Leia também

De um tempo ausente

  • O Moinho e a Cruz
  • De: Lech Majewski
  • Com: Rutger Hauer, Michael York, Charlotte Rampling
  • Género: Drama
  • Classificacao: M/12

Crítica Ípsilon por:

Jorge Mourinha

diminuir aumentar
votarvotarvotarvotarvotar
24 de 24 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
O artista polaco Lech Majewski constrói uma belíssima meditação sobre a arte enquanto história e a história enquanto arte

O Moinho e a Cruz é um filme sobre um quadro: Subida ao Calvário (1564), do pintor flamengo Pieter Brueghel. Dito deste modo, parece que estamos apenas a falar de uma lição de história da arte que mais sentido faria no pequeno écrã ou no museu. Mas há mais a acontecer neste trabalho que exigiu três anos ao artista, escritor e cineasta polaco-americano Lech Majewski, inspirado no livro do crítico de arte Michael Francis Gibson, e revelando ser mais do que apenas um filme sobre um quadro. O Moinho e a Cruz é uma intrigante e sedutora meditação sobre o poder da arte para transcender o quotidiano que a rodeia e lhe dá origem, construída com uma tal atenção pictorial ao detalhe que se torna, ela própria, numa obra de arte autónoma. Sem evitar didactismos pontuais, mas sabendo que há aqui muito mais em jogo do que apenas olhar para um quadro com uma atenção diferente. No limite, é aquilo que Peter Greenaway chegou perto de fazer no seu contudo excelente A Ronda da Noite (2007) cruzado com a utilização da técnica que Rohmer experimentou em A Inglesa e o Duque (2001): conjugar discretamente arte digital e imagem real para, evitando a aridez da lição académica, explicar como a Arte e a História são duas facetas de uma mesma moeda. Parece seco? Mas não é: usando uma estrutura de diálogos quase socráticos entre duas personagens (Brueghel e o seu patrono Jonghelinck, interpretados por Rutger Hauer e Michael York), Majewski convida o espectador a entrar dentro do quadro para ver para lá da superfície, para dentro da imagem. Fá-lo com uma generosidade de espírito e uma abertura demasiadas vezes ausentes do cinema entendido como de arte ou de autor; recusa-se a tratar o espectador quer como criança deslumbrada sem capacidade de compreensão quer como aspirante a intelectual que se deve esforçar para apreender. Majewski cria um quebra-cabeças meticulosa e quase imperceptivelmente montado que nos recorda como, por trás de qualquer obra de arte, existe uma realidade transfigurada e transcendida pelo olhar do artista. Ao fazê-lo, recorda-nos como o cinema se ancora no acto de, mais do que ver, observar. Com calma, com tempo, com atenção. E isso, nestes tempos em que o consumo de imagens se faz a cem à hora sem tempo para a digestão, é talvez a mais radical das fés.

Crítica Ípsilon por:

Luís Miguel Oliveira

diminuir aumentar
votarvotarvotarvotarvotar
9 de 15 pessoas acharam útil a crítica que se segue.


“Cinema e pintura” no seu mais óbvio, tão óbvio que perde a graça. Encontra-se pintura flamenga (o filme de Majewski baseia-se em Bruegel, o Velho) em toneladas de cinema clássico, especialmente no mudo (e no preto e branco), que nela encontrou uma inspiração fundamental para a composição e para o trabalho sobre a luz e a sombra. Um objecto como O Moinho e a Cruz é tão ostensivo que parece uma anedota explicada - perde a graça, é mesmo a expressão. É uma espécie de pintura cultivada em estufa, trabalhada por aproximação e parasitagem, sem vida própria nem dinamismo (apetece dizer, sem blague: há mais movimento no quadro de Bruegel do que em todo o filme de Majewski). Vê-se com algum interesse, ou sobretudo com alguma curiosidade, mas também com enorme maçada.

Crítica Comunidade:

Crítica por: Victor Barreira de Lisboa

«O Caminho do Calvário» (1564), do pintor flamengo Peter Bruegel, o Velho (1525-1569), actualmente propriedade da Kunsthistorisches Museum in Vienna, em cujas instalações se encontra exposto, relata ostensiva, mas anacronicamente, o episódio da «paixão de Cristo», transladando esse episódio da Jerusalém descrita na bíblia para os Países-Baixos, que, no século XVI, se encontrava sob a brutal repressão política e religiosa da monarquia dos Habsgurgos de Espanha. O quadro representa, no plano mais profundo, uma ampla paisagem de contornos surrealistas; no plano de fundo, está colocado simbolicamente um morro em cima do qual está um moinho; no plano intermédio, encontram-se cerca de 500 figuras, a maior parte das quais integram «uma procissão» que vem da cidade, supostamente Jerusalém, situada à esquerda, em direcção ao Golgotha, situada no lado direito do plano; nesse mesmo plano, mas um pouco mais próximo, homens condenados à morte, Cristo e dois ladrões, são conduzidos para o lugar da execução por um grupo de soldados com túnicas vermelhas e montados a cavalo; no primeiro plano, o quadro descreve realisticamente figuras diversas, camponeses, pastores, jornaleiros, etc, nas mais diversas situações e propósitos. O quadro de Bruegel é visualmente mais complexo do que esta breve descrição deixa entrever, pois a simples divisão desse quadro nos seus dezassete «nós», «pontos de vista» ou «perspectivas» implicariam dezenas de páginas para a sua descrição se poder esgotar. E, atenção, refiro apenas a descrição dos elementos visuais do quadro, pois a esta haveria de seguir-se, naturalmente, a interpretação e a formulação de juízos iconográficos e estéticos, de modo a encontrar o sentido estético e filosófico, ético e político do quadro. Foi a essa missão que se dedicou, pelo menos em parte, o realizador Lech Majewski, cineasta com dupla cidadania norte-americana e polaca, no seu filme «O Moinho e a Cruz» (2011). Neste filme, que estreou quase despercebido esta semana numa sala de cinema de Lisboa, Lech Majewski, num arco que vai do pós-modernismo ao início da Época Moderna, do relativismo actual à nostalgia do conservadorismo de matriz religiosa, da laicidade do presente à sociedade cristã flamenga e europeia do século XVI, promove o encontro do universo visual, estilístico e filosófico de Peter Bruegel com as mais recentes técnicas das imagens geradas por computador (CGI) e efeitos visuais em 3D. Ao fazê-lo, levando para a tela do cinema o código visual surrealista, simbólico e realista Bruegeliano, combinando, com o auxílio da referida tecnologia, na mesma imagem-plano, a imagem real e a imagem digital, criando entre estas duas uma relação verdadeiramente orgânica, em que a imagem real se funde, e é um prolongamento, da imagem digital e esta se liga simbioticamente à outra, Lech Majewski criou uma das mais fascinantes e originais experiências cinematográficas a que assisti nos últimos meses. Com «O Moinho e a Cruz», Lech Majewski, não só fundou uma nova matriz visual no cinema (os exemplos apontados por Jorge Mourinha, «A Inglesa e o Duque» (2001), de Eric Rhomer e «A Ronda da Noite» (2007), de Peter Greenaway, embora pertinentes, têm apenas uma relação superficial com «O Moinho e a Cruz», e, além disso, e sem desenvolver o tópico, direi que estão muito distantes, na forma, no conteúdo e nos objectivos do filme do realizador polaco), como dissipa, desfaz e destrói os rumores muito frequentes, mas sempre sem confirmação na realidade, do fim do cinema. «O Moinho e a Cruz» aponta para um caminho, entre a miríade de outros possíveis, que o cinema também pode e deve seguir.