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Ficção

Por um punhado de livros

  • A Informação
  • Autoria: Martin Amis
  • Quetzal (Trad. Jorge Pereirinha Pires)

Crítica Ípsilon por:

Helena Vasconcelos

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1 de 1 pessoas acharam útil a crítica que se segue.
O submundo do meio literário visto pelo talento bilioso e cáustico de Martin Amis

Os grandes ódios entre escritores têm sido pretexto para disputas de proporções homéricas e alvo de um interesse exacerbado por parte de quem ainda guarda a ingénua opinião de que os “artistas” são homens e mulheres especiais, ao abrigo de sentimentos torpes e mesquinhos: a troca de “mimos” entre Hemingway e Faulkner, a cena de pugilato ente Norman Mailer e Gore Vidal - e os murros que foram trocados entre Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa -, o “caso Paul Theroux / V.S. Naipaul”, o ataque de Rushdie a Updike e o de LeCarré a Rushdie, o viperino assalto de Mary McCarthy a Lillian Hellman e, mais recentemente, o atrito entre Jennifer Egan e Jennifer Weiner, para não falar da tensão entre Saramago e Lobo Antunes, demonstram cabalmente o contrário.

E, para que “tudo” ficasse bem claro, Martin Amis escreveu "A Informação".

Martin Amis e Julian Barnes eram amigos muito próximos. A mulher de Barnes era a agente de Amis. Formavam uma “família” feliz de escritores talentosos, no aconchegado meio literário inglês. Mas Amis divorciou-se, trocou a sua amiga e mentora pelo poderoso americano Andrew Wylie, o Chacal, recebeu uma quantia obscenamente alta pelos direitos de A Informação, arranjou os dentes e adquiriu um estatuto semelhante ao de uma rock star. A comoção, as críticas e a indignação subiram de tom. Barnes deixou de lhe falar durante anos. Tudo por causa deste livro publicado em 1995.

Martin Amis é um autor cuja escrita ostenta uma marca muito particular, uma mistura diabolicamente eficaz de humor negro e hipérbole, impelida freneticamente ao longo de páginas e páginas de divertido e estimulante delírio literário, condigna e obsessivamente visível e elaborado neste romance. Como parte da chamada trilogia londrina - com "Money" (1984) e "London Fields" (1989) -, "A Informação" é uma das obras de Amis que mais drasticamente remetem o leitor para Charles Dickens. A extensão da narrativa, o formato “folhetinesco” - com um vasto rol de personagens secundárias que entram, saem e desaparecem e a ausência de acção cronológica -, Londres como cenário principal, em versão contemporânea, da caótica, suja e moralmente desviante cidade vitoriana, a atenção maníaca dada aos pormenores e a eterna questão ética das diferenças entre “ricos” e “pobres” são os ingredientes que servem esta história de rivalidade mortal entre dois escritores, no ambiente muito pouco recomendável da edição literária. Com um prazer óbvio e arrojadamente perverso, Amis tem criado, na senda do seu pai, Kingsley, os mais extraordinários vilões - e vilãs - da literatura ocidental das últimas décadas, gente que se dedica a complicadas relações, com sexo promíscuo e muita bebida e drogas duras, entre criminosos de meia-tijela. Scozzy, Darko, 13, Crash, RoosterBooster, a prostituta Belladonna são o equivalente urbano dos Fagin, Quilp, Heep e Scrooge - pornógrafos com a inteligência de um bloco de cimento, aristocratas decadentes, e vorazes homens e mulheres de negócios.

É neste cenário - e mais tarde no inferno americano _ que se trava uma batalha mortífera (e hilariante) entre Richard Tull e Gwyn Barry. Tull não é Barnes e Barry não é Amis (ou vice-versa), mas a refrega não poderia ser mais fiel à realidade.

Richard é escritor, editor (de "A Pequena Revista"), escrevinhador de recensões “a metro” de volumosas biografias e de poemas de autores obscuros, conselheiro da Tarantula Press e amigo de Gwyn, um tonto pomposo e inofensivo, também escritor, que, subitamente, publica um livro que se torna, da noite para o dia, num fenómeno de vendas. O que Gwyn escreve é muito mau - “palha” -, mas rende-lhe milhões, convites para festivais literários, fotografias em capas de revistas, aparições na televisão, em suma, um tratamento VIP reservado às grandes figuras. O que Richard escreve é óptimo - ele é um purista da palavra, um modernista, apenas um “pouco mais chato do que Joyce” -, mas os seus livros não vendem e o último, apropriadamente chamado "Sem Título", provoca fortes enxaquecas à sua agente (que não passa da página oito) e misteriosos problemas do foro neurológico a todos os que tentam pegar-lhe.

Ao longo da narrativa, à medida que Gwyn fica cada vez mais abastado, mais famoso, mais bem vestido - sapatos de Florença, camisa de Milão, gravata de Siena, e sempre delicodocemente agarrado à sua brasonada, disléxica, ex-cocainómana e loiríssima mulher -, Tull, cada vez mais pobre e obscuro, é sugado pelo remoinho da mais fatal e pura inveja, enquanto a sua vida privada, afectiva e familiar mergulha num extenso e irremediável colapso. O álcool e as drogas ajudam-no a arquitectar vinganças cada vez mais dementes: envia a Gwyn encomendas anónimas, contrata “profissionais” para lhe darem uma tareia, tenta seduzir-lhe a mulher, acompanha-o na tournée literária pelos Estados Unidos (ele em turística e alojado em hotéis manhosos, Gwyn numa luxuosa primeira classe e em hotéis de cinco estrelas), e planeia cuidadosamente destruir-lhe a reputação.

Tull é uma versão liofilizada de Iago e, tal como o tenebroso vilão shakespereano, finge amizade e admiração por Gwyn para não se afastar do seu objecto de ódio, enquanto congemina maquiavélicos planos. Mas "A Informação" é uma comédia e não uma tragédia, pelo que nem Richard nem Gwyn alcançam o estatuto de heróis, mantendo-se num registo, respectivamente, de grotesca ineficácia e de repelente bonomia. Para o fim, os episódios vão-se tornando cada vez mais caricatos e a narrativa ganha contornos de “conto moral”, com a referência à angustia da consciência da mortalidade, da crise de meia-idade (um tema caro a Amis) e de quão ténue é a fronteira entre a embriaguez do sucesso e a vergonha da queda.

Amis, que mostra especial prazer em orientar o seu talento bilioso e cáustico para certos ódios de estimação, tem continuado a acirrar as mentes bem pensantes e politicamente correctas com, por exemplo, a sua análise ao estalinismo em "Koba, the Dread" ( 2002), a revelação dos efeitos perniciosos da revolução sexual em "A Viúva Grávida" (2010) ou a descrição minuciosa da prisão de ventre - “o terrorismo é entediante” - de um dos suicidas que perpetraram o ataque à Torres Gémeas num dos “contos” de "O Segundo Avião" (2008), o que lhe valeu um valente puxão de orelhas por parte da poderosa crítica do New York Times Michiko Kakutani. Mas o smarty anus - o epíteto foi cunhado pela revista Private Eye - começou cedo a utilizar a escrita como veículo essencial para uma crítica mordaz à elite intelectual e à hipocrisia praticada em larga escala na sociedade ocidental. E, neste autêntico hino à inveja e à vingança, cria mais e mais personagens inesquecíveis, a juntar aos Keith Talent, John Self, Guy Clinch e Clint Smoker de tantas outras aventuras.