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O vermelho-vivo, cor de sangue, nunca abandona a jovem bailarina americana que está no centro de Suspiria, filme justamente aclamado como um clássico do terror moderno

Haverá sangue

07.09.2012 - Jorge Mourinha
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Depois de John Landis ou George A. Romero, o MOTELx homenageia na sua sexta edição Dario Argento, estilista maior do cinema de género italiano. Retrospectiva parcial a partir de quarta-feira, com direito ao clássico absoluto que é "Suspiria".

Quando Suzy Bannion chega a Friburgo, uma luz vermelho-vivo, vermelho-sangue, banha os passageiros que saem para o átrio do aeroporto. Esse vermelho não mais abandonará a jovem bailarina americana que acaba de chegar para prosseguir os seus estudos numa reputada academia local. E o sonho de Suzy vira muito rapidamente pesadelo, à medida que toma consciência dos horrores que se escondem por trás do edifício pintado de vermelho, desenhado por um alquimista e arquitecto italiano para uma das três Madres das Dores.

Essa omnipresença do vermelho, saturado quase até ao limite da película, é apenas uma das muitas razões para a justíssima aclamação de Suspiria (1977) como um clássico do filme de terror moderno. A sexta longa-metragem de Dario Argento resolve-se numa série de provações para a jovem bailarina, Capuchinho Vermelho nas mãos das bruxas que parecem puxar os cordelinhos da Academia de Dança de Friburgo, tornando-a uma espécie de conto de fadas gótico que opõe a inocência mais pura à crueldade mais sádica.

Suspiria é o ponto mais alto (mas não o único interessante) da retrospectiva de cinco filmes que a sexta edição do MOTELx, Festival de Cinema de Terror de Lisboa, dedica ao cineasta italiano a partir de quarta-feira no cinema São Jorge, em Lisboa, permitindo desfrutar em sala de algumas das obras fulcrais de um dos estilistas-chave do cinema de género. Para além de Suspiria (sábado, 15, 21h45), a retrospectiva apresenta as duas outras partes da Trilogia das Madres (Inferno, 1980, sexta, 14, 14h45, e La Terza Madre, 2007, quinta, 13, 14h45), o giallo clássico O Mistério da Casa Assombrada (1975, quarta, 12, 22h) e Demoni (1985), dirigido por Lamberto Bava mas escrito e produzido por Argento (domingo, 16, 14h30).

O estilista sensorial

Actualmente com 71 anos, Dario Argento - que deverá estar presente em Lisboa para uma masterclass - tem continuado activo como produtor e realizador (o seu mais recente filme é uma nova leitura do Drácula de Bram Stoker em 3D). Juntamente com Mario Bava ou Lucio Fulci, fez parte de uma geração de cineastas italianos que, na década de 1960, abraçaram a dimensão popular do cinema de género para lhe injectar doses maciças de estilo e modernidade. Argento foi co-argumentista dessa obra central do western-spaghetti que é Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone; e convirá não esquecer que, filho de um produtor e de uma actriz, o realizador começou por ser... crítico de cinema.

Não surpreende, por isso, que se sinta haver sempre mais qualquer coisa em jogo no seu cinema do que a simplicidade do género. Observar a sua filmografia na década que vai da sua primeira realização, O Pássaro com Plumas de Cristal (1969), a Suspiria é assistir à progressão em acelerado do Argento-cineasta. O primeiro é um exercício mais convencionalmente estruturado típico do policial sanguinolento conhecido como giallo; o último é um delírio surreal e psicadélico, teatralmente estilizado, transportado por imagens tão visceralmente imediatas como meticulosamente concebidas. Em todos eles se sente uma dimensão abertamente artística: O Mistério da Casa Assombrada citava os quadros de Edward Hopper e os nocturnos romanos de Fellini, a Trilogia das Madres inspirava-se nas Confissões de um Opiómano Inglês, de Thomas de Quincey, o centro do Pássaro com Plumas de Cristal é uma galeria de arte com uma enorme fachada de vidro aberta à cidade...

Essa dimensão erudita nunca abafou o populismo dos filmes, fortemente influenciados pela banda-desenhada popular italiana - os fumetti abertamente utilizados em La Terza Madre -, num diálogo constante entre as belas-artes e a arte popular que fazia todo o sentido nesses anos que foram os da Tropicália ou da Pop Art. O Mistério da Casa Assombrada e Suspiria são os nortes magnéticos desse equilíbrio, filmes em que a narrativa é um mero pretexto para explorar a possibilidade de um cinema como expressão puramente sensorial, os ritmos visuais e os tempos narrativos, isolando as sequências como autênticos mini-filmes que quase poderiam funcionar autonomamente.

No seu melhor, Argento é um estilista experimentalista, utilizando as explorações psicanalíticas do subconsciente como origem de um jogo de espelhos cinéfilo e meta-referencial entre a realidade e o sobrenatural onde os mecanismos da construção do suspense são simultaneamente amplificados e desconstruídos. O modo como encena os crimes e as sequências de violência como cinema puro praticamente sem diálogo recorda uma versão levada ao limite da abordagem de Hitchcock à mise en scène, conjugada com um voyeurismo formalista e assumido que antecipa de poucos anos os gialli urbanos de Brian de Palma. E podemos também ver algo de Argento no cinema de John Carpenter, cuja utilização da câmara móvel Steadycam e da banda-sonora para criar tensão e (des)orientar o espectador são claramente influenciadas pelas experiências de "câmara subjectiva" que o italiano já usava desde O Pássaro com Plumas de Cristal.

E depois do excesso

Mas a liberdade formal e onírica de O Mistério da Casa Assombrada ou Suspiria, filmes feitos fora de qualquer caderno de encargos pré-definido por um estúdio e com uma evidente visão de autor pelo meio da sua assumida abordagem de série, já não é possível (para Argento ou para outro qualquer) nestes dias em que o cinema popular parece submeter-se às exigências do marketing e da formatação. A submissão da narrativa à forma e a sua sublimação pelo estilo tinham uma ressonância inteiramente diferente na década de 1970 de todos os excessos, altura em que o cinema de género havia ganho novas cartas de nobreza com as "escolas" que haviam dominado a década anterior (os gialli italianos, as produções britânicas da Hammer e a "universidade" de Roger Corman).

De resto, o período em redor de Suspiria - durante o qual Argento deu a mão a George Romero para a segunda parte da primeira Trilogia dos Mortos-Vivos com Zombie, A Maldição dos Mortos-Vivos (1979) - provou ser uma espécie de "zénite" da sua carreira. A consagração que Inferno, a desequilibradíssima segunda parte da Trilogia das Madres, parecia anunciar nunca aconteceu; primeiro, uma crise de hepatite afastou Argento do plateau do filme e, depois, a 20th Century-Fox, que aceitara financiá-lo na sequência do sucesso americano de Suspiria, acabaria por enjeitá-lo, deixando-o na prateleira.

Depois de Inferno, o muito que Argento filmou acabou por sofrer com duas questões centrais. De um lado, a progressiva desintegração do modelo italiano de produção à medida que o marketing "à americana" e a televisão ganhavam força - Argento continuou a trabalhar regularmente, mas a difusão dos seus filmes reduziu-se significativamente (entre nós, apenas Terror na Ópera, de 1988, e O Fantasma da Ópera, de 1998, viram estreia em sala; outros saíram directos em vídeo ou limitaram-se a passar no Fantasporto). Do outro, a sensação de que o cineasta parecia estar a repetir, com maior ou menor eficácia e dentro de um quadro mais "normalizado", as receitas e os modelos dos seus clássicos, como se tivesse ficado parado no tempo. Mesmo filmes recentes mais inspirados como La Terza Madre, conclusão tardia da Trilogia das Madres, transportam o charme antiquado de uma peça de design vintage que se aprecia em parte pelo valor kitsch de algo que, hoje, já não existe ou já não se faz assim.

Mas, pelo espaço glorioso de uma década, o grand-guignol estilizado de Dario Argento abriu novas portas ao cinema de género. E revisitá-lo é regressar a um momento de possibilidades que parece ter-se perdido entretanto. É só seguir o vermelho do sangue.