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29.06.2012 - Jorge Mourinha
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Rodrigo Areias, realizador de "Estrada de Palha", um western-rojão, fala de como filmar sem dinheiro para o sangue dos duelos é compensado pela vontade de não ficar parado

O que acho assustador em Portugal é que o nosso discurso perante a democracia é como se estivesse na terceira pessoa: a democracia são os outros." Rodrigo Areias está sentado ao solquente de fim de Primavera numa esplanada do Campo Pequeno, e as palavras saem-lhe sem ilusões nem desânimos. "A culpa é sempre dos outros", continua, "quando no fundo é sempre nossa. Fomos nós que votámos neste tipo, fomos nós que não votámos neste tipo... é esse o conceito que a minha geração não tem do sentido democrático. Há 50 por cento de abstenção neste país, o que é uma coisa alucinante numa altura destas, mas de repente a democracia são sempre os outros, a culpa é sempre de outra pessoa que votou naqueles tipos. O lado amorfo com que a malta vê isto assusta-me muito. E do meu ponto de vista é óbvio que isso nunca vai mudar."

E porque é que Rodrigo Areias, 34 anos, realizador e produtor, autor de uma dezena de curtas-metragens e de muitos telediscos (para gente como The Legendary Tiger Man), fala do discurso português perante a democracia numa esplanada do Campo Pequeno? Quando supostamente devia estar a falar da sua segunda longa-metragem, Estrada de Palha, o "western-rojão"(palavras do próprio) que chegou ontem às salas?

Porque (já dizia Sérgio Godinho) "isto anda tudo ligado". E Estrada de Palha inspira-se num ensaio de 1849 do escritor transcendentalista americano Henry David Thoreau, Desobediência Civil, que fala do divórcio entre a política e o cidadão e argumenta que os indivíduos têm o dever de se recusarem a ser instrumentos da injustiça governamental.

Citações do ensaio de Thoreau pontuam a história de Estrada de Palha, ambientada na transição do século XIX para o XX, e que segue Alberto (Vítor Correia), um homem de passado misterioso que regressa ao Norte de Portugal para vingar a morte do irmão e dá por si em constante confronto com a autoridade, representada pelo arrogante capitão Bacelo (Nuno Melo).

Bacelo e Alberto tornam-se inimigos devido a uma portagem exigida pelo oficial que o antigo pastor se recusa a pagar. Lembra-vos alguma coisa? "Tínhamos a piada de este ser um filme anti-SCUT", como diz entre risos Areias. "O António Bacelo é uma personagem real que tinha inclusive assassinado um pastor e ido a julgamento, e achei piada à semelhança com a actualidade da discussão das SCUT. Mas as pessoas hoje esqueceram-se que pagam as SCUT, já não está no topo das suas preocupações..."

E, entre a rodagem, a sua primeira apresentação pública no Curtas Vila do Conde, em Julho de 2011, e a sua estreia comercial, a meditação que Estrada de Palha propõe sobre um país entregue a si próprio, prisioneiro de uma teia de fachadas, mantém-se actual. O que, nas palavras do seu autor, é "absolutamente deprimente". "Aquele diálogo que diz ‘que sentido faz viver aqui se isto nunca vai mudar', é uma coisamuito simples mas está cada vez mais pertinente. Nunca achei que o presente fosse cada vez pior..."


Western em(des)construção

O presente é negro para o cinema português, como reconhece o realizador - mas é-o sobretudo dentro de portas. A sua repercussão internacional nunca foi tão grande, com os prémios recentes para Tabu de Miguel Gomes e Rafa de João Salaviza. Quando encontra o Ípsilon, o cineasta acaba de chegar da Finlândia, onde Estrada de Palha passou no Midnight Sun Film Festival (e recebeu elogios de Aki Kaurismäki), e este fim de semana arranca para o festival checo de Karlovy Vary, onde faz parte da competição. "As pessoas ainda não se a perceberam da responsabilidade que o cinemaportuguês hoje tem na divulgação da nossa cultura e da nossa imagem a nível internacional."

Mas isso não faz de Estrada de Palha assumidamente activista ou político. Apesar dos recados e das referências, é acima de tudo cinema, cumprindo a "regra" de Areias departir para um filme "da forma mais livre possível". O seu misto lúdico e inventivo de filme de autor e filme de género parece assumir um lugar singular no cinema português, onde as referências ao cinema popular são geralmente mal vistas.

"A minha intenção era que o filme tivesse uma construção de género e uma desconstrução portuguesa. Era esse o ponto de partida. Não queria fazer forçosamente um filme histórico," como explica. "Todos os anti-clímaxes que se vão construíndo partem de estereótipos do western. Vai haver um duelo? OK, não vai ser nem à americana nem à inglesa, mas uma mistura dos dois. Começa com a história da morte do irmão? Tu não sabes verdadeiramente se ele encontra os assassinos do seu irmãoou não, não fica explícito... A minha ideia era sempre partir desse cliché do western, para depois o desmontar e tornar numa coisa mais portuguesa." E não apenas portuguesa: "há muito universo de BD a entrar de repente por aquelas personagens. O Lucky Luke ou o Blueberry fazem parte da nossa geração, há um lado muito europeu de revisitar essa realidade americana. Para mim, era sempre mais interessante ser uma coisa assumidamente portuguesa, em vez de filmar uma coisa em Itália ou no sul de Espanha a fingir que era a América."

O trabalho de pesquisa implicou visionar uma colecção alucinante de filmes: "os John Ford todos, os Sergio Leone vezes sem conta, o Homem Morto do Jim Jarmusch, o El Topo do Alejandro Jodorowsky. Sabia que quem tivesse visto uma série de filmes conseguiria identificar uma série de referências fundamentais, à excepção dos Sam Peckinpah que não foi possível porque não tinha dinheiro para tanto sangue..."


O perigo de filmar sem dinheiro

Independentemente da piada, a questão do dinheiro é importante. Estrada de Palha foi rodado em auto-gestão na "aldeia gaulesa" da Bando à Parte, a estrutura de produção que Areias montou na sua Guimarães natal há anos (e que foi, por exemplo, co-produtora do Barão de Edgar Pêra). Mais espantoso ainda, foi rodado com o orçamento de... uma curta-metragem (ajudado por uma co-produção finlandesa).

É verdade que Areias nunca teve realmente muito dinheiro desde que terminou a sua primeira curta em 2001. "Nunca é o filme que queremos, é sempre o filme que conseguimos fazer, sobretudo nas condições adversas em que o fazemos. Mas lido bem com a dificuldade, e para mim é a única saída possível. Não tenho outra hipótese. Não consigo não filmar, mas também não me estou a ver tão cedo a ter meios para o fazer."

É tudo muito simples: "ou é isto ou não se faz, e eu prefiro fazer, sempre. A forma mais natural de lidar com a coisa é: o que vamos conseguir fazer com aquilo que temos? Obviamente, isto envolve muita gente, e ainda bem que há um grupo de pessoas que alinha nisto." E não se esquiva à advertência. "É meio perigoso estar a apregoar a questão de fazer filmes sem dinheiro. Enquanto produtor, estou sempre na expectativa de algum dia ter dinheiro para retribuir. Não sei se isso irá acontecer. Honestamente, acho que hoje não é possível fazer de outra maneira."

Antes da estreia em salas, o filme já foi visto por cerca de três mil espectadores, numa série irregular de "cine-concertos" iniciados no Curtas Vila do Conde 2011, com The Legendary Tiger Man e Rita Redshoes a interpretar ao vivo a sua banda-sonora original durante a projecção. "A ideia era tentar chegar a vários tipos de público. O concerto chama um tipo de pessoas que de outra forma nem do sofá se levantaria, muito menos para ver cinema português..."

Agora, Rodrigo Areias prepara-se para o seu embate com o grande público (o seu primeiro, já que Tebas, a primeira longa, de 2007, nunca chegou à estreia comercial). "Sabemos que o estado das coisas é negro. Mas acho que vale sempre a pena tentar, fazer com que as pessoas possam ir ver um filme. Quero acreditar que sim."