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Através dos sufis, as palavras de Jesus "adquirem uma cor e um vigor insuspeitos"Jesus (Issa) é uma figura venerada pelos muçulmanos e que sempre fascinou a sua imaginação. É repetidamente apresentado no Alcorão como profeta e mensageiro de Deus. No entanto, o seu estatuto e o seu lugar no islão não são monolíticos, variam consoantes as escolas e as interpretações, as épocas, o contexto histórico e o estado das relações islamo-cristãs.
A presença de Jesus é sobretudo viva na tradição sufi, a mística ou a dimensão espiritual do islão, escreve Faouzi Skali, ele próprio sufi. E desde há, pelo menos, um milénio.
O filósofo sufi Ibn Arabi (Múrcia 1165, Damasco 1240) sublinhou que é o próprio Alcorão que anuncia o regresso de Jesus no fim dos tempos, já não como profeta mas como "selo da santidade universal". "Descerá para o meio de nós como árbitro justo."
A tradição sufi começa no desprendimento dos bens terrenos para desembocar numa "revelação". Na mística muçulmana, assinala Skali, "Jesus representa um tipo ideal de pobreza, de ascetismo e de doçura".
Para os muçulmanos, a tradição judaica é essencialmente uma tradição da "Lei", a Lei de Moisés, enquanto a cristã é sobretudo "uma tradição de via, isto é, antes de mais um ensinamento espiritual, uma iniciação."
Este livro não é uma história da relação entre duas religiões mas uma reflexão sobre duas espiritualidades que se confundem. É também uma remissão para grandes figuras da cultura islâmica, como o andaluz Ibn Arabi, o persa Djalal oud-Din Rumi (1207-73, nascido no Afeganistão e que viveu na Anatólia) ou para o também persa Al-Ghazzali (1058-1111), místico, filósofo e pioneiro do método da dúvida.
Se quiséssemos mudar de registo, poderíamos referir outro plano, completamente distinto da abordagem deste livro: Jesus inspira hoje poetas árabes. "A Paixão de Jesus é essencial para os poetas modernos inovadores; nesta via, esperam dar uma nova vida à linguagem e à sociedade", explica Tarif Khalili, professor de Cambridge e também estudioso da figura de Jesus no mundo islâmico. O aspecto mitológico da Paixão, do sangue e da ressurreição, enquanto redenção da Humanidade, marcou poetas como o palestiniano Mahmoud Darwish ou o iraquiano Badr Shaker al-Sayyab.
"Jesus na Tradição Sufi" reflecte também um percurso iniciático. Faouzi Skali (1953), marroquino, antropólogo, foi atraído para o sufismo em França por uma universitária, Eva de Vitray-Meyerovitch, já falecida. É co-autora do livro.
Regressado a Marrocos, Skali encontra a sua "via" no ensino de Sidi Hamza, mestre de uma das maiores confrarias sufis, a Qadiriyya.
É um homem da religião e do mundo. A seguir à Guerra do Golfo de 1990, escuta os ventos do "choque das civilizações", conceito que combate, criando em 1994 o Festival de Fez das Músicas Sacras do Mundo e depois os colóquios internacionais "Uma Alma para a Mundialização". Em 2007, funda o "Festival de Cultura Sufi", também em Fez, onde reúne anualmente figuras de todo o mundo e todos os quadrantes.
Faz parte do Grupo de Sábios instituído pela Comissão Europeia para "O diálogo entre povos e as culturas do espaço euromediterrânico". Em 2001, foi eleito pela ONU como uma das sete personalidades mundiais que contribuíram para o diálogo entre culturas e civilizações.
O islão, frisam os orientalistas, "é indistintamente considerado uma religião, uma ordem social, um sistema político e uma civilização". Começa aqui o problema. Na hora dos integrismos, o sufismo, com larga expressão em todo o mundo muçulmano, não surge apenas como uma "ponte entre religiões e culturas".
"Hoje, o verdadeiro problema do mundo muçulmano é definir a relação entre religião e política", disse Skali ao PÚBLICO em 2005. "Porque se as misturarmos perderemos o próprio sentido da religião. A religião será instrumentalizada e usada como alavanca do poder. (...) Não faz sentido haver partidos com ideologia islâmica." Enquanto via espiritual, o sufismo assenta na possibilidade de uma pluralidade de leituras e na troca de pontos de vista: é o cerne deste livro.
E uma das surpresas da leitura é assinalada, no prefácio, por Jean-Louis Girotto: "Através do testemunho e da vivência dos sufis mais ilustres, os ensinamentos de Jesus adquirem uma cor e um vigor insuspeitos".