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28.10.2011 - Francisco Valente
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Um olhar sobre a fantasia do corpo e a ilusão do cinema na cidade dos nossos sonhos. É um filme de Frederick Wiseman sobre o famoso cabaret de Paris, cidade próxima do documentarista norte-americano, na qual tem realizado parte dos seus trabalhos recentes

Depois de "A Dança" (2009), documentário sobre o Ballet da Ópera Nacional de Paris, Frederick Wiseman regressou à capital francesa para fazer um documentário sobre o Crazy Horse, histórico cabaret da cidade e palco de sugestivas coreografias de despidos corpos femininos. Entre os dois projectos, realizou "Boxing Gym" (2010), documentário sobre um ginásio de boxe no Texas. Em Lisboa para abrir o Doclisboa com "Crazy Horse", ontem estreado, Wiseman admitiu, ao Ípsilon, a ligação existente entre os seus últimos filmes. Tal como os outros, "‘Boxing Gym' é um filme sobre dança", confessa-nos. Por outras palavras: "a disciplina e a coreografia, as carreiras curtas, o controlo sobre o nosso corpo, o facto de haver poucas pessoas com sucesso nesses trabalhos." Mas o interesse de Wiseman pela dança equivale-se às outras áreas que vem retratando no seu cinema há mais de 40 anos; e se existe um denominador comum, será o elemento natural que colocamos ao serviço do nosso trabalho. "Muitos filmes meus são sobre os usos específicos aos quais submetemos, ou não, o nosso corpo", explica. "O filme que fiz num mosteiro ["Essene", 1972] pode ser visto como [um documentário] sobre a negação do corpo. Os filmes militares são sobre corpos ao serviço do Estado. ‘Domestic Violence' (2001) é sobre o abuso feito sobre o corpo. ‘Hospital' (1970) e ‘Near Death' (1989) olham para a doença. E os filmes sobre dança entram também nessa categoria, pela criação de formas bonitas a partir do corpo."

Mas "Crazy Horse" é, mais especificamente, sobre a construção de uma sensação - a sensualidade -, a partir do que temos de mais natural. Ou seja, um trabalho sobre o uso do nosso elemento natural - o corpo humano - para criar um artifício que corresponda à imagem de um desejo e da instituição que o promove - o Crazy Horse. Wiseman acrescenta: "É isso, mas também sobre uma fantasia e como esta é criada para sugerir ideias de erotismo e sensualidade. Se são eficazes ou não, caberá ao espectador decidir."

A cidade dos sonhos

O documentarista mostra-nos os ensaios das bailarinas que compõem os espectáculos, assim como o discurso, na equipa criativa, sobre a ideia de construção artística que alimentará a fantasia dos espectadores aí presentes. No fundo, ideias que se assemelham à perspectiva de Wiseman na construção de um documentário: uma impressão da sua perspectiva sobre a realidade que assume, pela escolha de planos e posterior processo de montagem, a sua dose de artifício. "Tudo o que tem a ver com um filme é artificial e tudo o que está nele tem a ver com uma escolha. Cria-se algo de artificial que é baseado na realidade." O realizador procura "uma experiência a partir da qual consiga construir um filme. E se o filme tiver sucesso, cria uma ilusão, por muito momentânea que seja, que os eventos que aconteceram no filme tomaram lugar tal como os vemos aí."

Wiseman filma a construção dos espectáculos do Crazy Horse: obras que procuram seduzir espectadores pela sensualidade e ilusão de um jogo de luzes, sombras e espelhos, e que se deixam mergulhar, por aí, na projecção do seu próprio imaginário. Filma também projectores de cores quentes que se inspiram no universo de Michael Powell (também autor de um cinema de sedução), ou momentos compostos por projecções de sombras do corpo humano que nos remetem para os inícios do cinema. No rés-do-chão e cave do Crazy Horse, como a sala escura dos nossos sonhos, Wiseman parece-nos dizer que o cinema é o meio sensual por excelência. "Sim, é verdade, e parte deste filme é sobre filmes. A iluminação e a forma como os corpos das bailarinas são iluminados é um aspecto muito importante no espectáculo do Crazy Horse, e tirei partido disso para o filme."

O cinema de Wiseman tem-se focado no funcionamento de várias instituições e no seu processo de trabalho. Contudo, e apesar da vida exterior à "caverna" pouco interessar para o olhar do seu filme, Paris ocupa um lugar central na vida do documentarista.

"Fui viver para Paris depois do meu curso de Direito e de ter feito a tropa", conta-nos. Viveu dois anos na cidade em meados dos anos 50, um local que serviu de aprendizagem para os seus sentidos. "Em Paris, ia ao cinema e ao teatro quase todos os dias. Mas já tinha ido ao Crazy Horse - a primeira foi em 1957, com o meu padrasto", lembra-se. "Depois, fui numa outra visita para estudar o espaço e ver se gostaria de ali fazer um filme. Falei com a administração e comecei a filmar dois dias depois." Atravessar o Atlântico para viver na capital francesa serviu para cumprir uma fantasia de vida numa cidade que personifica os nossos sonhos. E estar aí presente para nos alimentarmos diariamente de cinema é o cumprimento máximo dessa fantasia. "Exactamente. Tenho trabalho lá nos últimos dez anos, em que fiz três filmes e duas peças na Comédie Française, e vou começar uma terceira na Primavera. A primeira foi ‘The Last Letter' [baseado em "Life and Fate" de Vasily Grossman] e a segunda ‘Happy Days' de Beckett, em que também fiz o papel de Willie, que foi maravilhoso. Dirigi a peça e tive a minha estreia enquanto actor na Comédia Française, foi dos momentos mais divertidos da minha vida. Agora, será uma peça sobre a vida de Emily Dickinson, ‘The Belle of Amherst'."

Película e HD

O interesse por teatro e literatura não virá apenas da extrema curiosidade que alimenta o olhar do realizador de 81 anos, mas também da sensibilidade com que filma, nos meandros do documentário, as capacidades dramáticas das pessoas que lhe dão uma experiência de vida para a câmara.

"Uma das experiências que retiramos de fazer documentários é pensar em que é que consiste actuar, tanto num palco, como nas pessoas filmadas fora dele mas que são muito dramáticas", explica. Recorda-nos uma experiência realizada no Centre Pompidou, em Paris, há seis anos: "Dei o diálogo de quatro cenas de ‘Welfare' a quatro actores. Cada um actuou a sua sequência e depois mostrei as cenas originais. Em alguns casos, estavam muito fiéis à cena original, noutros eram interpretações completamente diferentes. Surge aí a questão de saber se alguém pode assumir uma variedade de papéis diferentes. Não temos esse alcance no nosso repertório, mas conseguimos, apesar de tudo, fazer coisas incrivelmente dramáticas dentro do nosso alcance. Quando isso está enquadrado num filme, torna-se numa performance." Uma perspectiva sobre a realidade que tem alimentando o seu interesse e uma carreira essencial no cinema do documentário.

Propomos, então, uma possível definição deste, lembrando o contexto de "Crazy Horse": filmar um documentário como quem capta uma actuação baseada na realidade, sem um ensaio prévio. "A pretensão de um documentário está em obter uma sequência de acontecimentos com diálogos que, apesar de não terem sido escritos como em livros e peças, são reconhecidos enquanto tal", diz. "Quando penso em algumas sequências que consegui capturar em filme, teríamos de ter muita imaginação para nos conseguirmos lembrar de algumas daquelas falas e torná-las credíveis." Por outro lado, explica que "são apenas pessoais normais que o exprimem" e que teve "a sorte suficiente de estar presente quando isso aconteceu. Esse é o risco que encontramos em cada filme, tal como conseguir encontrar sequências que poderão sugerir alguma beleza física [no corpo do filme]." Nesse aspecto, "interessa-me tanto a estética de um filme como ‘Welfare' (1975) como ‘Crazy Horse', e isso requer apenas uma maneira diferente de filmar", diz. Neste último filme, viu-se obrigado a abandonar a sua tradicional película de 16mm para filmar, pela primeira vez, em HD. "Não acho que seja mau, embora não acredite que seja tão bom como filmar em película. Com a correcção de cor no digital, podemos chegar a uma imagem que se aproxima dela."

O seu próximo filme será sobre a Universidade de Berkeley, Califórnia, um documentário que estará mais próximo do recente "State Legislature" (2007), menos performativo. "Parte do que é interessante em fazer estes filmes está em ser sempre uma aventura: nunca sabemos aquilo que vamos encontrar. Sempre que começo, é como lançar os dados, e fico sempre curioso para ver o que vai acontecer."