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"Só me interessa a arte emocional, a única que resiste ao tempo"

13.11.2012 - Francisco Valente
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Brian de Palma define-se como herdeiro do tempo em que os filmes ainda eram "grandes". Retrospectiva do realizador no Lisbon & Estoril Film Festival

De sexta-feira, no Lisbon & Estoril Film Festival, e até dia 17 poderemos seguir uma retrospectiva do realizador norte-americano Brian de Palma, membro de uma geração que alterou as regras do jogo do cinema dos anos 70. Entre eles: Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, ou William Friedkin, cineastas inspirados pelas nova vagas europeias e que viviam na ebulição de um país mergulhado numa guerra que matava a sua juventude (o Vietname).

Brian de Palma estudou para não ser chamado para a tropa e refugiou-se na cinefilia. Esse cocktail leva-o a realizar as suas primeiras obras (inspiradas pelas de Godard): Greetings (1968; dia 10, Monumental) e Hi, Mom! (1970; dia 11, Casino Estoril; dia 13, Monumental), talvez as mais políticas de todo o grupo que seria depois chamado, por sua vez, a uma outra "tropa" - Hollywood. Brian de Palma explica ao PÚBLICO: "A guerra do Vietname e o assassinato de Kennedy tornaram-nos conscientes de que o governo estava a enganar-nos. Quando percebemos que nos mentiram sobre a guerra, e quando vimos que o governo estava a fazer a sua defesa do assassinato de Kennedy, nada disso fazia sentido aos nossos olhos. Para nós, que confiávamos nos nossos líderes políticos, isso foi uma revelação. Hoje, obviamente, duvidamos de tudo o que nos dizem."

Duvidar do que nos dizem como duvidar do que vemos: essa tornou-se numa das matrizes do cinema de Brian de Palma. Ainda recentemente procurou desfazer os vários ângulos de um assassinato misterioso (Snake Eyes, 1998; dia 17, Monumental) ou da cobertura mediática de uma guerra (Redacted, 2007; dia 12, 14h). "No Iraque, estávamos a cair, de novo, na mentira de uma guerra, e mandámos para lá miúdos sem defesa para lutar por uma coisa de que não faziam ideia o que era. Tiveram experiências horríveis e reagiram a isso também de forma terrível."

Mas, mais do que com a sociedade, a relação de "engano" que o realizador tenta estabelecer é, em primeiro lugar, com a percepção do espectador. "O cinema pode ser a arte do engano. É possível criar filmes que enganem o público e mintam com as imagens, e há elementos disso no meu cinema."

Algo já exposto nos seus inícios, como no documentário The Responsive Eye (sobre a reacção de visitantes a uma exposição de Op art, 1966; dia 10, Casa das Histórias; dia 11, Monumental), mas soberbamente desenvolvido na ficção por obras como Blow Out (1981; um técnico de som obcecado com o grito de uma morte desconhecida; dia 11, Casino Estoril; dia 13, Monumental) ou Vestida para Matar (1980; dia 11, Centro de Congressos do Estoril; dia 12, Monumental), realizado sob a influência de Hitchcock. Este terá sido dos cineastas mais influentes na sua carreira, ou um dos que melhor lhe terá mostrado a maneira de aprisionar o espectador - pelo medo.

The pictures got small

"Muitas das imagens desenvolvidas nos filmes são inspiradas pelo próprio material com que trabalhamos, mas a vantagem dos filmes de terror e suspense está no facto de assentarem numa linguagem visual específica", explica. Um movimento próprio do cinema - operático e grandioso em De Palma - que permite agarrar-se ao subconsciente de quem o vê (o ponto alto é a obra-prima Carrie de 1976; dia 9, Casino Estoril; dia 15, Monumental). "O voyeurismo é um elemento básico do cinema. É intrínseco à arte, porque o cinema tem a ver com observar uma acção: estamos a apontar uma câmara para uma pessoa que faz de conta que não tem uma lente apontada a ela."

À semelhança dos colegas de geração, reconhece uma linhagem na história do cinema e aplica-a dentro do seu trabalho. "Há uma imensa fonte de filmes no passado que serve para vermos como evoluiu a maneira de se contar uma história de forma visual, algo que já vem desde o mudo. Vimos o que aconteceu quando o som entrou e tornou os filmes em formas estáticas, o que se agravou com a televisão."

Criar para cinema, portanto, continua a ser um formato de características invioláveis - para De Palma, esta ideia traduz-se em filmes marcadamente estilizados. "A beleza é uma ideia importante para mim, e não existe beleza suficiente no cinema, porque ela custa muito dinheiro aos estúdios." Foi essa ideia de "beleza", não necessariamente consensual, que encontrou sempre resistências. "Fazer Scarface [1983; dia 10, Casino Estoril] foi uma luta terrível. Os estúdios diziam que era demasiado violento, tinham imenso medo do filme [sobre o império de um mafioso cubano que se inspira no "sonho americano"]. Vamos sempre encontrar esse tipo de resistência na indústria e não acredito que isso tenha melhorado nas duas últimas décadas."

Assim, tem-se afastado de Hollywood: Passion, o seu último filme (2012; dia 16, Centro de Congressos do Estoril), foi realizado através de uma co-produção franco-alemã - sinal de uma indústria que pouco olha, segundo o realizador, para os ecrãs onde o cinema nasceu. "Muito do que vemos nos ecrãs [de telefone] e na televisão é apenas uma cobertura aborrecida de eventos dramáticos, não são formatos que pareçam conhecer os aspectos necessários para contar uma história de maneira visual. Não se conseguem criar experiências visuais entusiasmantes, que me parecem ser uma parte importante do que o cinema é: imagens grandes feitas para um ecrã grande." Para De Palma, "um filme como Lawrence da Arábia [1962, David Lean] ou Era Uma Vez no Oeste [1968, Sergio Leone] não fariam sentido num ecrã pequeno". Do seu lado, acrescentamos: nem Os Intocáveis, homenagem ao cinema clássico que mergulha num período de conflito da história americana (1987; dia 10, Monumental). "Essa parte da realização perdeu-se hoje, e vemos como os filmes são mecânicos e não trabalham bem a coreografia das sequências. São imagens que se repetem sem fim porque são programadas por um computador." A herança de De Palma é outra: apaixonada e entregue às imagens grandes de uma tela que entra pelas nossas vidas. Por detrás do suspense, será também dos realizadores mais sentimentais (como em Carlito"s Way de 1993, a história trágica de amor de um ex-condenado; dia 11, Centro de Congressos do Estoril). "Sinto-me atraído pela tragédia clássica, porque vejo nela uma forma mais emocional de contar uma história. Só me interesso pela arte que é emocional, é a única que resiste ao tempo."