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Ensaio

Fantasmas em ecrãs

  • Retromania - Pop Culture's Addiction to Its Own Past
  • Autoria: Simon Reynolds
  • Faber and Faber

Crítica Ípsilon por:

José Marmeleira

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4 de 4 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
Entre o ensaio e a crítica jornalística, "Retromania" insinua um diagnóstico tão provocador quanto estimulante sobre o presente da música popular

Um ano depois do seu lançamento, "Retromania", do crítico inglês Simon Reynolds continua a suscitar discussão e interesse entre editores e leitores. Só este mês, foi traduzido em espanhol, regressou às livrarias inglesas em formato de bolso e algumas das inquietações que atravessam o livro foram retomadas pelo autor na "The Wire" de Abril, com o artigo "Tales From Topographic Oceans", uma brilhante revisão das teorias de David Toop.

Mas quais são afinal as inquietações de Reynolds? Os mais cínicos têm a resposta engatilhada: são as de um homem, nos seus 40 e poucos anos, que rumina no passado, desiludido com o presente e angustiado pelo futuro. Um homem que procura dar sentido ao tempo e à (sua) história. É um ponto de vista redutor, mas razoável se tivermos em conta a tese fundamental de Retromania: o rock não tem hoje a vitalidade estética de outrora. Isto é, não consegue atingir a mesma originalidade ou forçar as rupturas que os últimos 40 anos do século passado testemunharam. É curioso como Reynolds abusa da categoria (o rock), quando os seus géneros de eleição, enquanto ouvinte e autor, são a pop, a música negra de expressão urbana e a música electrónica de dança. Mas já lá vamos.

A tese sustenta-se nos efeitos de uma cultura que nasce da intersecção entre a cultura de massas e a memória pessoal ou entre o consumo e a nostalgia: retro. Apoiando-se nos contributos de historiadores e sociólogos (Raphael Samuel, Fred Davis), o crítico descreve-a como dependente de um passado imediato, de acontecimentos vividos; com acesso ilimitado a um arquivo infinito de sons, imagens e textos; indissociável dos objectos da cultura popular; que não idealiza um passado, mas que o cultiva com ironia e eclectismo.

É esta atitude que infecta a pop contemporânea, esterilizando qualquer possibilidade de progresso estético. Há, com certeza, subgéneros estimulantes, mas nada que exalte a ponto de vir a representar uma época ou assinalar o aparecimento de uma nova forma musical. “Pop is eating itself”. Crítico formado nos anos de ouro da imprensa musical inglesa, que assistiu ao nascimento do hip-hop, do rock alternativo e da cultura rave, Reynolds é um modernista num mundo estranho às narrativas do modernismo. Mas foi com essa moldura que concebeu a história da pop: às experimentações de uma vanguarda (pós-punk) seguiu-se um regresso à tradição (as guitarras e o indie-pop), a revoluções (o rock psicadélico), movimentos reaccionários ou revivalistas (citações dos anos 50 ou regressos às origens do garage-rock). Até ao aparecimento de novas rupturas (hip-hop, disco).

O fim desta dialéctica, ou pelo menos a sua suspensão, deve-se sobretudo às inovações tecnológicas que promoveram a progressiva digitalização da música. Mas também à dificuldade que a pop ainda manifesta sempre que se confronta com a sua história e memória. Entre a expressão artística e a mercantilização, o fazer do artífice e a produção industrial, a emoção e a irrisão, não conseguiu construir cânones perenes, nem discursos comuns ou partilháveis (a academia de Simon Frith continua de costas viradas para a tradição da crítica jornalística e vice-versa), mesmo quando se tornou, a partir dos finais dos 1980, cada vez mais auto-referencial. Daí o desconforto da sua musealização (que Reynolds aborda) e crescente institucionalização (em Portugal, lembramo-nos da Casa da Música e do Centro Cultural de Belém).

Os efeitos da digitalização na experiência e na produção musical (com a Internet, o YouTube, iPod ou o mp3) ocupam uma boa parte de "Retromania", com longos parágrafos dedicados a músicos que trabalham nessas condições e cujos trabalhos o autor tem elogiado publicamente: Ariel Pink, Flyng Lotus, Oneohtrix Point Never, The Focus Group. No entanto, Reynolds não parece reviver o envolvimento, a fruição urgente, o prazer que outros momentos lhe terão proporcionado. Gosta enquanto espectador-ensaísta. A evocação repetida que faz do rock dos anos 60 e do punk é sintomática e é aí que Retromania evita ir mais longe. Porque não foi apenas a vitalidade estética que o rock perdeu. Foi também a vitalidade social e cultural. Sem o actor que o sustentava (a juventude), talvez por razões demográficas nas sociedades ocidentais, separou-se do quotidiano, da rua, da comunidade e (porque não?) do grupo enquanto metáfora de uma família (e de novo, vale a pena ler "Tales From Topographic Oceans"). E vive, cada vez mais, em espaços privados e ecrãs, sustentado na tecnologia.

Apesar desta (pequena e silenciosa) fenda, "Retromania" é um livro excelente. Pelas relações que aprofunda, pelas interpretações que desenha. Os textos dedicados à música japonesa e à sua capacidade de reproduzir e aperfeiçoar géneros, as reflexões sobre a apropriação (de Sherrie Levine aos Ciccone Youth), a crítica implícita aos novos usos do sample, as passagens dedicadas a John Lennon, aos Spacemen 3 ou aos Boards of Canada são do melhor que a escrita sobre a música popular já nos deu. De um mini-ensaio dedicado a "Mystery Train", entre outros filmes de Jim Jarmusch, não resistimos a transcrever um excerto: “From the early eighties on, rock''n''roll recurred only as a ghostly signifier detached from any real-world referents. Like a spook, it moved through the world without affecting it, lingered as a faintly disquieting trace of what-once-was”.