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"Quem quer ser Bilionário?": apoteose do telelixo

22.01.2009 - Vasco Câmara
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Vai ser o ano dele nos Óscares, diz-se. Faz sentido. É a apoteose da televisão.

Amitab Bachchan, "lenda" de Bollywood que teve o seu zénite nos anos 1970, escreveu a semana passada no seu blogue (e citamos o "Guardian") que se o retrato que "Quem Quer Ser Bilionário?" faz da Índia como "país sujo no baixo ventre do mundo está a causar dor e desgosto entre nacionalistas e patriotas, que se fique a saber que há um baixo ventre sujo que existe e floresce nas nações mais desenvolvidas."

Que estas declarações sejam proferidas por Bachchan não deixa de ser simbólico: para além de ser a maior estrela indiana, a sua "personagem" entra na ficção de "Quem Quer Ser Bilionário?". O "astro" é uma das figuras que o adolescente do filme, habitante de um bairro da lata de Bombaim, encontra, como quem vai directo à divindade que desceu à terra. Numa sequência em que se roça, aliás, a abjecção: para "furar" a multidão que se acotovela em torno da estrela que desceu dos céus em helicóptero, o nosso pequeno herói mergulha num poço de excrementos para, com o cheiro, conseguir afastar a multidão. Adiante...

"Quem Quer Ser Bilionário?" é o pequeno-filme-acontecimento deste ano e, pelos vistos, destes Óscares (10 nomeações, abaixo das 12 de "The Curious Case of Benjamin Button", mas é do filme de Boyle que todos falam e nele aposta-se para vencer nas categorias principais). Os tempos mudaram, admiram-se alguns, gritam outros, por um filme sobre a Índia, com personagens de Bombaim, estar a enternecer tanta gente no primeiro e ocidental mundo, sobretudo na América que não costuma ser curiosa em relação ao "outro". (Parece-nos, com isso dos "tempos mudaram", que se está a apostar sobretudo nas expectativas mais íntimas, logo menos rectificadas pela realidade; como se diz, é "wishful thinking". Ou então é participar do coro: a tão inebriante, tão esperada "era Obama"... que se vai instituindo como atraente slogan)

Ou seja, entre a ingenuidade e o oportunismo.

Os aplausos, os prémios (Globo de Ouro para o filme, para o realizador, para o argumentista Simon Beaufoy e para o compositor AR Rahman, agora as 10 nomeações) são ocidentais. As vozes indianas que mais se têm feito ouvir protestam contra aquilo a que chamam "Indian exotica" ou "pornografia da pobreza" - essa coisa da violência, crime e dos bairros da lata com exotismo musical em fundo. Esses protestos eram esperados, escreveu-se já neste site. Esta semana, por exemplo, o filme estreou em Bombaim, e Danny Boyle teve de responder a essas acusações. Disse que quis mostrar a incrível "capacidade de regeneração" dos 17 milhões de habitantes da cidade.

Há quem responda aos ataques indianos argumentando que se trata de nacionalismo deslocado. E pode ser (voltando a Bachchan: escreveu que se ""Quem Quer Ser Bilionário?", filme baseado no livro de Vikas Swarup, diplomata indiano, não tivesse sido realizado por um ocidental o filme não teria o reconhecimento global que está a ter; já lhe responderam que foi um ocidental que fez o filme porque a indústria indiana fechou-se nos musicais e na fantasia e só um ocidental consegue olhar a realidade).

A questão, no entanto, não é essa oposição entre fantasia/realidade. O filme de Boyle não é mais "real" do que um musical de Bollywood - aliás, o filme de Boyle acaba como um musical de Bollywood, tentativa de passar a mão pelo pêlo do espectador indiano. A questão é esta: não há razão para começar a gostar agora do cinema de Danny Boyle. Que continua incorrigivelmente superficial, capaz de sacrificar a própria mãe (qualquer possibilidade de atribuir nobreza às personagens; qualquer hipótese de deixar a realidade mostrar-se) por um efeito. Ele quer gritar "pop" e fazer-se ao ar do tempo, multiculturalismo, mistura, "sujidade". Mas... isso é o quê? Mergulhar uma personagem num poço de excrementos e conseguir com isso provocar gargalhadas? É ter M.I.A. na banda sonora?

A relação que "Slumdog Millionaire" tem com a realidade - e não falamos apenas dos bairros da lata de Bombaim - é a mesma de um concurso televisivo. Ou seja: ideias feitas que se pintam com ligeireza, facilidades redentoras que se simulam, vidas que se espremem no tempo de um espectáculo e para dar espectáculo. Passou a ser essa a fantasia da nossa existência: já não é o cinema, agora é a televisão. Danny Boyle atraca-se a isso como um parasita. E assim "Slumdog Millionaire" é uma apoteose. É muito "hoje". Torna-se significativo. É essa a maior partida deste filme.

Não há outra razão para explicar o sucesso de "Slumdog Millionaire".

Foi você que pensou na palavra "telelixo" (e não estamos a falar dos bairros de lata de Bombaim)?


Comentários
comentario 1 a 10 de um total de 16
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comentario10.02.2009 - 14:37 - Anónimo, porto
....netlixo como esta sua critica já vi por aí...a frustração é uma coisa lixada...
comentario04.02.2009 - 17:36 - Nuno Martins, Coimbra
Começo por dizer que já vi o filme e que gostei muito! Não posso no entanto deixar de escrever o seguinte comentário: Estive a ler atentamente a crítica ao filme feita pelo Sr. Vasco Câmara, que, como qualquer crítica, é subjectiva, e sobre a qual não podemos afirmar se está correcta ou não, por ser isso mesmo, uma crítica. O que podemos criticar é o facto de que o que lá está escrito sobre o que se passa numa parte do filme, estar errada. Ora este simples (ou não) erro destrona, para mim, qualquer possibilidade de se levar a sério o comentário deixado pelo crítico, Fiando eu sem perceber se o Sr. Vasco Câmara viu realmente o filme.
comentario04.02.2009 - 01:20 - Pedro, Matosinhos, Burkina Fasso
"O filme Slumdog Millionaire deu ontem a vitória a Danny Boyle nos prémios da Directors Guild of America, a associação profissional que congrega os realizadores de cinema e televisão"
comentario26.01.2009 - 10:25 - José Costa, Luanda, Angola
Os países em desenvolvimento, sobretudo os seus líderes, odeiam quando os seus podres são retratados por pessoas externas e começam com as habituais queixas: "o ocidente só mostra, e exagera, os nossos pontos fracos" e assumem sempre que o ocidente assume que não existe pobreza dentro das suas fronteiras. Slumdog, boa sorte.
comentario26.01.2009 - 02:52 - francisco delgado, Boston, EUA
"Numa sequência em que se roça, aliás, a abjecção: para "furar" a multidão que se acotovela em torno da estrela que desceu dos céus em helicóptero, o nosso pequeno herói mergulha num poço de excrementos para, com o cheiro, conseguir afastar a multidão. " O que este senhor aqui diz é pura mentira, o então não percebe o que vê. Está aqui a cena: (...)
comentario25.01.2009 - 23:18 - Justino Vale, Lisboa
Apetece dizer que o crítico nada percebe de Cinema. Não conhece a produção de Bollywood que Slumdog procura ironizar. Não consegue ver a qualidade da realização, da cinematografia, da edição, da música, ... enfim duma história bem contada. Apetece pedir que vá rever os filmes de Manoel Oliveira, esses sim, muito provavelmente na sua opinião, obras primas do 7ª arte. Mas, felizmente, o texto não é para levar a sério! Quem escreve: "para "furar" a multidão que se acotovela em torno da estrela que desceu dos céus em helicóptero, o nosso pequeno herói mergulha num poço de excrementos para, com o cheiro, conseguir afastar a multidão" obviamente não viu Slumdog Millionaire. Apenas viu o "trailer"! Para quê comentar?
comentario24.01.2009 - 15:16 - Passenger, Porto
Alguns destes comentários são hilariantes! Então o amigo que vai ao ponto de perceber tão pouco do filme que clama ter gostado que a sua melhor defesa é dizer que está cheio de planos muito cuidados... não deve perceber muito bem porque se usam câmaras de mão... ou não sabe o que são... Amiguinhos, concordem ou não, esta é uma perspectiva. Apoio e oponho-me frequentemente ao gosto dos críticos do Ipslon, como de todos os outros, mas sem dúvida que ninguém analisa cinema tão bem, com tanto pormenor, como estes senhores. Há muito cinema por aí, algum dirigido à mente, algum dirigido ao coração e muito dirigido a quem não percebe nada de cinema. Para o primeiro vejam Fome. Para o segundo vejam Quatro Noites Com Anna. Para o terceiro deleitem-se com Slumdog Millionaire. Façam bom proveito! ---------- Blog: (...)
comentario23.01.2009 - 16:24 - Anónimo, Lisboa
Desculpem lá, se o Jorge Leitão Ramos pode dizer BEM (????) do Veneno Cura de Raquel Freire, o Vasco Câmara bem pode dizer mal do Slumdog Millionaire!
comentario23.01.2009 - 16:19 - Anónimo, Lisboa
Sinceramente, não percebo! Os críticos são presos por ter cão e presos por não ter - se fazem uma boa crítica a um filme, digamos, de autor é porque são pseudo-intelectuais, que fazem uma boa crítica a um filme dito comercial é porque não percebem de cinema, e depois se ousam trocar as voltas é um ai jesus: querem destruir o cinema português, ou são acusados de achar que o comercial não pode nunca ter qualidade! Meninos, as críticas servem um propósito e temos todos cabeça para pensar! Leio semanalmente as críticas de todos e mesmo assim sou capaz fazer um juízo crítico, meu, sobre o que vejo. às vezes concordo, outras vezes não. E ainda bem! Quer dizer que eu sou eu e o outro é o outro. Pessoalmente, detestei este filme, acho piroso, cansativo e de mau gosto. E acho uma desilusão tanto êxito, mas não acho nada de novo! Alguém ousa ir contra a corrente e é atacado por isso? Sinceramente, crescam e aprendam a aceitar as visões diferentes que cada um tem do mundo e, principalmente, a construirem o vosso próprio juízo sobre o que vêem, lêem etc.
comentario23.01.2009 - 15:07 - Anónimo, Lisboa
Não compreendo parte dos comentários aqui feitos. Acho que a maioria das pessoas critica os críticos por criticar e só por não concordar com as suas opiniões e nunca deve ter lido ou aprendido em lugar nenhum que a crítica é suposto ser-se apaixonada (e daí parcial) e por isso não é obrigatório que todos gostem do mesmo. E ainda bem. E quanto ao Vasco Câmara, que não conheço, mas me vejo obrigado a defender, tenho apenas a dizer que enquanto editor do ípsilon já fez capas de grandes êxitos de Hollywood (e estou a lembrar-me da capa ao James Bond na semana em que estreava o Juventude em Marcha, ou seja atitude pouco pseudo-intelectual... dar primazia ao 007 na semana do melhor filme do cinema português dos últimos anos), filmes de Hollywwod aos que também já deu 5 estrelas e quanto a "Slumdog" (que também eu acho um desastre de filme), se ele seguisse as críticas estrangeiras, como aqui vocês dizem, não teria escrito uma linha do que escreveu, já que o Libération e outro tais falam em regresso magnífico de D.B. Mas enfim... criticar os críticos é fácil... já escrever uma boa crítica não é para todos... ah planos cuidados e interessantes??? planos cuidados e interessantes? história? isso quer dizer o quê? ler o Daney não fazia mal à maioria das pessoas que se divertem a criticar os críticos.
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