«O Caminho do Calvário» (1564), do pintor flamengo Peter Bruegel, o Velho (1525-1569), actualmente propriedade da Kunsthistorisches Museum in Vienna, em cujas instalações se encontra exposto, relata ostensiva, mas anacronicamente, o episódio da «paixão de Cristo», transladando esse episódio da Jerusalém descrita na bíblia para os Países-Baixos, que, no século XVI, se encontrava sob a brutal repressão política e religiosa da monarquia dos Habsgurgos de Espanha. O quadro representa, no plano mais profundo, uma ampla paisagem de contornos surrealistas; no plano de fundo, está colocado simbolicamente um morro em cima do qual está um moinho; no plano intermédio, encontram-se cerca de 500 figuras, a maior parte das quais integram «uma procissão» que vem da cidade, supostamente Jerusalém, situada à esquerda, em direcção ao Golgotha, situada no lado direito do plano; nesse mesmo plano, mas um pouco mais próximo, homens condenados à morte, Cristo e dois ladrões, são conduzidos para o lugar da execução por um grupo de soldados com túnicas vermelhas e montados a cavalo; no primeiro plano, o quadro descreve realisticamente figuras diversas, camponeses, pastores, jornaleiros, etc, nas mais diversas situações e propósitos. O quadro de Bruegel é visualmente mais complexo do que esta breve descrição deixa entrever, pois a simples divisão desse quadro nos seus dezassete «nós», «pontos de vista» ou «perspectivas» implicariam dezenas de páginas para a sua descrição se poder esgotar. E, atenção, refiro apenas a descrição dos elementos visuais do quadro, pois a esta haveria de seguir-se, naturalmente, a interpretação e a formulação de juízos iconográficos e estéticos, de modo a encontrar o sentido estético e filosófico, ético e político do quadro. Foi a essa missão que se dedicou, pelo menos em parte, o realizador Lech Majewski, cineasta com dupla cidadania norte-americana e polaca, no seu filme «O Moinho e a Cruz» (2011). Neste filme, que estreou quase despercebido esta semana numa sala de cinema de Lisboa, Lech Majewski, num arco que vai do pós-modernismo ao início da Época Moderna, do relativismo actual à nostalgia do conservadorismo de matriz religiosa, da laicidade do presente à sociedade cristã flamenga e europeia do século XVI, promove o encontro do universo visual, estilístico e filosófico de Peter Bruegel com as mais recentes técnicas das imagens geradas por computador (CGI) e efeitos visuais em 3D. Ao fazê-lo, levando para a tela do cinema o código visual surrealista, simbólico e realista Bruegeliano, combinando, com o auxílio da referida tecnologia, na mesma imagem-plano, a imagem real e a imagem digital, criando entre estas duas uma relação verdadeiramente orgânica, em que a imagem real se funde, e é um prolongamento, da imagem digital e esta se liga simbioticamente à outra, Lech Majewski criou uma das mais fascinantes e originais experiências cinematográficas a que assisti nos últimos meses. Com «O Moinho e a Cruz», Lech Majewski, não só fundou uma nova matriz visual no cinema (os exemplos apontados por Jorge Mourinha, «A Inglesa e o Duque» (2001), de Eric Rhomer e «A Ronda da Noite» (2007), de Peter Greenaway, embora pertinentes, têm apenas uma relação superficial com «O Moinho e a Cruz», e, além disso, e sem desenvolver o tópico, direi que estão muito distantes, na forma, no conteúdo e nos objectivos do filme do realizador polaco), como dissipa, desfaz e destrói os rumores muito frequentes, mas sempre sem confirmação na realidade, do fim do cinema. «O Moinho e a Cruz» aponta para um caminho, entre a miríade de outros possíveis, que o cinema também pode e deve seguir.