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Entrevista

Jim Jarmusch: independente sem limites

07.08.2009 - Luís Miguel Oliveira
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Jim Jarmusch personifica a independência no cinema americano - como independência de espírito, porque é a independência de um homem antigo, que não arreda pé. Como se vê nesta entrevista em que se atira à cultura de massas, aos "malditos" EUA, ao "cinismo disfarçado de pragmatismo, que agora está outra vez na moda". Tudo isso está na fábula "Os Limites do Controlo", que convoca rituais de filme negro e ideais de samurai para descrever a missão de um assassino contratado.

"Os Limites do Controlo", o mais recente filme de Jim Jarmusch, estreou-se na semana passada em Portugal. Jarmusch, americano do Ohio adoptado por Nova Iorque nos anos 70, assina com ele a sua primeira obra integralmente "estrangeira": todo o filme se passa em Espanha, entre Madrid e a Andaluzia. É uma fábula, que convoca rituais de filme negro e ideais de samurai para descrever a missão de um assassino contratado. Com muitas pausas e muitas esperas - "um filme de acção sem acção", diz Jarmusch na entrevista - preenchidas com a observação e a escuta de um mundo - pintura, música, ciência - palpitante de diversidade.

Jarmusch, que começou a filmar no princípio da década de 80, personificou a "independência" no cinema americano muito antes de o Festival Sundance e a Miramax (não exclusivamente) terem transformado essa independência numa indústria a replicar noutra escala os códigos e os processos de Hollywood. Continua a personificá-la, mais do que nunca, como uma independência de espírito. Trinta anos depois de "Permanent Vacation", Jarmusch é como um célebre herói de Nicholas Ray (esse lendário "maverick" de quem Jarmusch colheu o testemunho, no tempo em que foi seu assistente na escola de cinema de Nova Iorque): "He hasn't moved". Em tradução livre, diríamos que não arredou pé. Como esta entrevista deixará perceber.
 
"Os Limites do Controlo", que título formidável... Onde é que o foi buscar?

A um ensaio de William S. Burroughs [publicado em 1975], que se chamava assim. Queria apenas usar o título, fazer um filme com esse nome, que é, de facto, formidável. Mas depois, de certa maneira, no filme acabaram por ficar alguns ecos dos temas que Burroughs abordava nesse ensaio, os mecanismos de controlo da linguagem e, a partir da linguagem, de controlo do pensamento. E, claro, as fendas que se abrem nesses mecanismos, os seus limites. Mas a ideia nunca foi adaptar o ensaio, apenas ficar-lhe com o título.

Olhando para "Os Limites do Controlo" sob determinada perspectiva, é capaz de se tratar do filme mais profundamente político que já fez.

Eu diria mais filosófico...

O que não exclui uma forte ressonância política...

Não, claro que não, ela está lá e espero que seja perceptível. Mas o tema da consciência tem uma amplitude filosófica inesgotável, preocupou todo o tipo de pensadores nos últimos milhares de anos, e é a questão essencial do filme: o que é que faz com que um indivíduo seja um indivíduo? Que tenha a sua consciência e não uma consciência ditada por outros? Que siga o seu caminho em vez de ir atrás do rebanho?

Mas é aí que justamente, transposto para o contexto contemporâneo, se torna num tema político. O seu interesse em "culturas" marginais aos grandes centros de difusão e promoção, em "jardins" como numa entrevista antiga lhes chamou, já vem de há muito tempo, mas em "Os Limites do Controlo" é um interesse que entra em oposição clara, e até agressiva, com a chamada "cultura de massas"...

Acho que só comecei a explorar esse interesse, deliberadamente, com "Homem Morto" [1995]... Mas sim, com certeza. Desconfio, por natureza, da cultura de massas, e angustiam-me os seus cada vez mais perfeitos métodos de controlo do seu poder de persuasão. A maneira como leva as pessoas a abdicar da sua própria imaginação e a substituí-la por uma imaginação prefabricada. A decidir o que é aceitável e a pôr de lado o que não é, e a violência com que o faz. É um poder cada vez mais refinado. Eu próprio às vezes dou por mim com coisas que a cultura de massas pôs na minha cabeça. E tenho que fazer um esforço para as tirar de lá, porque não quero que elas lá estejam [risos]...

Acha que o panorama é agora mais sufocante do que há trinta anos, quando começou a filmar?

Havia ilhas, até em sentido geográfico, por exemplo em Nova Iorque [para onde foi viver nos anos 70]. Era mais fácil viver à margem. Hoje é muito mais opressivo. Além de que, pelo menos nos EUA, se se tiver alguma ambição artística, ou se se quiser criar alguma coisa movido primordialmente por um princípio artístico, a tendência é que se seja tratado como lixo.

Podia contar-lhe o que se diz em Portugal dos artistas, e dos cineastas portugueses, mas não quero angustiá-lo... Mas, portanto, "Os Limites do Controlo" narra a história da vingança da margem sobre o centro?

A vingança é inútil [uma má escolha de palavras do entrevistador proporcionou a "recriação" de um diálogo do filme: na cena final, Bill Murray pergunta a Isaach de Bankolé "Isto é o quê, uma vingança?" e Isaach responde, exactamente como Jarmusch, "A vingança é inútil"]. É uma metáfora, uma metáfora de uma tomada de consciência e de uma afirmação da consciência contra todas as imagens e ideias que lhe são impostas de fora. A personagem de Bill Murray é uma representação dos poderes convencionais de todo o tipo, político, económico, cultural. Nunca pude com aquele cinismo disfarçado de pragmatismo, que agora está outra vez na moda, que nos quer convencer de que o mundo é "assim" e só "assim". O "vocês não sabem nada da vida", o "não é assim que o mundo funciona", seguido da conveniente explicaçãozinha cínica. Têm que escrever a pensar nisto, têm que fazer filmes a pensar naquilo - sempre "as massas" e, o que é igual, o "dinheiro". Abdiquem da vossa individualidade, abdiquem da vossa imaginação. Ao diabo com essa gente toda. O discurso da personagem de Bill Murray nessa cena é um repositório desse tipo de frases feitas.

Já tinha filmado fora dos Estados Unidos ["Noite na Terra", de 1994, tem vários "sketches" rodados na Europa], mas foi a primeira vez que fez um filme inteiro no estrangeiro.

É verdade. E, no fundo, eu sei que não era preciso. Esta história podia ter sido filmada em qualquer lugar do mundo, inclusive nos EUA. Mas achei que seria inspirador lidar com outros cenários, outras culturas, debater-me com outro tipo de estranheza. E foi. Além do mais, foi óptimo passar uns meses longe destes malditos Estados Unidos, para desenjoar [risos].

E Espanha porquê?

Nenhuma razão especial, intuição simplesmente. Meti na cabeça que tinha que ir filmar em Espanha. Conhecia bem Madrid, e há anos que estava fascinado com aquele prédio de formas arredondadas que se vê no filme [um prédio vagamente reminiscente de Gaudi, mas obviamente não dele, impossível identificar o arquitecto - se algum leitor souber, faça o favor de dizer]. E Sevilha é uma das minhas cidades preferidas, é quase um fetiche [risos]. E finalmente a zona de Almeria foi o local onde foram rodados todos aqueles maravilhosos "western spaghettis" dos anos 60 e 70. Sabia que Espanha me ia dar muito com que me entreter.

Mas Espanha tem também uma coisa a que é sensível, e aliás isso está no filme: é um país "moderno", no sentido em que pertence ao "primeiro mundo", mas também é um país muito antigo, cheio de histórias e de marcas delas...

Indubitavelmente, sim. O muito novo e o muito velho coexistem plenamente. Reparou nos moinhos que se vêem na cena do comboio? Aquilo é a zona da Mancha, não há os moinhos do Dom Quixote mas há aqueles moinhos modernos, muito brancos, eólicos... E ainda há outra coisa, que é a incrível mistura cultural que Espanha albergou. Pensar que foi um sítio onde os cristãos, os judeus e os muçulmanos viveram em paz uns com os outros... Até ao momento em que os cristãos decidiram correr com eles, claro [risos]. Mas portanto não são só as marcas do tempo que Espanha conserva, são também as marcas desse trânsito cultural. A arquitectura mourisca... E os ciganos, o flamenco...

Há muitas pequenas citações ao longo de "Os Limites do Controlo", e entre elas até há, não juro que seja a primeira vez que o faz mas nunca o fez assim, algumas autocitações, como todas aquelas cenas de "café e cigarros". Sendo sempre grave, e quase sempre sério, é um filme muito divertido, a sisudez está sempre a ser desfeita por uma brincadeira qualquer...

São autocitações, com certeza. É uma maneira de cortar o dramatismo. Queria que o filme tivesse esse tom sério e grave mas ao mesmo tempo que esse tom fosse sempre não-dramático. Uma espécie de filme de acção sem acção [risos], todo à base de pequenas situaçõezinhas.

Mas também é um filme sobre a ética e a autodisciplina. O protagonista é um parente próximo do Ghost Dog [personagem do filme homónimo, um samurai contemporâneo].

Sim, é um parente do Ghost Dog. É uma autodisciplina de praticante de artes marciais. Que, para mim, são uma coisa espiritual, muito mais do que física. Têm a ver com uma apreciação e uma aceitação da própria consciência, e a partir daí com o encontro de um posicionamento individual no mundo. O que não implica um centramento: esta personagem está sempre muito atenta ["aware"] ao mundo, muito observadora, aprende com tudo.

Mas não se distrai com nada. Também vem um bocadinho dos heróis de Jean-Pierre Melville [o realizador de "O Samurai", com Alain Delon] não vem?

Um bocadinho. Mas também de uma personagem dos romances de Donald Westlake, ou dos que assinou com pseudónimo [Richard Stark], que foi interpretada por Lee Marvin no "Point Blank" de John Boorman. Esta personagem também tinha como imperioso não se distrair com nada.

Uma das brincadeiras do filme é uma referência, sem o nomear, ao seu amigo Aki Kaurismaki. Continua a ser um cinéfilo? O que viu ultimamente que mais o entusiasmou?

Oh, sim, absolutamente. Estou sempre a ver filmes. A perspectiva de passar o resto da vida a ver filmes, seja a rever os de que gosto seja a descobrir os que nunca vi, é uma coisa maravilhosa. O que me entusiasmou recentemente?... [pausa] Ainda não o vi, mas estou ansioso pelo novo filme de Michael Mann, "Inimigos Públicos". Não sou um incondicional, mas tenho cada vez mais respeito e interesse pelo seu trabalho. De resto, ultimamente, vi uma retrospectiva Straub/Huillet de cabo a rabo, e agora ando a ver uma retrospectiva Nicholas Ray... Conheço os filmes todos de cor e salteado, mas nunca resisto a vê-los mais uma vez.


Comentários
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comentario07.08.2009 - 21:04 - Anónimo, CALDAS DA RAINHA
Desaconselho vivamente este filme. Não passa de um aglomerado de clichés dos filmes de acção. Procura ter a pretenção de uma peça de Beckett, ou seja, ser simples e potente, mas a verdade é há uma grande diferença entre ser simples ou simplista. Neste filme o vazio é grande, existe uma falta de conteudo, mas tem toda a aparência de ser qualquer coisa de importante. Concordo igualmente que hoje em dia a palavra "independente" se usa de forma indeterminada e exagerada. Este filme é uma colecção de actores todos numa grande colagem como se fosse uma passeio num jardim zoologico. Olha o Gael García Bernal, olha o Bill Murray, olha a Tilda Swinton...
comentario07.08.2009 - 20:10 - pedro, fx
A fantasia da independência... Alguém ainda acredita nisso?! A independência só se constrói em cima da dependência, com ela e contra ela... Não há anões, nem gigantes, apenas pontos de vista... O novo constrói-se com o velho... se não, nada....
comentario07.08.2009 - 19:13 - Anónimo, Lisboa
Anões! é a vocês que ele critica.
comentario07.08.2009 - 17:23 - Fernando, Braha
Provavelmente quererá dizer que os seus filmes são uma seca e na defesa do cinema como negócio e meio de entretenimento preferem poupar as pessoas a tal.
comentario07.08.2009 - 12:24 - Anónimo, lisboa, portugal
ele é tão independente, como eu sou do trabalho. tem o seu mercado e mais nada.
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