma espécie de filme-fantasma a estrebuchar, sem capacidade de revolta, parecia “ocupado”, como se o mecanismo tivesse tomado conta de tudo. Uma experiência lúgubre - e, como se costuma dizer, “interessante” por isso. Volta a ser “uma experiência” O Cavalo de Turim: num filme sobre o desaparecimento da energia, os autoritários travellings e a tonitruante máquina de vento de Tarr - sobre a figura humana, até sobre a batata... - participam de um processo de opressão e desvitalização. Euforias à parte pela estreia comercial de um filme do húngaro nas salas portuguesas, O Cavalo de Turin vê-se em perda. Pela dificuldade, no ecrã revelada, de ser quebrada a claustrofobia de um edifício e de se conseguir tocar matéria humana... Há algo de vampírico neste aparato desumano, nesta máquina admiravelmente, como disse Tarr?, “embalada” que tem ganho vida própria.

Crítica Comunidade:

Crítica por: Helena B de Setúbal

Este filme penetra-nos, apodera-se de nós a vários níveis, que se fundem: Ao nível estético, as imagens são da ordem do sublime; a fotografia, o preto e branco, os planos cinematográficos, os movimentos da câmara, constituem um todo que, por sua vez, aquire e/ou se conjuga com uma dimensão poética e literária, numa narrativa depurada até ao silêncio e à escuridão, ao nada. Aos níveis do ser e do pensar. O "insustentável peso" do ser/ existir; quando a tempestade termina sobrevém a escuridão. A morte.

Crítica por: Victor Barreira de Lisboa

Certidão de Óbito – Luís Miguel Oliveira, escrivão da Conservatória do Registo de Óbitos, certificou que no dia quinze de Junho do ano de 2012, no suplemento Cultural Ípsilon, a fls. …, foi registado o óbito do Cinema, falecido no dia quinze de Fevereiro de 2011 (data de estreia de «Turin Horse» na Berlinale), às 21.30 horas, na 61.ª Edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, natural de França, nascido a 28 de Dezembro de 1895, filho de Auguste e Louis Lumière e de Georges Méliès. O falecido era polígamo, tinha uma prole incontável, e não deixou testamento. O assento de óbito teve também o testemunho do escrivão Jorge Mourinha, no mesmo suplemento de seis de Julho de 2012, a fls… O mencionado óbito foi devidamente atestado pelo Senhor Doutor Bela Tarr, natural da Húngria, com a cédula profissional n.º …, o qual declarou como «Causa Mortis»: o efeito de esgotamento entrópico da energia do cinema feito em película. O sepultamento foi realizado, no mesmo dia, no cemitério de uma das secções da Berlinale, devido ao adiantado estado de decomposição do cadáver. O referido é verdade e dou fé. A certidão está isenta de custas e emolumentos. Lisboa, 06 de Julho de 2012.