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Ficção

Pulp fiction

  • A Visita do Brutamontes
  • Autoria: Jennifer Egan
  • (Trad. Jorge Pereirinha Pires) Quetzal

Crítica Ípsilon por:

Helena Vasconcelos

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9 de 10 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Algures entre 1970 e 2020, vencedores e vencidos, mortos e feridos desaparecem com estrépito no vazio - uma crónica da contemporaneidade que deu o Pulitzer a Jennifer Egan

Tinham passado 40 anos quando o então célebre e aclamado Goethe se cruzou com Charlotte Kestner, a sua inspiração para a figura da jovem que atormentou o seu não menos famoso personagem Werther. O encontro não correu bem: Goethe achou-a uma velha aborrecida e Lotte considerou-o um traste pomposo, desfazendo por completo a imagem que poderiam ainda conservar um do outro.

Esta história poderia bem ilustrar "A Visita do Brutamontes", da americana Jennifer Egan, onde os efeitos perversos do envelhecimento, do esquecimento e da decadência física são transpostos para personagens de diversas idades que ocupam um espaço temporal entre os anos 1970 e um futuro próximo, algures em 2020. Mais cedo ou mais tarde, diz Egan, a "Goon Squad" - isto é, o “Brutamontes” do título - virá bater à porta, para uma visita pouco agradável. Ricos e pobres, famosos e anónimos, homens e mulheres terão de sujeitar-se ao mesmo pesadelo, descrito e revisto numa mistura de farsa e tragédia, ao longo desta narrativa, fragmentada e esfuziante de energia, que arrecadou dois dos prémios mais cobiçados nos Estados Unidos, o Pulitzer para Ficção (2011) e o National Book Critics Circle Award.

Parte do prazer da leitura deste livro cheio de surpresas e armadilhas reside no exercício lúdico de descobrir as ligações entre as diversas personagens e o momento em que os acontecimentos estão a decorrer. A ideia não é original, mas Egan fá-la funcionar, pegando num personagem não demasiado importante, apenas o suficiente para servir de elo de ligação - neste caso Bennie Salazar, músico e produtor de som, ex-membro de uma banda, com o hábito dispendioso de salpicar o café com flocos de ouro, um “tónico” que tem como finalidade devolver-lhe o mojo, o “picante”, o speed de outrora -, e partindo daí para contar episódios da vida de outras personagens que ou o conheceram, ou se cruzaram tangencialmente com ele, ou privaram com amigos/conhecidos, ou ocuparam o mesmo espaço geográfico, ou partilharam uma fracção de tempo com ele ou com alguém que, por sua vez, seguiu caminhos e atalhos dispersos em rotas concêntricas, cada vez mais afastadas do núcleo inicial.

No ambiente glamoroso da indústria discográfica, do cinema, da televisão e dos “eventos” destinados aos “famosos”, tudo reluz e cintila, mas rapidamente se esvai num blackout existencial que não poupa ninguém: os jovens punks com piercings e tatuagens (“já alguém reparou no aspecto das tatuagens em carne envelhecida e em peles flácidas?”) substituem os hippies de longos cabelos brancos que pedem nas esquinas de São Francisco, uma “relações públicas” de nomeada cai em desgraça depois de uma festa que corre mal e de um processo ruinoso que a obriga a aceitar um trabalho para um déspota carniceiro algures no meio de África, e que envolve uma estrela de cinema em fase de “crepúsculo dos deuses”; um poderoso produtor em estado comatoso, ligado a suportes de vida artificial, cujos antigos festins bem abastecidos de substâncias ilícitas atraíam uma corte de amigos e amigas, recebe a visita de uma ex-amante numa enorme casa vazia; uma cleptomaníaca com um filho autista tem direito a um episódio sórdido nas labirínticas ruas de Nápoles; e, quase no final, uma jovem incapaz de criar um fio descritivo tradicional escreve o seu diário em PowerPoint, único episódio que parece deslocado, a não ser que se tome esta opção da autora como outra forma de veicular uma estranha nostalgia (nos anos 2020, o PowerPoint já terá certamente desaparecido) ou como forma de rompimento com a estrutura narrativa convencional, uma opção totalmente compreensível, dada a determinação de Egan em demonstrar agilidade e mestria num campo tão competitivo (pense-se no falecido David Foster Wallace, em Jonathan Safran Foer ou no seu mais directo adversário, Jonathan Franzen) como o romance emergente do século XXI.

Assim, entre vencedores e vencidos, sobreviventes e vítimas, em mansões decrépitas e quartos de hotéis onde o rasto das linhas de coca e as seringas usadas são tão banais como objectos de decoração, estes outrora jovens sem preocupações para além da próxima aventura e da próxima festa vêem-se confrontados com a crise económica, com o terrorismo, com o desaparecimento de referências - e perdidos na Internet, esse santuário global da decadência onde tudo o que é publicado se torna instantaneamente desadequado. Entre carregamentos e descarregamentos para os vários suportes electrónicos - não é por acaso que Bennie se refere à “digitalização” como o “holocausto da estética” -, Egan demonstra a impossibilidade dessa incessante “procura do tempo perdido”, contrapondo-lhe a falibilidade da memória, a incapacidade para ordenar cronologicamente os acontecimentos e a impossibilidade de juntar os estilhaços de um espelho que apenas devolve vislumbres ténues do passado, do presente e até do futuro. Esta fractura é, e sempre será, o drama de quem envelhece, ao perceber que tudo avançou e se desmultiplicou sem ele (ou ela) e que a linguagem - e neste caso a música serve de metáfora para toda a comunicação - se torna cada vez mais ininteligível, acabando por desaparecer no estrépito de um vazio apenas resgatado pelo humor e pela genial compaixão da autora.