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Crónica

Tragicomédia para dias tristes

14.09.2012 - Raquel Ribeiro
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7 meses em Havana contados em 7 dias

1. Cheguei e tudo cheirava como dantes: rum e gasolina confundindo-se no meu corpo. Como no filme do Benicio del Toro, também sou yuma (estrangeira): ei, ladi, uére you from? O assédio é insuportável e lembra-te que não pertences, o teu sotaque é estranho ("Canadá? Itália? Brasil?"), que és privilegiada, branca, burguesa, chegas de uma qualquer esquina do império para ver o socialismo utópico em acção. Depois manda-los dar uma volta num bom cubano callejero, coisas que não ficam bem a uma senhora (asere, pinga, cojones, desgracia'o, pendejo): "Ah, mas afinal és cubana!"

Por que é que é tão difícil pertencer aqui, mesmo quando nos oferecemos, assim, abertos, empenhando a beleza que ainda nos resta? Por que é que esta terra nos dá e nos tira? Por que é que esta cidade custa tanto a amar?



2. Desço a 23, bamboleando-me em direcção ao mar e reencontro o sorriso do abacateiro que se lembra de mim e me pergunta pelo Ronaldo, ou da senhora do café na Universidade a quem peço um pan con tortilla pelo mesmo preço de há 7 anos (não há inflação). Na União de Escritores, amigos comentam: "Ouvi dizer que já estavas cá", e assim se percebe que a novidade acabada de chegar da outra margem do Atlântico é quase um rumor pela cidade.

"Raquelita!, como andas, mi chiquitica?" Deixo de ser Raquel para passar a ser mami, mi vida, mi amor, muchacha, raqueliña, raqué, e assumo essa identidade (ainda não-cubana), outra, híbrida, quase-hispânica, galeguita. Convidam-me para eventos. Vamos ao teatro! Dizem "nós" como quem diz "cubano". E sei que pertenço aqui.



3. Desperto com os gatos histéricos de cio. Calor de morte: a ventoinha parou. Apagão é fazer café no escuro, ouvi-lo borbulhar até à boca da cafeteira e desligar a única fonte de luz: o fogão. A senhoria amaldiçoa o sistema porque acabou de vir do mercado "ay mi madre, que calor!", gesticula, diante dos batidos de fruta prestes a apodrecer. Sem frigorífico.

Depois de desfalecer em cima do pó dos livros na biblioteca, fujo para o ar condicionado do Focsa, 27 andares acima do mundo, aonde me encontro com a R. para um daiquiri que custa tanto como o salário do barman que mo serviu. Sinto culpa. Sinto sede. Bebo. Esqueço a culpa. O sol põe-se sobre a cidade: esperança e desalento.



4. Após cinco horas de entrevista com um veterano da guerra de Angola, arrasto-me avenida acima: chuveiro, pão, ovo, abacaxi, café, sesta, tudo numa hora sob o fresco da ventoinha. Depois, arrasto-me avenida abaixo.

E. vive em pleno malecón. O governo investiu milhões no plano de recuperação da baía, mas, diz-me, muitas casas estão a ser convertidas em hotéis (compradas por imobiliárias estrangeiras) e o governo está a mandar as pessoas para o subúrbio. Em 2008, quando o furacão Ike fez o mar galgar o malecón, a casa ao lado ruiu. A dela não caiu por sorte. Desde então lhe prometem uma casa nova, e nada.

Subo os três andares por uma escada periclitante. O chão da sala abaulou. No outro dia, um pedaço do tecto caiu em cima da cama. "Menos mal que me levantei cedo", diz enquanto me serve um chá preto: "Ay, mi Raqué, não tenho café." Às vezes, pedacitos de cal bóiam à superfície do chá. Finjo que não vejo que o martelo pneumático das obras faz a casa tremer. "Se a cal cai é sinal de que ainda há tecto", penso. Um amigo disse: "Tecto, sim. Céu, é que não sabemos."



5. Há sempre alguém que parte, alguém que fica. No diário escrevi: "Histórias de desterros são sempre assim, cada uma com a sua saudade incrustada. Mas a história dos que ficam é que fica por contar. Estar parado aqui, diante da baía, sem poder atirar-se ao mar e nadar até ao infinito não é história que se queira ouvir. É história de letargia, de coisas fixas que se meneiam lentamente ao ritmo de um velho machimbombo. A acção, aqui, é apenas o ranger dessas suspensões, nada mais, talvez uma lenta valsa de corpos em estertor, talvez um pouco de música e de goladas de rum bem rolado para esquecer as saudades do que não se teve. Hoje bebe-se rum da garrafa e não do de cartão, porque hoje pode-se, amanhã quem sabe. O rum é quente e a modorra penetra o corpo como se tomássemos directamente desvario nas veias."



6. Sábado, prostitutas na rua. Do diário: "É uma beleza quase assustadora, que nos assalta em cada esquina. Homens e mulheres parece que levitam sobre ondas de calor, caminhando como sombras numa espécie de ladainha de sedução e queixume. Enroscam-se, esfregam-se com amor e ódio, enleiam-se, roçam-se, amam-se e deixam-se, nessa mesma dança de silêncio. Parece que nasceram para amar, todos eles, sem excepção, e é ainda um mistério que encontrem tempo para isso quando têm que estar inventando hoje para comer amanhã, comendo hoje para inventar amanhã, dançando hoje para descansar amanhã, vivendo sempre para o hoje para que amanhã não doa tanto."



7. Domingo. Como os habaneros vamos ao malecón. A A. fotografou um velho e o mar e um cão. O cão de frente para o mar, contemplava as ondas, triste. O velho, de costas para o mar, mirava as estrangeiras nas portas giratórias do hotel. E o mar sempre à espera que alguém o ame. Sentadas sobre o muro, tomamos bucaneros fresquinhas e esperamos pelos vendedores de amendoins torrados e pelos guitarristas de lânguidas mexicanadas: ladi, uére you from?

Havana é cacofonia ou morte. Viras costas à cidade e os miúdos mergulham junto às rochas, os pescadores de esperança na linha, a América a 90 milhas e uma vez mais pensas que podes afinal pertencer, como se esta cidade só te soubesse dar isso: a impossibilidade de compreender que se pode ter tudo, mesmo quando não se quer; a impotência de saber que tudo o que se julga que se consegue nem sempre se tem; e o júbilo de compreender que mesmo não se tendo nada, é-se. Assim: é-se. E ser-se é tudo.