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António Banderas
MICHAL CIZEK/ AFP

Quem quer ser gato que lhe vista a pele

17.11.2011 - Helen Barlow (Tradução de Bruno Sousa Villar )
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Foram pioneiros, chocaram a Espanha pós-franquista com a sua exuberância. Falamos de Pedro Almodóvar e de António Banderas. Há duas décadas que não filmavam juntos. O reencontro, com "A Pele em que Vivo": melodrama "hitchcockiano", talvez "cronenberguiano", decididamente "almodovariano".

Senhor de energia sem limites, nasceu para dar voz a um gato espadachim. Depois de fornecer um sotaque espanhol carregadíssimo a três filmes da tetralogia "Shrek", o seu Gato das Botas foi agora honrado com um filme em nome próprio que tomou de assalto o "box-office" americano. Ninguém merece mais o sucesso do que Banderas, um infatigável actor de 51 anos que intepreta, canta, dança e realiza... O exemplo mais evidente desta multidisciplinaridade aconteceu na edição de 2004 do Festival de Cannes, quando Puss foi dado a conhecer enquanto parte integrante de "Shrek 2" pelo produtor da Dreamworks Jerry Katzenberg. A promoção foi difícil, principalmente nas entrevistas a uns tímidos e apagados Mike Myers e Eddie Murphy, mas quando chegou a sua vez, Antonio calçou as botas de cowboy. (Puss foi fundamental no guindar de "Shrek 2" aos 436 milhões de dólares nas bilheteiras dos EUA, com a predominantemente cidade latina de El Paso no Texas a registar a maior média de espectadores por sala.)

À época Banderas correu mundo em acções de promoção, seguindo agora as mesmas pisadas com "O Gato das Botas" (estreia portuguesa a 1 de Dezembro), na companhia de Selma Hayek, a actriz que vocaliza Kity Softpaws, com quem Antonio já partilhou o ecrã em "Desperado" (1995), filme em que foi um mariachi com gosto por armas de fogo, e "Once Upon a Time in America" (2003). Embora não ainda anunciada, parece inevitável a sequela. Motivo de regozijo para Banderas, que ama a comédia e é remunerado por isso (a DreamWorks costuma pagar 10 milhões de dólares a cada voz de estrela). No entanto, encontra-se inteiramente votado ao seu maior compromisso, "A Pele em que Vivo", o seu primeiro filme, em mais de duas décadas, com Pedro Almodóvar, o realizador que o conduziu aos olhos e bocas do mundo com "Labirinto de Paixões" (1982), "Matador" (1986), "A Lei do Desejo" (1987), "Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos" (1988) e "Ata-me" (1990).

"Foi há nove anos que Pedro me falou do filme pela primeira vez", recorda Banderas, "mas depois as coisas arrefeceram de tal maneira que pensei que a ideia se tinha esfumado. Até um dia em que me encontrava em Nova Iorque e o meu telefone tocou - era Pedro. ‘Hey, estás bom? Está na hora!". Eu disse: ‘OK!'"

Pedro e o monstro

"A Pele em que Vivo" é um melodrama de terror hitchcockiano - se calhar, até é cronenberguiano... -, na linha de "Frankenstein", vagamente baseado em "Tarantula", romance de Thierry Jonquet, que coloca Banderas como cirurgião plástico. Nas cenas iniciais, Almodóvar parece impor um colete-de-forças (ou uma bata de laboratório) ao seu amigo: Banderas dificilmente esboça um sorriso enquanto a personagem que o habita acaba por evoluir para o papel do cientista louco.

"Ah, ele é horrível! Um egomaníaco e um fascista à procura da perfeição, ocupando a posição de Deus. Mas Pedro não quis exibir o monstro. Essa foi a vontade principal que me transmitiu: ‘o tipo é realmente perigoso, mas é mais eficaz não explorares esse ângulo com todos os efeitos pirotécnicos, como é tendência dos teus colegas quando se vêem na pele de uma personagem como esta'. Ele sabia que tinha em mãos um filme complicado que viajava de Shakespeare à telenovela, com uma mistura de géneros pelo meio. Ele queria ter no meio uma personagem muito controlada. Personagem que acabei por aceitar e valorizar, porque lhe fui tomando o gosto, encontrando outra faceta da minha ‘persona' de actor, uma nova maneira de me expressar."

Não é aconselhável às almas mais sensíveis a metodologia de trabalho de Almodóvar. Apesar da amizade de anos que os liga, Pedro pediu ao actor que se apresentasse ao trabalho em Madrid dois meses antes de começar a filmar.

"De facto é muito tempo para ensaiar, mas, na realidade, descobri que ele não estava a ensaiar, mas a domesticar-nos. Estava a colocar-nos no seu universo para nos explicar o que queria. Ele é incrivelmente meticuloso. Os meus colegas americanos morreriam se trabalhassem com ele, porque diz-nos exactamente o que fazer com cada dedo. Ou então: ‘Não faças isso com a sobrancelha'. ‘O que é que queres dizer com isso, o que é que estou a fazer com a sobrancelha?'. ‘Seja o que for, não faças! OK, acção! O que tu acabaste de fazer com a língua, não faças!'. De maneira que temos de absorver toda a informação e traduzi-la de forma natural. Ele é muito exigente na criação da ideia ou do sonho que tem dentro da cabeça."

Um prato ácido

Banderas conheceu pela primeira vez Almodovar quando estava em cena no Teatro Nacional de Madrid com a sua primeira peça. "Estávamos à porta de um café conhecido, quando um tipo com uma mala vermelha veio ter connosco, sentou-se e começou a falar. Ele conhecia algumas das pessoas que estavam comigo nesse dia e foi divertido. Toda a gente se riu dele. Como eu tinha longos cabelos e bigode e parecia Cyrano de Bergerac, antes de ir-se embora olhou para mim e disse: ‘Tens um rosto romântico, devias fazer filmes'. Respondi: ‘Claro'. Os meus amigos disseram-me quem era e que tinha acabado de rodar um filme que ‘não iria ter muito sucesso'. Tinham razão, hein?" (mostra a sua imagem de marca: sorriso transbordante).

Para Banderas, Almodóvar é um amigo para a vida. Foram pioneiros, juntos, e chocaram a Espanha pós-franquista com tanta exuberância. Este regresso, o sexto filme em conjunto, é uma tentativa de reproduzir a vibração transgressora de "A Lei do Desejo" ou "Matador"?

"Quando esses filmes passaram pela primeira vez nos festivais, as pessoas assustaram-se", recorda. "Não sabiam como lidar com o que tinham visto. Com os anos passaram a reconhecer e a amar o processo narrativo do Pedro, até apelidando as coisas de ‘almodovarianas'. Ele entrou no vernáculo popular. Aos 62 anos continua a esticar os limites. Não pretende agradar às massas, não entrega o que o público espera dele."

Depois de 22 anos de trabalho em Hollywood, admite que está feliz com o que a América lhe deu, desde "Os Reis do Mambo", quando ainda mal falava inglês, passando por "Entrevista com o Vampiro", "Filadélfia" - estes dois, os seus papéis mais arriscados em Hollywood -, até "A Máscara de Zorro" ou "Evita". "Houve altos e baixos, mas trabalhar em Hollywood é muito diferente. Tudo é, como a comida, tão pré-digerido. Neste momento particular da minha vida, é refrescante ter o Pedro, um prato sofisticado, delicioso, com um travo ácido, perigoso. Preciso disso."

Banderas conheceu a mulher, Melannie Griffith, na rodagem de "Two Much", 1995). Deram o nó em Maio de 1996, depois dos divórcios dos cônjuges respectivos (a actriz espanhola Ana Leza e o galã Don Johnson), quando Griffith se encontrava grávida de cinco meses de uma menina chamada Stella. Banderas confessa que o amor tem sido a cola que os tem mantido unidos, apoiando a mulher na saúde e na doença, nomeadamente no combate contra o seu vício em medicamentos, mas estar casada com o amante dos amantes latinos também tem exigido de Griffith tolerância. Desde o seu reencontro com Madonna em "Evita" - depois da rainha da pop ter expresso o desejo de seduzi-lo no documentário "Na Cama Com Madonna"-, às cenas sensuais com Angelina Jolie em "Pecado Original", passando pelos números de capa e espada com Catherine Zeta Jones em "A Máscara de Zorro", Banderas não faz a coisa pela metade. Foi capaz de ir para a cama com Tom Hanks em "Filadélfia" - e já lamentou que deveria tê-lo beijado boca, coisa controversa para aqueles tempos. Também em "A Pele que Habito" decidiu tirar tudo para a cena de sexo. "Se entras numa cama com uma mulher, tens de te despir! Com um casaco não resulta!", atira, soando de facto latino.

Não obstante os cabelos grisalhos e as rugas no rosto, parece em forma. Admite que o amante latino "está a desparecer a pouco e pouco" e sente-se " melhor do que nunca e satisfeito" com a vida que tem. No próximo ano irá rodar o seu terceiro filme atrás das câmaras, depois de "Crazy in Alabama" e "Chuva de Verão". É um thriller de ficção científica chamado "Solo", sobre um coronel espanhol com um trauma. Ele que não se mostrará nada sexy em "Haywire", de Steven Soderbergh.