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Portugueses em Veneza: O Gebo e a Sombra e As Linhas de Wellington

27.07.2012 - Vasco Cãmara
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Entre os 17 títulos a concurso no festival de cinema há filmes de Terrence Malick, Brillante Mendoza, Brian de Palma, Harmony Korine, Olivier Assayas, Kim Ki-Duk ou Takeshi Kitano

Duas produções portuguesas, O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira, e As Linhas de Wellington, de Valeria Sarmiento, estão seleccionados para o Festival de Veneza. O primeiro fora de concurso, o segundo em competição. As Linhas de Wellington é o filme que Raoul Ruiz não conseguiu concretizar antes da sua morte, em 2011, e que foi prosseguido pela companheira, a realizadora Valeria Sarmiento. Recria as invasões francesas em Portugal, no começo do século XIX, quando o general Arthur Wellesley, duque de Wellington, liderou um exército anglo-português e utilizou uma estratégia defensiva com base numa linha de fortificações que protegia Lisboa - as Linhas de Torres Vedras. Há um exército de intérpretes, por isso: John Malkovich, Marisa Paredes, Nuno Lopes, Carlotto Cota, Albano Jerónimo, Soraia Chaves, Maria João Bastos, Catherine Deneuve, Michel Piccoli, Mathieu Amalric. A produção é de Paulo Branco.

 
Durante a rodagem, Valeria Sarmiento, em declarações à Lusa, salientava a importância de "recordar, num momento difícil em que está a Europa, que ela foi construída a partir de muitas guerras." O filme de Oliveira, produção de O Som e a Fúria, dirige-se também ao presente a partir da forma como Raul Brandão, em 1923, retratava o pós-I Guerra na sociedade portuguesa, a pobreza, a honra, os sacrifícios. Do filme se diz já, em citações da imprensa internacional, ser um dos mais minimalistas do realizador, com a simplicidade dos grandes mestres. Cast: Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Luís Miguel Cintra. O filme estreará em Portugal, pela Lusomundo, a 27 de Setembro. Em França terá a sua estreia a 19 de Setembro.
 
Festival de Veneza, de 9 de Agosto a 8 de Setembro. A abrir, fora de concurso, The Reluctant Fundamentalist, da realizadora Mira Nair, que em 2001 venceu o Leão de Ouro com Monsoon Wedding. Um jovem paquistanês tenta vencer em Wall Street e as suas aspirações são apanhadas por dilemas morais e políticos. Um filme em cenário de fundamentalismos, "para pensar", segundo o director da mostra, Alberto Barbera. Deve ser isso o programa de um "filme de abertura": trazer tema(s).
 
E depois desfilarão 17 filmes em concurso, assim se concretizando a tal edição mais sóbria e com menos filmes com que o novo director, que sucede a Marco Müller, tenta aguentar um festival em tempos de crise. Obras de Olivier Assayas (Après Mai, ou seja, depois de Maio de 68), os italianos Marco Bellochio, Daniele Ciprì e Francesca Comencini, os americanos Brian de Palma (Passion, thriller erótico muito à la Mulholland Drive), Harmony Korine (Spring Breakers) e Terrence Malick (To the Wonder) ou os asiáticos Kim Ki-Duk (Pieta), Takeshi Kitano (Outrage Beyond, a continuação de Outrage, que ainda não estreou em Portugal) e Brillante Mendoza, que num ano apresenta dois filmes em festivais: Captive em Berlim, e agora Thy Womb - tal como em 2009, com Kinatay em Cannes e Lola em Veneza, naquele que foi um momento decisivo para a implantação internacional do filipino. É no Lido que veremos também o segundo tomo da trilogia Paradies do austríaco Ulrich Seidl. Depois de Amor, visto em Cannes, seguindo o despertar sexual de uma cinquentenária nas praias do Quénia, a . Em Berlim será tempo de Esperança.
 
Fora de concurso, para além de Oliveira e do filme de abertura: um documentário de Spike Lee na comemoração dos 25 anos de Bad, de Michael Jackson (Spike, recorde-se, realizou para o Rei da Pop o clip de They Don"t Care about Us); The Company you Keep, de Robert Redford; ou Witness: Libya, de Michael Mann, episódio de uma série da HBO, de que Mann é produtor, sobre a actividade de fotógrafos em cenários de guerra. Mann presidirá ao júri da competição desta 69.ª edição.
 
Valerá a pena a aventura pela secção Horizontes, dedicada a uma vertente exploratória - é aí que está Three Sisters, de Wang Bing -, e pela secção que apresentará clássicos restaurados, como Fanny e Alexander de Ingmar Bergman ou os 219 minutos de As Portas do Céu, de Michael Cimino, o tal filme cujo fracasso - e má reputação do realizador - deu o golpe de misericórdia no sonho de uma geração que ficou conhecida como a dos movie brats.