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Com um traficante de armas perfeito, nenhum Governo se quis meter. Só um estudante de filosofia pacifista o conseguiu deterViktor Bout é um dos mais poderosos e perigosos traficantes de armas que alguma vez existiram.
Fornecia-se nos Exércitos decadentes e indisciplinados da URSS e dos países da Europa de Leste após a queda do conunismo, para abastecer rebeldes e Governos (ao mesmo tempo) em África, as FARC da Colômbia, os muçulmanos da Bósnia, os hutus do Ruanda ou os talibans no Afeganistão. Ea um homem temível e impune, que ajudou a matar milhares de civis e tratava os Presidentes por tu.
Durante décadas, ninguém lhe fez frente. Porque era exímio em operar sempre dentro da legalidade internacional, e porque nenhum Governo o queria atacar, por considerar que talvez um dia viesse a precisar dos seus serviços. Chegou a trabalhar para países democráticos, para ditadores e para guerrilheiros, para os lados opostos de um mesmo conflito, para os EUA e para a ONU. Os poucos inquéritos que se fizeram sobre as suas actividades foram prematuramente arquivados. Até que um homem decidiu atacá-lo.
Johan Peleman, um pacifista belga, decidiu investigar a origem das armas fornecidas aos hutus do Ruanda, que permitiram perpetrar o genocídio de milhões de tutsis. Instalou-se num mosteiro franciscano em Antuérpia e começou a analisar os registos de voos para a região. Foi assim que chegou ao nome de Viktor Bout.
Peleman era estudante de Filosofia. Passara o curso a estudar os textos do filósofo e psicanalista Jacques Lacan. Essa era a sua especialidade, não armas ou crime, economia ou política internacional. Nem tinha cumprido o serviço militar, por se ter declarado objector de consciência. Mas meteu na cabeça que iria apanhar Viktor Bout e levá-lo a tribunal, e fez disso cruzada pessoal. Apoiado pela organização belga International Peace Information Centre e fechado na cela de um monge franciscano, com pizzas e maços Gauloises, começou a organizar um arquivo. Depois viajou para África, Rússia e Médio Oriente. Anos depois, sabia tudo sobre a história e actividades de Bout. Acabou por cooperar com a ONU, com jornalistas, polícias e vários Governos, em operações que acabariam por levar à prisão do traficante.
"Mercador da Morte" é a história de Viktor Bout, mas também a de Johan Peleman. Douglas Farah, ex-chefe do departamento da África Ocidental do "Washington Post", e Stephen Braun, jornalista do "Los Angeles Times" e vencedor de um Pulitzer, acompanharam Peleman e todos os investigadores que, durante anos, seguiram a "carreira" de Bout, sem nada poderem fazer para o deter.
Farah investigou as actividades africanas de Viktor Bout, enquanto Braun se ocupava das relações do traficante com os talibans. O resultado é um livro que se lê de um fôlego sobre uma história incrível, mas, também, sobre a hipocrisia e ineficácia de um sistema internacional onde é possível ser impunemente, durante décadas, um "mercador da morte".