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David Cronenberg baseia “Um Método Perigoso” no trio Sigmund Freud, Carl Jung e a sua paciente Sabina Spielrein
NUNO FERREIRA SANTOS/PÚBLICO

Vamos falar sobre sexo

25.11.2011 - Francisco Valente
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“Um Método Perigoso” é o encontro dos dois homens -Sigmund Freud e Carl Jung - que colocaram o corpo no centro do estudo da existência humana. Cronenberg foi à procura desse momento, em Viena, que desencadeou as pulsões que destruíram um continente

Um filme sobre Sigmund Freud e Carl Jung, pais da psicanálise: parece natural que David Cronenberg se tenha interessado pelo momento em que os dois se juntaram, em 1907, na capital austríaca, para debaterem as ideias que viriam a formar os seus estudos sobre a psique humana. Autor de um cinema que parece vindo das maiores profundezas, Cronenberg pegou nos corpos das personagens para desconstruir os seus impulsos, a sua sexualidade e os seus desejos ("Crash", 1996). Entre espaços pontuados por metamorfoses ("eXistenZ", 1999; "A Mosca", 1986), as suas obras olham para o impulso mais naturalmente humano - a violência ("Uma História de Violência", 2005) - e para os limites da transformação do corpo ("Irmãos Inseparáveis", 1988). Depois de apresentar "Um Método Perigoso" no Lisbon & Estoril Film Festival, Cronenberg confessou ao Ípsilon o seu interesse em recriar esse encontro: "Quando fiz este filme, pensei nas personagens de Freud e Jung tal como o projecto de uma ressurreição. Queria trazê-los de volta à vida: senti-los, ouvi-los e vê-los, por afeição e curiosidade."

Uma visão, portanto, projectada na sua imaginação, tal como num sonho, que o realizador desejava recriar na realidade do seu trabalho. Por outras palavras, uma intenção muito associável à ideia da psicanálise, universo que se foca no uso que fazemos dos nossos corpos - a sua liberdade e os seus limites - e nos desejos que motivam os seus actos. "A maneira como Freud insistia na realidade do corpo humano não é aquilo em que a maior parte das pessoas pensa em relação à psicanálise, como o inconsciente ou o ego", diz Cronenberg. "E numa altura em que os corpos humanos eram quase desconsiderados, a revolução de Freud encontrava-se aí."

No início do séc. XX, o pensamento da Europa encontrava-se já desajustado perante aquela que era a realidade das suas pulsões - estávamos poucos anos antes de duas guerras mundiais que resultaram na destruição, primeiro, de uma geração, e posteriormente num certo fim da dignidade humana. "As pessoas queriam pensar em si próprias em termos abstractos. Os seus corpos estavam muito mais cobertos, vemos como a roupa os constrangia." Por outro lado, "Freud era um existencialista, um ateu mas judeu de origem, e isso era uma parte importante da sua vida em Viena, onde havia já muito anti-semitismo", explica o cineasta.

Criado para destruir

Mas se "Um Método Perigoso" é a história do encontro de duas mentes, é também na sua separação que se joga a sua gravidade: Jung, discípulo de Freud, começa por querer conquistar a confiança e intimidade do mestre. Mas é ao discutir o centro da sua teoria - a importância fulcral do sexo, ou como os nossos actos giram à volta dele -, que começa por alimentar um confronto com Freud. Este, por sua vez, ficará cada vez mais desiludido pela insistência de Jung em experimentações esotéricas para o estudo da psique. Contudo, é Jung quem dará razão, de certo modo, a Freud, ao sucumbir aos seus impulsos físicos mais imediatos que pôs em prática numa intimidade escondida.

"Jung foi muito influenciado por Otto Gross [paciente de Jung e psicanalista austríaco]. Com ele, começou a pensar que a poligamia seria a forma correcta de viver, e assim o fez, seguindo a ideia de haver várias mulheres para o mesmo homem." O aparecimento de Sabina Spielrein à sua clínica, o outro elo de "Um Método Perigoso", iria precipitar o avanço do seu estudo sobre a psicanálise, fazendo da paciente a sua colaboradora privilegiada. Mas no estudo da sua intimidade, Jung sucumbiria ao desejo de lhe dar prazer como nenhuma outra pessoa poderia - pelo acesso às profundezas das suas pulsões -, e faria dela a sua amante.

"O sexo foi sempre importante para Jung na sua vida, mesmo se não tanto na teoria", diz Cronenberg. "Com Toni Wolff, a amante que teve depois de Spielrein, tinha um ritual de sexo numa casa de pedra, que ele construiu com as suas mãos, com símbolos rúnicos e arianos no tecto. A sexualidade tornou-se em algo de sagrado, numa forma mística e ariana." Segundo o realizador, "Jung regressou, de certa forma, à importância primordial do sexo, mas deu-lhe uma certa volta para fazer disso algo mais aceitável."

Spielrein é o elemento de "Um Método Perigoso" que evoca a habitual atracção das personagens de Cronenberg: um apelo pela criação que vive lado a lado com a destruição, aqui presente na pulsão de morte. "Quando Freud começou a escrever ‘Para Além do Princípio do Prazer' [1920], começou a perceber, sob influência de Spielrein, que o sexo não poderia explicar tudo", diz Cronenberg. "Ele não era realmente dogmático, mas sente-se isso no filme porque, a dado momento, acha que está a ser atacado por outras forças, incluindo Jung." Mas para o realizador, "Freud aceitou as ideias de Spielrein entre sexo e morte e a aniquilação do ego. Tal como ela disse, se sexo é apenas prazer, onde está o problema? Não deveria haver, mas ele existe." E entre os dois mestres da psicanálise, "Freud foi capaz de fazer evoluir a sua teoria em direcção a uma forma bastante mais humana e realista do que Jung, que se tornou num certo ariano místico pré-cristão, uma espécie de líder religioso."

No início do séc. XX, Freud e Jung remavam, portanto, contra a maré: as forças contra as quais combatiam vinham da desconfiança de uma elite que não aceitava ver os seus desejos mais primários à luz do estudo científico. A própria aceitação de Spielrein pelos dois no seio da psicanálise foi a segunda revolução. "As mulheres eram louvadas mas como as deusas. Não era uma admiração física e não eram ‘sexualizadas', e também não deviam ser intelectuais. Freud dizia o contrário: isso era, na verdade, o que somos, e aceitar o que somos é o nosso único caminho para a sanidade". Cronenberg leu a correspondência entre os dois psicanalistas, tal como os diários de Spielrein, e viu como eles prenunciavam a tragédia em que o continente viria a cair. "A razão controlava tudo na época, mas Freud dizia que tínhamos paixões, assim como uma violência desconhecida e hostilidades tribais que podiam destruir a Europa. Estávamos antes da I Guerra, e ele tinha toda a razão."


Não é teatral, é cinematográfico

"Um Método Perigoso" tem sido descrito como uma obra tradicional para a habitual vertigem do cinema de Cronenberg. Para além do tema, o momento onde se reconhecerá mais o universo do cineasta estará no uso de Jung de uma máquina para testar as emoções dos pacientes: depois de interrogar a sua mulher, Jung vê Spielrein sentar-se no seu lugar e acariciar os instrumentos, quase que confessando a atracção que crescia entre os dois nessa metamorfose de papéis. "Isso era um galvanómetro, um detector de mentiras primitivo", explica Cronenberg. "A cena não estava escrita no guião, mas ao filmar entusiasmei-me com a possibilidade de sugerir que ela está a experimentar como será ser a mulher de Jung, sentindo medo disso mas, ao mesmo tempo, também atraída por isso." Segundo Cronenberg, Jung e Spielrein "não tinham medo de usar a tecnologia que existia para ajudá-los. Usar esses instrumentos para esse propósito específico era também algo de novo."

Mas Cronenberg rejeita a ideia de um maior convencionalismo no seu cinema. "Cada filme exige algo de específico, ouço o que ele me pede e tento dar-lhe isso. Quando fiz ‘Zona de Perigo' (1983), achou-se que era muito convencional, e depois fiz ‘A Mosca' (1986)." "Um Método Perigoso" "pode ser convencional se pensarmos que, em 1940, havia muitos filmes assim, mas hoje ninguém quer fazer filmes em que as personagens falam de forma rápida, inteligente e obsessiva." A sua próxima longa, cujas primeiras imagens foram apresentadas no Lisbon & Estoril Film Festival, parece anunciar um universo mais reconhecível. "Depois deste filme, fiz ‘Cosmopolis', que é uma obra completamente diferente [filme produzido pelo produtor português Paulo Branco]. A única semelhança é o facto de ter também muitos diálogos, mas isso não é teatral, é cinematográfico, pois aquilo que mais fotografámos foi o rosto humano a falar."