De "Sangue do meu Sangue" a "Essential Killing", escolhas de Jorge Mourinha, Luís Miguel Oliveira e Vasco Câmara
1. Sangue do Meu Sangue
de João Canijo
É disto que os "filmes do ano" são feitos: uma capacidade para se deixarem admirar e, simultaneamente, intimidarem. A versão longa de "Sangue do Meu Sangue", aquela que é mais justa para os membros desta família do bairro Padre Cruz em Lisboa já que cumpre uma utopia transversal, foi o "monumento" de 2011. Queremos ficar com estas pessoas para sempre... V.C.
2. O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores
de Apichatpong Weerasethakul
Uma reinvenção do "maravilhoso", a ligar o particular (a história e o folclore da Tailândia) ao universal. Ponto de chegada, visto que também é uma súmula de toda a obra de Apichatpong, e ponto de partida, porque é um filme que tem tudo para abrir caminho para outros filmes. Não esqueceremos o Tio Boonmee. L.M.O.
3. Autobiografia de Nicolae Ceausescu
de Andrei Ujica
Magistral trabalho de precisão sobre a imagem e os seus significados, o documentário de Andrei Ujica utiliza imagens de arquivo oficiais pré-existentes para traçar uma biografia política do líder romeno e, por extensão, de um regime e de um sistema que se transforma também numa extraordinária meditação sobre o poder dos media. J.M.
4. Aurora
de Cristi Puiu
Se alguém acha que ocinema romeno é uma moda e só uma moda, veja "Aurora". Cristi Puiu confirma-se como o mais profundo e abrangente dos cineastas romenos nesta obra onde a neurose pessoal casa com o mal estar colectivo, numa Roménia de contrastes, para tornar o confronto entre atavismos e "modernidades"numa experiência de insondável transcendência. Duro como um bloco de pedra, fabuloso. L.M.O.
5. 48
de Susana de Sousa Dias
Uma das mais extraordinárias obras jamais feitas sobre a história recente de Portugal, utiliza um dispositivo formal rigoroso, despojado, quase experimental para nos fazer sentir o que era viver no medo durante os 48 anos do regime de Salazar. Uma lição de como fazer muito com pouco, um filme tão importante enquanto arte como enquanto memória. J.M.
6. Filme Socialismo
de Jean-Luc Godard
Tem a força monumental das coisas que, de tão antigas, parecem estar na posse de um segredo qualquer. E tem o carácter intrigante das coisas que parecem muito novas, ainda por identificar. Um filme de "aqui e agora", e ao mesmo tempo uma imaginação de algo que o cinema nunca foi - portanto, para todas as épocas e lugares. Magnífico. L.M.O.
7. As Quatro Voltas
de Michelangelo Frammartino
Depois de anos de convívio com os pastores e cabras de uma aldeia na Calábria, Frammartino repôs essa viagem sensorial. Do homem à cabra, desta à árvore e desta ao carvão, uma vida sucedendo-se à anterior. Menos uma visão do mundo, mais uma possibilidade de escuta. Até porque num filme sem diálogos tudo se ouve melhor. Para o percurso de libertação do espectador e de apuramento dos sentidos fomos em procissão. V.C.
ex-aequo
7. Inquietos
de Gus Van Sant
Mesmo que estejamos todos "still dying", como diz Annabel, personagem deste filme, que delicada maneira de morrer... Em cinema, pelo menos. "Inquietos" é uma certa forma de olhar, de enfrentar o pânico. Faz sentido, por isso, que não se encontre o aparato atmosférico de Van Sant, aquela forma oblíqua de fazer sentir. Filme de morrer, é algo da ordem da superação. V.C.
ex-aequo
7. Road to Nowhere - Sem Destino
de Monte Hellman
Um dia falar-se-á da cinefilia com a frieza com que se fala das ruinas de uma civilização perdida. Por enquanto é como com um morto recente, ainda é tempo de levar flores. "Road to Nowhere", regresso de um dos mais secretos cineastas americanos, é isso: um filme sobre o cinema, reflexivo e especular, que no fundo tem o valor de um ramo de flores depositado na tumba da cinefilia. L.M.O.
10. Essencial Killing - Matar para Viver
de Jerzy Skolimowski
Vincent Gallo e a natureza. Qualquer coisa da ordem da negociação: um fugitivo na paisagem inóspita, gelada, um relato carnívoro de uma iniciação. E eis como aquilo que começou a parecer-se com um "triller" de acção fugiu de forma irremediável para o mundo da fábula. Selvagem e lírica, porque é de Skolimowski que se trata. Foi "essential filming". V.C.
ex-aequo
10. Pina
de Wim Wenders
Escolhas de Jorge Mourinha, Luís Miguel Oliveira e Vasco Câmara