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Opinião

Sobre os mitos do turismo cultural

11.05.2012 - António Pinto Ribeiro
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Somos consumidores globais munidos de uma máquina de fotografar, de filmar ou de um telemóvel captando as imagens dos locais para um arquivo adiado - pois que nunca haverá tempo para as visionar

O turismo cultural está na moda. Promovido como um turismo de elevação social proclamam-se as virtudes de assistir a um festival de música de Verão ou a visitar as ruínas esquecidas romanas ou árabes e assim escapar ao purgatório de umas férias nas praias super lotadas ou em hotéis low cost de qualidade duvidosa. A este propósito será oportuno rever o documentário Visita Guiada (2008) realizado por Tiago Hespanha, sobre o trabalho dos guias turísticos em Portugal.

O turismo de hoje pouco tem a ver com o Grand Tour, viagem que os aristocratas ingleses faziam à europa continental no século XVII com o propósito de adquirir uma educação clássica e prazer. Tão pouco terá a ver com a peregrinação a lugares santos como Santiago de Compostela ou Roma e menos ainda com a ideia Baudelairiana do flânneur o homem que despreocupado se passeia pela cidade.

O que podemos ver neste filme é a confirmação de que o turismo cultural é uma actividade comercial centrada na voracidade e no consumo de imagens e lugares, enquadradas por narrativas de uma mitologia nacionalista, infantil, onde a anedota combina com o muito pouco rigor dos factos ou como diz neste filme uma das guias a propósito do castelo de Guimarães: "nos anos 30 houve um senhor que administrava Portugal e mandou restaurar o berço de Portugal. Quem era este senhor? O nosso ditador, António Salazar. ... há pessoas que dizem que Afonso Henriques tinha um costado com um metro de lado, talvez... e eram precisas dez pessoas para levantar a sua espada."

Nestas mini-narrativas não há preocupação pela recepção estética. Somos não mais do que consumidores globais munidos de uma máquina de fotografar, de filmar ou de um telemóvel captando bulimicamente as imagens dos locais para um arquivo adiado, pois que nunca haverá tempo para organizar as imagens ou para as visionar na sua totalidade. Não servirão senão para testemunhar no momento da excursão a condição de turista, pois que um turista sem o instrumento de captação de imagens não é um turista, é um estranho num universo de comportamentos compulsivos de consumo: consumo de lugares, consumo de imagens, consumo de tempo, consumo de estradas, de voos, de percursos.

A narrativa do guia turístico é excessiva e tem como objectivo tornar aquele monumento, pintura, ruína, festa, singulares, únicos. Há uma particularidade que foi introduzida tardiamente na história do turismo cultural e que é o turismo cultural das manifestações populares. Tidas como itinerário possível foram integradas na indústria do turismo como representativas das culturas nacionalistas, do que supostamente representa o espírito e a alma de um país, de uma cidade, de uma região, sendo que muitas destas manifestações de cultura da "alma de um povo" foram criadas por instrumentos de propaganda dos regimes e outras pela própria indústria segundo um formato que se adequasse ao itinerário do turismo cultural segundo um folclorismo que é uma forma de falsear as culturas populares que ainda existem.

Se neste último caso temos a encenação do "povo em festa", no caso anterior mais centrado nas visitas do turismo cultural aos museus, do património e dos festivais de reportório de música ou de teatro temos o que Marc Augé designa como os tempos da encenação da História (L'impossible voyage, le tourisme et ses images): "Vivemos uma época que encena a História, que faz com ela um espectáculo, e que em certo sentido desrealiza a realidade, quer se trate da Guerra do Golfo, dos castelos de Loire os das quedas de Niagara".

Este tipo de turismo não toma em consideração aquilo que Pierre Bourdieu designava o capital cultural, ou seja, o capital de conhecimento e a experiência que cada um vai acumulando e gerindo ao longo da vida e que o torna mais ou menos rico culturalmente e que, portanto, o diferencia na relação que tem com os objectos de culto que visita, de que gosta ou que detesta. Também este turismo desconsidera a subjectividade emotiva e os mecanismos de recepção estética específicos de cada um. No turismo cultural é suposto que não haja mais do que um grau de recepção estética. Somos todos apenas dessa grande massa de consumidores globais que aprecia em conjunto esse grande momento de construção estética e mitológica que a indústria cultural preparou para nós. Um outro aspecto tem a ver com a desrealização da realidade: os heróis não sofreram, não tinham defeitos, os monumentos foram construídos sem se referir o trabalho implicado, os trabalhadores que os construíram e tão pouco a dimensão periférica que tem a maioria do património português.

Considerando o ambiente de crise financeira que os nossos governantes já conseguiram que os portugueses incorporizassem, parecerá anti-patriótico criticar uma actividade que é uma fonte de receitas importante para o país, dizem. Não importam os custos sociais e ambientais que tal pode provocar, bem como a criação de mais uma mítica solução económica para o país: basta ver o que aconteceu com a ausência da crítica ao turismo no Algarve a partir da década de 70 quando se começou a criar uma indústria do turismo local, que acabaria por destruir esta região, com a justificação de ser "o petróleo de Portugal".

Merecem-me as maiores reservas a consagração de lugares com o epíteto de lugar de culto e que justificam estas viagens: aí posso incluir o exemplo do Museu Guggenheim de Bilbao, obra de Frank Gehry cujo turismo de facto beneficia da paisagem e de um ambiente de paz conseguido com a pacificação da ETA e onde o museu é o espectáculo da arquitectura de luxo porque a sua programação cultural é quase sempre incipiente. Não se deduza que esta crítica é a arrogância do sector cultural face ao turismo. Nada é mais desejável do que a partilha do cultural, seja ele da esfera do artístico ou do crítico, mas não segundo a lógica da espectacularidade populista. E há outras possibilidades de recepção estética e de fruição artística, uma de carácter pessoal, não comercializável, e outra de dimensão política para as cidades. Sugiro que se experimente o enorme prazer que é ser confrontado com a realidade quando se passou dias e meses a construir uma mitologia do lugar a visitar: a experiência da primeira vista a Nova Iorque depois de assistir a tantos filmes com a cidade pode ser uma decepção ou a confirmação de um êxtase visual, o confronto com uma pequena vila romana depois de ter lido os Cavalos da Tarquinia de Marguerite Duras e por isto passar dias a beber groselha repetindo o que fazem as personagens da história pode ser uma decepção ou um momento de glória. Estar preparado para que Veneza posa ser uma desilusão clamorosa depois de tanto termos lido sobre a mesma, de Goehte a Maupassant, a Casanova, a Jan Morris, de termos assistido à Morte em Veneza de Visconti, às fotos dos carnavais e sentirmo-nos ludibriados em cada restaurante, em cada hotel, em cada esquina desta cidade de 60 mil habitantes visitada anualmente por dez milhões de turistas e sermos obrigados a ver Ticiano e Tintoretto à luz artificial e a um euro por minuto depois de anos a imaginar poder ver os pintores Venezianos nas igrejas da Sereníssima. Ir a Atenas e posar nas escadarias do Parthénon imitando a pose de Sofia de Mello Breyner Andresson nessa ruína grega pode fazer-nos sentir membros da mesma estirpe de pessoas invulgarmente cultas, correndo carregados de livros para o bar Chicote na Gran Via onde Hemingway passou noites pode ser um estímulo para que quem nos acompanha comece a ler compulsivamente literatura americana, etc, etc... A construção destas mitologias é pessoal e não há estratégia de turismo cultural que a substitua. E finalmente, ainda segundo esta estratégia muito pessoal, há algo que nenhum programa de agência de viagens de turismo cultural propõe. Trata-se de ver as práticas culturais dos cidadãos das cidades que visitamos. Ver as pessoas no metro de Paris, de Londres, da Cidade do México, como se comportam, como se movimentam, olhar o modo como se desenham as montras das livrarias das cidades ou como os engraxadores de rua se diferenciam entre Joanesburgo e S.Paulo, estar atento ao modo desbragado como os romanos circulam na Piazza Navona é uma experiência cultural fundamental que não cabe em nenhum cardápio de turismo cultural.

A estratégia de uma política de cidade que gosta dos seus cidadãos e dos estrangeiros que a visitam é outra e pode ser pública. Todos os que apreciamos as nossas cidades, os nossos monumentos, as nossas ruínas, os nossos lugares de culto, gostamos de partilhar estes lugares e estes objectos e modos de conhecimento de uma parte da humanidade e da sua história com os outros, com muitos outros que virão de outros lugares. Insistamos então numa ideia de cidade hospitaleira, onde as pessoas recebem bem, são acolhedoras, disponíveis, tentam falar outras línguas, onde os guardas dos museus são remunerados de modo justo, onde a informação é actual e correcta, os horários dos museus e dos centros culturais são adequados à vida contemporânea, onde os artistas que habitam nestas cidades, portugueses ou estrangeiros, e que constituem hoje uma das poucas imagens de marca positivas deste país sejam considerados e agraciados, as ruas sejam limpas, os empregados da hotelaria bem formados, uma cidade onde as livrarias possam parecer casas de guloseimas intelectuais e teremos com muita certeza muitas pessoas a querer visitar-nos e até viver temporariamente entre nós.