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E "O Artista" calou a concorrência na noite dos Óscares

28.02.2012 - Luís Miguel Oliveira
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Billy Crystal foi o "maestro" depois de oito anos de ausência, os franceses (O Artista) disputaram o pódio com os americanos (Hugo), Meryl Streep (A Dama de Ferro) levou o seu terceiro Óscar, Woody Allen voltou a não comparecer (mas Meia-noite em Paris distinguiu-se). E agora? Se calhar, é altura de Hollywood se repensar.

Com “O Artista” e “A Invenção de Hugo” entre os favoritos, a noite dos Óscares tinha caminho aberto para uma viagem ao passado. “O Artista”, travesti de filme mudo a homenagear a Hollywood dos anos 20 e a época do cinema propriamente mudo, e “A Invenção de Hugo”, evocação “high-tech”, CGI & 3D daquele, Georges Méliès de seu nome, que com os irmãos Lumière foi o mais importante pioneiro da história do cinema, davam de borla a palavra-passe: “nostalgia”.
 
Os argumentistas e demais pensadores da cerimónia de entrega dos Óscares não a desbarataram, e usaram-na até para os pormenores – por exemplo na maneira de anunciar os nomes e os títulos nomeados para cada prémio, em “lettering” ao estilo de um intertítulo de cinema mudo. Certo: a “nostalgia” marca presença em todas as cerimónias de Óscares, altura em que Hollywood se sente na obrigação de reconhecer a sua própria, e riquíssima, história. Desta vez, ainda mais do que noutros anos, contudo, ficou a sensação de que essa história é um fardo, de evocação até algo desadequada numa cerimónia que tem por objectivo a promoção de filmes novos de qualidade frequentemente duvidosa. 

Os “clips” da praxe, e uns bailaricos vagamente alusivos a uns quantos filmes de outras eras – coisa que estava para esses mesmos filmes assim como, sei lá, os “naperons” com A Última Ceia bordada estão para o quadro de Leonardo da Vinci. É “kitsch”, é folclórico – mas Hollywood tem este drama de não encontrar outra maneira de olhar para o seu passado, a que de resto a aclamação de “O Artista” não é fenómeno totalmente alheio.

Também por isso, pareceu uma cerimónia longa e, no entanto, apressada, tendência que todos os anos se acentua e resulta de um esforço frenético para manter os espectadores agarrados ao canal emissor – mas se a cerimónia, como espectáculo televisivo que é, se transformou numa batalha audiométrica (Oprah Winfrey, que fez filmes mas é uma figura da televisão, teve porventura a mais sonora ovação da noite...), não estará aí uma boa razão para repensar aquilo tudo de alto a baixo? É que precisava, e já nem Billy Crystal, de regresso à condução da cerimónia após oito anos de ausência, safa aquilo sozinho. Passaram por ele, pelo seu texto e pelos seus ad-libs, no entanto, as mais curiosas alusões a uma série de contradições do momento presente, espelhadas também no registo evocativo dos filmes de Hazanavicius e Scorsese. Mormente a transformação tecnológica em curso (ou já praticamente terminada), a passagem da “idade da película”, que se manteve relativamente estável por mais de um século, à “idade do digital”, transformação que é por certo a mais significativa desde, justamente, a chegada do sonoro. Uma alusão à falência da Kodak (“o auditório ‘Chapter Eleven’), e mais tarde, depois de um clip de um dos filmes mais famosos de Crystal (o “When Harry Met Sally” de Rob Reiner), esta frase que soou mesmo como uma “bucha”: “you know, that movie was actually shot in film”. A sala não tugiu nem mugiu, e o pobre Billy, por segundos, pareceu um homem completamente sozinho.

E os prémios? Bom, os prémios foram, de um modo geral, repartidos entre “O Artista” e “A Invenção de Hugo”, que levaram cinco estatuetas cada um. O filme de Scorsese arrancou melhor, porque ganhou sobretudo nas discutivelmente chamadas “categorias técnicas” – mistura de som, efeitos visuais, montagem, direcção artística e fotografia (ou “cinematografia”, na expressão inglesa, em qualquer caso designação que devia ser revista, chamar-lhe “imagem” por exemplo, porque o cinema resulta cada vez menos de um processo fotográfico). 

“O Artista” não perdeu com a espera: estavam-lhe reservados três dos mais nobres óscares, melhor filme, melhor realizador, melhor actor (Jean Dujardin), a que se juntaram os prémios para guarda-roupa e partitura original. Foi, portanto, o “triunfador” da noite. A estatística diz que foi o segundo filme mudo a ganhar um óscar de melhor filme, depois do “Wings” de William Wellman na inaugural cerimónia de 1927. Mas a estatística é incapaz de perceber a diferença entre um filme mudo e um filme que finge que é mudo (e nem finge até ao fim). 

O duelo entre “O Artista” e “Hugo” seguiu-se com alguma curiosidade: de um lado um filme francês a homenagear o cinema americano clássico; de outro, um filme americano a homenagear os pioneiros franceses que inventaram e abriram o caminho para o cinema como “arte popular”, ainda antes da sua industrialização. Como é que se desempatava? Desempatou-se privilegiando o olhar de fora para dentro – e assim, sessenta anos depois de terem salvo Hawks, Hitchcock, Ray, Fuller e etc, eis que os franceses vêm de novo em socorro do cinema americano, mostrando-lhe o caminho: para trás.

De resto, vale a pena mencionar que Spielberg foi de mãos a abanar com o seu medonho “Cavalo de Guerra”, filme mastodôntico que parece uma homenagem, por sua vez, aos anos terminais da Hollywood clássica, e àqueles pastelões que já só tinham o seu gigantismo para mostrar (mais Mervyn LeRoy do que Ford, seguramente, com a diferença de LeRoy parecer mais dinâmico e arejado ao pé da spielberguiana cavalgadura), e Terence Malick também mas já tinha sido premiado em Cannes (os americanos premeiam os franceses, os franceses premeiam os americanos: e pensar que ainda há pouco tempo diziam tão mal uns dos outros). 

Meryl Streep, por “A Dama de Ferro”, ganhou o seu primeiro óscar depois de “A Escolha de Sofia” e Woody Allen, por “Meia-Noite em Paris”, levou o terceiro óscar para argumento original da sua carreira, coisa que tanto se lhe dá como se lhe deu (como é óbvio e natural, não pôs os pés na cerimónia). O Óscar de melhor filme estrangeiro foi para o iraniano “Uma Separação”, acontecimento que se tornou, independentemente dos méritos do filme (que são q.b.), o facto político da noite, certamente já a ser “lido” em Washington e em Teerão, quase de certeza de maneira completamente diferente.

Fez-se “justiça”? Quem ganhou mereceu ganhar, quem perdeu mereceu perder? Como se dizia no “Imperdoável” de Clint Eastwood, “’merecer’ não tem nada a ver com isto”. Nem com “isto” nem com os Óscares – e é importante não o esquecer.


Comentários
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comentario29.02.2012 - 15:53 - Victor Barreira, Lisboa
Depois de toda a cacofonia que foi produzida, desde o fim-de-semana passado, pela comunicação social portuguesa, à volta da cerimónia de entrega dos Óscares pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos E.U.A, o jornalista Luís Miguel Oliveira, com o seu texto, vem apenas prolongar a referida cacofonia, nada subtraindo, nada multiplicando, nada dividindo, e nada acrescentado ao tema. Pelo contrário, com o texto supra, o senhor Oliveira vem apenas confundir e baralhar; veja-se, a mero título de exemplo, esta consideração dele:…“e Terence Malick também mas já tinha sido premiado em Cannes (os americanos premeiam os franceses, os franceses premeiam os americanos...).” Senhor Oliveira, peço imensa desculpa, mas nem o filme “A Árvore da Vida” de Malick é um filme americano, mas sim um filme de um autor americano; nem o filme “O Artista” é um filme francês, mas sim uma co-produção francesa e americana, quer no elenco quer na equipa técnica (aliás, se fosse francês, seria votado noutra categoria). Em textos anteriores, o senhor Oliveira já tinha escrito umas folhas secas; recentemente tem escrito muitos textos com ramos desvitalizados; neste último texto, o problema já não está nas folhas, nem nos ramos, mas está no próprio tronco do texto, senão na sua própria raiz. Este é, para mim, claramente um caso para ser levado à poda.
comentario28.02.2012 - 14:36 - Anónimo, Braga
"É “kitsch”, é folclórico ..." gostava de saber o que tem contra o folclore sendo este de cariz genuinamente popular e cheio de riqueza que só os "iluminados"desprezam
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